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Após crise nos gibis, Turma da Mônica se reinventa

Em um país de dimensões continentais, mais de 210 milhões de pessoas em 27 estados e uma rica diversidade cultural, algumas experiências atravessam todo o povo brasileiro. 

Talvez uma das principais delas seja gostar de Turma da Mônica. Dos gibis aos live actions, dos espetáculos nos palcos aos mangás, a Turminha marca a infância e a juventude no Brasil há 67 anos.

Mas a história dos personagens e da marca, Maurício de Sousa Produções, começa muito antes disso! Em homenagem aos 90 anos de seu criador, vamos conversar sobre as mudanças dos gibis e os novos rumos da empresa.

Como tudo começou

Maurício cresceu em Mogi das Cruzes, na década de 40. O criador de gibis que encantaria um país, aprendeu a ler com eles. Eram as histórias da revista “O Guri” que fizeram o rapaz sonhar em contar histórias.

Foi aos 24 anos, em 1959, que suas tirinhas foram publicadas pela primeira vez. Os primeiros personagens a aparecer foram Franjinha e Bidu, no jornal Folha da Tarde!

Entre os pequenos, ele fazia tanto sucesso que suas ilustrações eram constantemente requisitadas pela redação. Assim, ganharam espaço diário nas edições. Embora a vida de repórter e ilustrador fosse desafiadora, ele sabia que os desenhos eram sua sina.

Já na década de 60, pouco antes do surgimento da Mônica, Maurício frequentava as reuniões da  Associação de Desenhistas de São Paulo (ADESP) e, por esse motivo, foi desligado do jornal em que trabalhava. Afinal, as acusações de subversão e a proximidade com ideias de organização sindical e política, se “assemelhando” ao comunismo, não pegavam bem.

Baixinha, invocada e revolucionária

Em 1963, Maurício trabalhava junto com a Folha de São Paulo, publicado na edição infantil, e já tinha outros personagens, como o dinossauro Horácio.

Em um dia comum, desses esquecíveis, ele tentava se concentrar no trabalho, enquanto sua jovem filha implicava com as irmãs. Com apenas dois anos, aquele pinguinho de gente arrastava um coelho pela casa e movimentava tudo.

Foi então, na próxima visita a São Paulo, que o mundo seria apresentado às aventuras da Mônica e do Cebolinha. A turminha inicialmente começou com Mônica e Cebolinha e até 1970 eram tirinhas, igual as comumente encontradas em livros didáticos.

De 1970 a 1986, a editora Abril publicou os gibis da Turma, que já incluía personagens como Chico Bento, Tina e Penadinho. Hoje, com publicação pela Panini, as produções das Turminhas somam milhares de edições.

Apenas a existência da Mônica já soma 63 anos e, como se espera, o mundo não é mais o mesmo. Que bom, que nem a turminha!

Uma marca inclusiva

Nesse sentido, não é exagero dizer que uma infância no Brasil tem a Turma da Mônica. Em maior ou menor medida, uma coleção de gibis ou a leitura deles na escola, os personagens da Turma fazem parte de crescer brasileiro.

Pois nossas crianças são diversas e a Turminha inclui essa diversidade. Os dois personagens PCDs que aparecem com mais frequência nos gibis e animações da TDM são a Dorinha e o Luca.

Dorinha tem baixa visão e, em suas interações com os demais personagens, ela é esperta e dinâmica. Sempre ajudando o Franjinha e trazendo curiosidades nos episódios. Enquanto isso, Luca é um dos crushes da Mônica e é paraplégico. Ele é sempre muito gentil e muito esportista.

Os personagens Tati e André foram adicionados depois, em comparação com Humberto, que é surdo, e Halmir, que usa muletas e aparecem desde 1980. Tati é inspirada em Thatiana Piancastelli e tem síndrome de Down. 

A inclusão de André, que está no TEA, foi acompanhada de episódios da própria Mônica contando com naturalidade o porquê do menino ser mais quieto.

Estilo, crise e críticas na Turma da Mônica

Uma das últimas mudanças mais estruturais e inclusivas é a inserção da Milena, uma personagem negra, na Turma principal. Como grande fã das produções da Turma até hoje, quando assisti “Turma da Mônica: A Série” imaginei que Milena seria uma personagem secundária, como Denise, Marina e a própria antagonista, Carminha Frufru.

Mas felizmente, não. A menina curiosa, inteligente e amante dos animais, hoje faz parte da turma principal e tem gibi próprio. Portanto, o que conhecemos como Turma da Mônica inclui: Mônica, Magali, Milena, Cascão e Cebolinha.

Nesse contexto, as mudanças do clássico causam burburinhos nas mídias sociais, pois além da inserção de uma nova personagem e uma nova dinâmica, a marca também vem sendo criticada pela mudança de traços. 

Viralizaram vídeos criticando os traços dos gibis, considerados genéricos e de qualidade inferior à apresentada anteriormente. O momento foi chamado pelos fãs de “crise dos PNGs” e, dessa forma, refletia um momento de gibis… sem inspiração. 

De um quadro para o outro, nada parecia mudar nas expressões, posições e energia dos personagens. Os fãs criticaram e cobraram a marca, que realmente mudou. Por exemplo, na imagem acima o Cascão está exatamente igual do segundo para o quarto quadrinho. Além disso, o mesmo problema acontecia em outros gibis, embora a dinâmica mais interessante dos quadrinhos seja a mudança de feições de um quadro para o outro, emulando o movimento natural.

Novos caminhos para a turma

Os filhos do Maurício, Mauro (que o interpretou no filme) e Marina (a personagem que desenha), estão tomando a frente da MSP e parecem comprometidos com a importância dos projetos.

Sabe-se que um estilo de arte se manter idêntico por mais de 60 anos é idealismo. Desde as primeiras tirinhas até hoje, o estilo dos gibis e das animações mudou muito.

Mas ainda existe resistência por parte do público, principalmente quanto ao traço e à personagem Milena.

Como dito em outro texto do portal, o protagonismo de uma mulher em ambientes historicamente dominados por homens incomoda e, de forma similar e mais profunda, o grande destaque de uma personagem negra na Turma tem causado reações adversas “sem maiores explicações”.

Nesse contexto, não se diz se é “nostalgia” — e, honestamente, se você ama muito o gibi antigo e não gosta do novo, é só ler o antigo — ou apenas porque a personagem é “ruim”. Apenas não gostam dela e argumentam que ela foi colocada “do nada” no meio do quarteto.

Porém, a própria Magali não surgiu em 1963 junto com os outros 3 personagens. Ela apareceu um ano depois, em uma tirinha do Cebolinha. 

De toda forma, a Turminha está diferente e para melhoe! Mais inclusiva e ainda bem original. Além disso, as adaptações cinematográficas e os novos rumos da marca demonstram o tanto que ela ainda tem a contribuir culturalmente.

Como tudo que é novo causa um leve estranhamento, acompanhe imagens de gibis da Turma ao longo desses 60 anos! Alguns são da minha coleção e outros são imagens retiradas do Pinterest. A mudança sempre acontece e se o que você precisa é de tempo para adaptar seus olhos a ela, fique a vontade nessa sessão!

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Escrito por: Geovana Nunes | Editado por: Maria Clara Machado

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