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Moda e ancestralidade: o vestir como forma de preservação cultural

Em um cenário marcado por tendências que surgem e desaparecem rapidamente, a moda cumpre um papel fundamental na preservação e valorização de culturas e ancestralidade do povo brasileiro e mundial.

Mais do que reproduzir elementos visuais, incorporar a ancestralidade na moda significa transformar memórias, territórios e saberes em linguagem estética. Nesse processo, cada criação carrega histórias, identidades e formas de pertencimento.

Para a estilista e pesquisadora Lua Tupinikin, criadora da Originária Ateliê, esse processo nasce diretamente da vivência em território e das referências culturais que atravessam sua existência como mulher indígena: “Acredito que a minha identidade cultural é a base para o meu trabalho. Tudo tem base cultural e social na minha vivência em território. A Originária Ateliê é Tupinikim e isso se manifesta em cada trançado do meu trabalho.”

Essa relação com a ancestralidade não aparece apenas como inspiração, mas também como estrutura de criação, atravessada por elementos da natureza, saberes tradicionais e técnicas que fazem parte de sua comunidade: “As referências culturais da Originária vêm, principalmente, do meu território e da minha vivência como mulher Tupinikim. A relação com a terra, com a mata, com o mangue, com os trançados e com os saberes ancestrais do meu povo atravessa o processo criativo do ateliê.”

Ao mesmo tempo, Lua reforça que trabalhar com ancestralidade na moda exige responsabilidade, especialmente para evitar o esvaziamento simbólico de culturas: “O maior desafio é trabalhar com a ancestralidade sem transformar aquilo que tem memória, história e pertencimento em uma estética vazia. É preciso cuidado para não folclorizar, não descontextualizar e não reduzir a cultura a um recurso visual.”

Se para Lua a ancestralidade está enraizada no território e na produção coletiva de saberes, para o criador de conteúdo Luis Henrique – ou “Luishique” para os íntimos, ela também se manifesta na forma como a própria trajetória pessoal é transformada em linguagem visual.

Nascido em Recife (PE), ele conta que cresceu entre o desejo de atuar na moda e as limitações impostas pela realidade social: “Eu era uma criança preta, afro-indígena, que morava numa comunidade de Recife, então as portas para chegar dentro deste cenário eram muito limitadas para mim.”

Com o tempo, encontrou nas redes sociais uma forma de transformar vivências pessoais em narrativa estética, unindo moda, arte e identidade: “Aos poucos, fui falando sobre moda circular, brechós e transformando meu quarto em cenário de editorial. Trabalhava muito no meu lado artístico e colocava ele em prática dentro da rede social.”

Esse processo culmina em produções que unem memória individual e coletiva, como no seu projeto realizado no Rio Fashion Week, onde o criador traduziu suas referências afro-brasileiras, indígenas e nordestinas em looks conceituais: “Quis trazer dentro de uma cultura existente o que eu tenho como físico aqui para transformar em um look e numa mensagem que eu quero passar”.

Seja na criação de coleções ou na construção de narrativas visuais, moda também é leitura de mundo. Para o modelo e analista de marketing Leandro Scanteblury, vestir-se é uma forma direta de comunicação e afirmação de identidade: “Antes mesmo de falar, a forma como nos vestimos já comunica algo sobre quem somos, como nos sentimos e quais referências carregamos. Como homem negro, gay e nortista, a moda sempre foi uma ferramenta para afirmar minha identidade.”

Essa comunicação não precisa ser sempre explícita, mas se constrói nos detalhes e significados atribuídos às peças: “Nem sempre essa conexão é explícita, mas muitas vezes ela está nos detalhes, nas referências e nos significados que determinadas peças carregam para mim.”

Leandro finaliza: “Ao longo da vida, já escolhi peças, estampas e acessórios que dialogavam com minhas origens e com a cultura negra brasileira. Também tenho um carinho especial por elementos que remetem ao Norte do país, de onde venho. Significa vestir uma história. Quando uma peça tem valor cultural, ela deixa de ser apenas uma roupa e passa a representar memória, pertencimento e identidade. É uma forma de manter vivas referências que fazem parte da minha trajetória e de demonstrar orgulho das minhas origens. Acho que existe uma potência muito grande na moda quando ela nos conecta com quem somos e com as comunidades das quais fazemos parte”.

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Escrito por Ângelis Auristela I Editado por Ana Carolina Gomes 

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