Diane von Furstenberg leva cor e movimento ao seu retorno à NYFW
Após nove anos longe das passarelas, Diane von Furstenberg volta ao calendário oficial com Henry Zankov na direção criativa e uma coleção que revisita seus códigos sem ficar presa ao passado
Depois de quase uma década longe das passarelas, a maison voltou à Semana de Moda de Nova York na última quinta-feira (10), abrindo oficialmente a programação da temporada Primavera/Verão 2027. O retorno aconteceu em um cenário simbólico para a cidade: a passarela foi montada sobre a High Line, no Meatpacking District, região que também abriga a sede da marca.
Mais do que marcar a volta da etiqueta ao calendário da NYFW, o desfile apresentou uma nova fase para a grife. À frente dela está Henry Zankov, estilista russo radicado em Nova York que já conhecia a casa por dentro: entre 2014 e 2018, trabalhou como designer de malharia da DVF, antes de fundar sua própria marca de tricô. Em maio deste ano, foi anunciado como novo diretor criativo.
A escolha cria uma espécie de retorno para os dois lados. Zankov reencontra uma marca que ajudou a formar seu repertório, enquanto a DVF aposta em alguém familiarizado com seu arquivo, mas que construiu uma linguagem própria marcada pelo uso intenso de cores, misturas de estampas e tricôs gráficos.
O resultado da estreia parte justamente desse encontro: a coleção reconhece o passado da Diane von Furstenberg, mas não parece interessada em reproduzi-lo literalmente.
Henry Zankov traduz o DNA da marca para o presente
Existe uma expectativa quase inevitável quando se fala em Diane von Furstenberg: encontrar o icônico wrap dress. Afinal, foi a peça criada pela estilista em 1974 que transformou a marca em um dos nomes mais reconhecíveis da moda americana e associou suas roupas a uma ideia de independência feminina, praticidade e sensualidade.
Zankov não ignora esse legado, mas também não permite que ele engesse a coleção. O vestido envelope aparece logo na abertura, em jersey com estampa de leopardo, e volta em diferentes interpretações ao longo do desfile. A técnica de envolver o corpo também é deslocada para outras peças, como tops, camisetas e vestidos com amarrações.



Em uma das releituras mais interessantes, a tradicional construção envelope é feita em tecidos mais leves e translúcidos, incluindo jerseys que assumem comportamento próximo ao da seda ou do chiffon. A ideia de envolver o corpo deixa de ser apenas uma referência histórica e passa a funcionar como método de construção.



O arquivo da marca também aparece em outras peças. A camisa usada por Diane na famosa capa da Newsweek ganhou uma nova interpretação por meio de blocos de cor vibrantes, enquanto uma antiga estampa criada pela própria fundadora a partir da junção de etiquetas da marca foi recuperada em uma blusa de gola amarrada e uma saia plissada.



É uma maneira inteligente de trabalhar com memória: em vez de transformar o desfile em uma retrospectiva, Zankov trata os códigos históricos como matéria-prima.
Estampas e alfaiataria ampliam a silhueta da DVF
Se o wrap dress representa a parte mais conhecida da identidade DVF, cor e estampa são os elementos que dão à coleção sua nova personalidade.
Flores, desenhos geométricos, animais e grafismos aparecem lado a lado em combinações que recusam uma lógica muito comportada. Estampas diferentes dividem o mesmo conjunto, criando um efeito propositalmente maximalista.



A paleta também é generosa: roxos, verdes, amarelos, rosas e tons ácidos aparecem tanto em peças inteiras quanto em construções de color blocking. O resultado poderia facilmente cair no território da nostalgia setentista, mas a modelagem e os materiais ajudam a manter a coleção no presente.
Há ternos de cores vibrantes, mas sem a rigidez tradicional da alfaiataria; calças amplas aparecem com jaquetas transpassadas; vestidos de jersey acompanham o corpo; e peças de chiffon e seda criam movimento a cada passo.



Essa fluidez não é apenas uma escolha estética. A coleção parte de uma ideia que Zankov atribui à própria Diane: “body language”, ou linguagem corporal. Para o estilista, a roupa precisa considerar a maneira como o corpo se movimenta, revela, cobre e comunica.
É uma perspectiva que combina especialmente bem com a história da DVF. O wrap dress original já carregava essa lógica: uma peça relativamente simples, feita para acompanhar diferentes corpos e situações, sem exigir que a mulher se adaptasse à roupa.
A sensualidade ganha novas proporções
A sensualidade continua presente, mas aparece de maneiras diferentes. Há vestidos que acompanham o corpo, transparências, saias fluidas, decotes e tecidos que revelam a silhueta sem necessariamente transformá-la em uma imagem rígida de feminilidade.



Ao mesmo tempo, a coleção abre espaço para ternos, calças amplas, jaquetas transpassadas e conjuntos mais relaxados. A mulher imaginada por Zankov não precisa escolher entre sensualidade e conforto, ou entre alfaiataria e fluidez.
Essa variedade também conversa com a ideia de uma mulher em movimento, expressão utilizada pela marca para apresentar a coleção. Os vestidos longos e leves, cortados no viés, ganham caudas que se movimentam com o vento da High Line, enquanto o chiffon amassado e os tecidos transparentes reforçam a sensação de leveza.



Até o styling contribui para esse efeito. Tricôs de trama aberta, peças sobrepostas e elementos que envolvem o corpo aproximam o repertório de Zankov da sensualidade característica da DVF, criando uma ponte entre as duas linguagens.
Uma coleção pensada para a próxima geração
O desafio de Zankov está justamente nesse equilíbrio de reconhecer que a Diane von Furstenberg possui um vocabulário visual forte demais para ser descartado, mas entender que repetir indefinidamente o passado também seria uma maneira rápida de transformar a marca em uma caricatura de si mesma.
O resultado não tenta transformar a DVF em outra marca. A Diane von Furstenberg não volta para repetir o momento que a consagrou nos anos 1970, mas para descobrir como aquela mesma ideia de liberdade, sensualidade e movimento pode vestir as próximas gerações de mulheres.



Na primeira fila e ao fim do desfile, a própria Diane esteve presente. Zankov encerrou sua estreia ao lado da fundadora, em um gesto que resumiu a coleção melhor do que qualquer tendência: não se trata de substituir uma história, mas de encontrar uma nova maneira de contá-la.
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Escrito por Mayla Shiva I Editado por Ana Carolina Gomes


