John Galliano: conheça a trajetória do estilista homenageado no Met Gala 2027
De gênio da alta-costura ao cancelamento por declarações antissemitas, o britânico orquestrou seu retorno à moda e agora divide opiniões ao ser anunciado como tema da maior exposição do Metropolitan Museum
Poucos nomes na história da moda provocam reações tão intensas quanto o anúncio de John Galliano no Met Gala 2027. Considerado um dos estilistas mais geniais e teatrais de sua geração, Galliano construiu um império criativo, caiu em desgraça diante do mundo em um dos maiores escândalos do mercado de luxo e, anos depois, orquestrou um dos retornos mais impressionantes da cultura pop.

A origem de John Galliano
A história de John Galliano começa em 1960 em Gibraltar, um território britânico na costa da Espanha. Nascido Juan Carlos Antonio Galliano Guillén, o estilista mudou-se com a família para o subúrbio de Londres aos seis anos. Como resultado dessa adaptação à cultura britânica, ele alterou seu nome de batismo para John, marca que o acompanharia por toda a carreira.
Enquanto os jovens dos anos 1980 protestavam contra as políticas de Margaret Thatcher e o desemprego, o jovem Galliano passava horas em seu quarto desenhando croquis. Além disso, ele reuniu suas ilustrações em um portfólio impressionante. Por causa desse talento, o estilista garantiu uma vaga na Central Saint Martins, a mais prestigiada universidade de moda de Londres, aos 20 anos.
Desde cedo, Galliano demonstrava uma veia artística única, unindo a moda ao teatro com maestria. Durante a faculdade, inclusive, seu primeiro emprego foi como camareiro no National Theatre e assistente do alfaiate Tommy Nutter. Consequentemente, ao se formar em 1984, seu brilho criativo já chamava a atenção de toda a indústria, consagrando-o como o melhor aluno de sua turma.
Por essa razão, seu desfile de formatura tornou-se um dos eventos mais disputados da época. Batizada de “Les Incroyables” (“Os Incríveis”), a coleção foi inspirada na Revolução Francesa e no filme Napoleão (1927), de Abel Gance. De fato, a figura do líder francês sempre inspirou Galliano pela imponência e complexidade. Finalmente, esse trabalho trouxe marcantes referências da moda masculina do final do século XVIII, consolidando o estilista como uma grande promessa da moda mundial.

Da Crise em Londres ao Topo de Paris: A Conquista das Grandes Grifes
Em 1987, John Galliano recebeu o prestigiado prêmio de Estilista Britânico do Ano. Além disso, ele conquistou novamente o mesmo título nos anos de 1994, 1995 e 1997, consolidando sua relevância na indústria.
No entanto, o início de sua carreira comercial foi bastante desafiador. Logo após sair da faculdade, o estilista tentou lançar sua própria marca, mas o projeto fracassou devido à forte crise econômica que atingia a Inglaterra. Por essa razão, em 1991, Galliano decidiu trocar Londres por Paris em busca de novas oportunidades.
Inicialmente, a vida na capital francesa foi difícil, pois ele não tinha recursos financeiros. Apesar disso, Galliano contava com o apoio incondicional de seus amigos do meio da moda. Como todos enxergavam nele um talento brilhante, ofereciam ajuda voluntária para produzir seus desfiles, pois queriam fazer parte do seu futuro promissor.

O Desfile da Virada e o Apoio das Supermodels
Consequentemente, esse movimento em Paris fez com que seu nome ganhasse ainda mais destaque no circuito internacional. Com isso, Galliano chamou a atenção de personalidades influentes do setor, como Anna Wintour, editora-chefe da Vogue. De fato, esse primeiro contato foi o ponto de partida para uma grande parceria e amizade que se mantém forte até hoje.

Graças a essa rede de contatos, Galliano conheceu São Schlumberger, uma influente socialite e patrona das artes que morava em uma mansão ao lado da Torre Eiffel. Sensibilizada por seu talento, Schlumberger ofereceu sua própria residência para que o estilista realizasse seu desfile em 1994.
Além disso, o evento contou com a participação voluntária de algumas das maiores supermodels do planeta, como Naomi Campbell, Cindy Crawford e Kate Moss. Como nenhuma delas cobrou pelo trabalho, a apresentação foi um sucesso absoluto sem custos para o designer. Consequentemente, a ocasião serviu para promover seu trabalho de forma grandiosa, atraindo ainda mais holofotes e confirmando o futuro brilhante que a indústria enxergava em seu talento.
A Liderança nas Maiores Casas de Moda
Durante essa apresentação marcante, Galliano chamou a atenção do empresário Bernard Arnault, dono do grupo LVMH. Naquela época, o executivo havia acabado de adquirir a grife Givenchy e precisava de um novo diretor criativo para revitalizar a marca. Por essa razão, Arnault convidou John Galliano para o cargo em 1995. Pouco tempo depois, ao comprovar sua capacidade técnica, o estilista assumiu a direção da lendária casa Dior, consagrando-se como o nome ideal para liderar o grupo.
Depois disso, em 1996, assumiu como estilista-chefe da Dior e estreou sua primeira coleção em 1997. Mais tarde, tornou-se diretor criativo da Maison Margiela em 2014 e, mais recentemente, anunciou uma marcante coleção em parceria com a marca Zara em 2026. Além de tudo isso, ele comandou sua marca própria “John Galliano”, fundada na década de 1980, e realizou uma colaboração temporária com Oscar de la Renta em 2013. Durante esses períodos, ele colocou a alta-costura no topo, tornando-se um dos maiores nomes da história da moda.

