Nostalgia: por que a GenZ vive do passado?
Nunca foi tão fácil estar em todo lugar, ao mesmo tempo.
Em segundos, a Geração Z ouve bandas que marcaram a época dos pais, dos avós e até dos bisavós. Veneram jogadores de futebol, corredores de Fórmula 1 que não fizeram parte da sua infância. Leem clássicos da literatura como Dostoiévski e Clarice Lispector, vestem as famosas calças skinny de cintura baixa e frequentam lugares com estéticas vintage.

Reprodução/Instagram @/gwencoyne
Em um tempo de cliques incessantes, trends a todo momento, artistas novos e tecnologia em um nível jamais visto antes, por que a nossa geração escolhe olhar para trás? A pergunta aqui não é por que o passado voltou à moda, mas o que que o presente deixou de oferecer para que ele se tornasse tão desinteressante?
Para a psicóloga e neuropsicóloga, Rafaela Fachola, a resposta vai além de uma simples preferência estética: “A nostalgia pode funcionar como um estímulo de emoções positivas. Em algumas situações, especialmente quando a pessoa se sente ansiosa ou solitária, consumir conteúdos nostálgicos pode produzir bem estar emocional. Principalmente quando se procura comunidades que compartilham das mesmas referências. Ao compartilhar determinados elementos culturais, as pessoas encontram outras com interesses semelhantes, formando comunidades e fortalecendo vínculos sociais. Ou seja, muitas vezes não se trata apenas de gostar dos elementos do passado, mas de encontrar formas de se conectar com outras pessoas”.
Nesse sentido, a nostalgia parece funcionar como um caminho para encontrar pessoas e valores com os quais seja possível se identificar e construir vínculos. Mas por que essa sensação de acolhimento parece surgir, tantas vezes, em referências do passado?
Rafaela responde: “A geração Z vive em um constante estado de mudanças rápidas e repentinas, seja por avanços da tecnologia, relacionamentos ou exposições a redes sociais e algoritmos. Tudo muda muito rápido, o que era legal e interessante ontem, já não serve mais como referência no hoje, podemos dizer até em ‘crise de referências’ (…) Eu acredito que o objeto da busca não seja o passado em si ou as figuras representativas, mas a sensação de continuidade e estabilidade que ele representa”.
A GenZ são todos os nascidos entre 1990 e meados de 2010, a primeira a crescer em um mundo profundamente conectado pela internet. Há quem diga que a internet mais afasta do que aproxima. Partindo para o princípio de que a necessidade de pertencimento participa de muitas gerações, mesmo não sendo abordada como é hoje, a profissional reforça: “Se sentir pertencente é necessidade universal do ser humano. Se sentir aceito, reconhecido, parte de um grupo, contribui para o bem estar e construção da identidade. E na juventude isso ganha força justamente por ser a idade onde buscamos nossos pares, onde nos questionamos sobre nossa própria identidade e do que gostamos de fato”.
“Experiências boas de pertencimento ajudam a desenvolver crenças positivas de si mesmo e dos outros. Na terapia cognitivo comportamental (TCC) entendemos que experiências de aceitação ajudam a construir crenças positivas sobre si e sobre os outros. Além disso, compartilhar referências culturais cria uma percepção de similaridade. Quando duas pessoas descobrem que gostam das mesmas músicas, desenhos ou jogos, elas não estão apenas lembrando do passado, também estão comunicando ‘nós somos parecidos’. E essa identificação fortalece o sentimento de pertencimento”.
O passado inspira, mas não pode substituir o presente.
Rafaela encerra: “Sim, existe. É comum lembrarmos do passado enfatizando apenas aspectos positivos e minimizando dificuldades. Esse processo pode gerar uma visão idealizada de determinadas épocas. A nostalgia pode ser saudável e se torna um recurso psicológico quando fortalece vínculos, identidade e emoções positivas. E pode representar uma forma de encontrar pertencimento em um mundo que muda muito rápido. Porém, ela se torna um problema quando faz com que a pessoa passe a acreditar que ‘tudo era melhor antes’ e deixe de investir no presente ou de reconhecer os desafios que existiam naquele período. O equilíbrio está justamente em utilizar o passado como fonte de significado, sem perder a capacidade de construir o futuro”.
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Escrito por Ângelis Auristela I Editado por Ana Carolina Gomes