A queda e o escândalo de John Galliano
Como vimos antes, o interesse de Galliano por líderes autoritários tomou um rumo trágico que destruiu sua reputação. Em 2011, uma testemunha registrou o estilista completamente embriagado em um bar parisiense. Durante a conversa, ele declarou “eu amo Hitler” e atacou frequentadores do estabelecimento com ofensas racistas e antissemitas.
Como resultado das ofensas, as autoridades francesas prenderam o estilista. Além disso, a casa Dior formalizou sua demissão no dia seguinte ao escândalo. Dessa forma, a grife afastou o estilista do comando a pouquíssimos dias da apresentação da coleção de Outono/Inverno.
Depois do escândalo e da prisão, Galliano pediu desculpas publicamente e internou-se em uma clínica de reabilitação para tratar o vício em álcool e drogas. Consequentemente, essa decisão provocou seu afastamento do mundo da moda por vários anos.
Mais tarde, no documentário “Ascensão e Queda – John Galliano” (2023), o próprio estilista refletiu sobre o episódio ao declarar: “Foi algo nojento e horrível […]. Eu não conseguia reconhecer aquela pessoa”.
A polêmica de John Galliano no Met Gala
Não é segredo que Anna Wintour, editora da Vogue, lidera a escolha dos temas do Met Gala. Como ela mantém uma antiga amizade com John Galliano, defendeu publicamente que o designer merece essa grande homenagem na edição do evento.
Dessa forma, a confirmação de John Galliano no Met Gala o tornará o terceiro estilista da história a receber uma exposição dedicada, juntando-se a nomes como Yves Saint Laurent e Rei Kawakubo. De fato, a expectativa da indústria indica que esta celebração atrairá um público recorde de participantes.
Além disso, Wintour afirmou em comunicado que a exposição examinará o impacto positivo, os erros e os momentos sombrios da carreira do designer até os dias atuais. Segundo a jornalista, o talento de Galliano não se reduz a um único episódio trágico, embora ele precise conviver com as consequências de seus atos. Por essa razão, a mostra não apagará nenhum trecho de sua trajetória e apresentará todo o seu arco histórico.

Divisão de Opiniões e o Debate com Lideranças Religiosas
No entanto, por estarmos vivendo um cenário geopolítico tenso, a escalada do antissemitismo transformou essa escolha em um debate inflamado nas redes sociais. Dessa maneira, o público divide opiniões entre aqueles que celebram o gênio criativo e os que consideram a ideia inaceitável.
Apesar das críticas, Anna Wintour e o curador Andrew Bolton já planejavam homenagear Galliano há anos. Contudo, eles adiaram o projeto no passado devido a sensibilidades políticas. Recentemente, o jornal New York Times revelou que a dupla reuniu-se com influentes líderes religiosos de Nova Iorque para avaliar os impactos da exposição na fase inicial de planejamento.
Entre os entrevistados, o rabino Joshua Davidson destacou o potencial educativo da iniciativa. Segundo o religioso, o museu construirá uma mensagem poderosa, comovente e produtiva se aproveitar a oportunidade para ensinar sobre a realidade do antissemitismo, inserindo na mostra a importância do combate ao preconceito no mundo contemporâneo.

Um legado entre o gênio e a controvérsia
Em última análise, a trajetória de John Galliano permanece como uma das mais fascinantes e complexas da história contemporânea. Se por um lado seu talento teatral revolucionou a alta-costura e definiu o luxo dos anos 1990 e 2000, por outro, seus erros deixaram marcas profundas que a indústria jamais esquecerá. Portanto, a exposição no Met Gala 2027 não será apenas uma exaltação ao seu trabalho visual, mas também um teste sobre os limites da redenção, da arte e da memória na cultura pop mundial.
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Escrito por Amanda Paganini I Editado por Ana Carolina Gomes


