Homens com H, os cangaceiros costuravam
Com a chegada do inverno temos também às tradições juninas no Brasil. A canjica, o quentão, o mungunzá, o forró, o baião, o xaxado e as roupas. A estética maximalista, colorida do sertanejo e os elementos de couro que referenciam ao cangaço.
A moda não é fútil e uma série de razões prova isso. Se vestir, se enfeitar não é apenas para cobrir a nudez ou ficar mais bonita. Um estilo, uma única peça ou um conjunto delas carregam a identidade de quem veste, do seu tempo e de seu povo.

Uma estética de contracultura não é aleatória e a estética do cangaço é um exemplo disso. Hoje vamos conhecer mais sobre como as imagens tão icônicas dos cangaceiros foram pensadas.
Esse mundo é de Deus não é do homem nem do diabo
Não é incomum que outras instituições sociais assumam determinados papéis quando o Estado é negligente. O Brasil é marcado desde o século XVIII pela má distribuição de terras e os conflitos a partir dela.
E o cangaço surge justamente deles. “O cangaço se caracterizou por ter sido um movimento social armado, contextualizado por disputas políticas, por terras e de lutas pela honra”, afirma Wilson Alvares dos Santos, bacharel em geografia pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).
José Gomes, o Cabeleira, foi o primeiro cangaceiro da história. Diferente de grupos que viriam depois, Cabeleira não aparentava ter causas sociais.
No começo do século XX, a região semiárida do nordeste sofria com a exploração e a má gestão dos políticos da Primeira República. De 1889 à 1930, a também chamada de República do Café com Leite, atuava no interior de forma a sempre favorecer os latifundiários, as oligarquias.

É nesse contexto que cangaceiros como Corisco, Antônio Silvino e o grupo de Lampião, que se tornaria o mais notável deles, agiam no sertão e suas ações tinham uma razão social e política.
Tudo para eles, da sandália ao cantil de água, tinha uma razão de ser.
No sertão de meu padrinho cabra assim não tem vez não
“Havia orgulho em tudo aquilo, um esforço para que se pudesse chegar ao anseio de beleza de cada um dos cabras. Era notável ainda um desprezo sistemático pela ocultação da figura, atitude oposta à de quem se considera criminoso”, afirma Frederico Pernambucano de Mello sobre Lampião.
O historiador e autor do livro Estrela de Couro: a estética do cangaço, no qual essa matéria se baseia, descreve minuciosamente as peças usadas pelos cangaceiros. Com imagens dos itens e declarações da época, Frederico constrói um rico e importante material sobre os estilistas do cangaço.

No bando de Lampião tinha uma máquina de costura. Nada em seus trajes era aleatório. “Quando eu desci para o riacho, avistei logo aquele homem alto, moreno, chapelão com umas estrelas graúdas, faiscando de ouro. Era Lampião”, fala de Durval de Cândido à Frederico Pernambucano.
A imagem do “bandido moderno” no cinema e na TV contempla a clássica balaclava preta, a roupa camuflada e o jeito furtivo. No extremo oposto, o cangaceiro era maximalista. Mesmo que agisse na ilegalidade de sua época, as escolhas estilísticas buscavam engrandecer a sua figura.
Belo é o Recife pegando fogo na pisada do maracatu
E Lampião se destacava não apenas pelos seus feitos ou pelo bando que liderava, mas pela imagem e figura imponente que era. “Lampião, em particular, era alvo da atenção e admiração de todos. Sua cartucheira tinha dois palmos de largura e continha quatro fileiras de cartuchos, e duas mais de botões de ouro e prata”, afirma Alexandre Barreto no livro Lampião, o rei dos cangaceiros.
A riqueza e importância dos detalhes se estendia até as coleiras dos cães, pois elas tinham elementos em prata e por trás de tudo tinha um motivo, mas sobre isso falaremos mais adiante.
“O bando de Lampião, sobretudo nos anos 1930, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”, diz Frederico. Lampião é uma figura importante, imponente e frequentemente ligada à força, virilidade e violência.

E essa mesma figura sabia bordar de forma excepcional, confeccionar seus trajes, planejá-los em sua totalidade. Suas habilidades manuais e sua postura de estilista não o rebaixava nem como homem, muito menos como cangaceiro.
Se hoje os homens ligam a masculinidade ao oposto de tudo que é “feminino” como forma de superioridade, se vestindo de forma pobre e pouco inspirada, o cangaço, há quase 100 anos, demonstra o óbvio: moda não é coisa de mulher, é coisa de gente.
Na margem do São Francisco, nasceu a beleza
No meio da caatinga, o clima semiárido e a paisagem pouco convidativa o cangaceiro se adornava, coloria seus acessórios e brilhava ao sol com o ouro que compunha o traje. O mais emblemático de seus componentes é, sem dúvida, o chapéu.
“Na cabeça, grande, alto, vistoso chapéu de couro, ainda novo, bem talhado, a imitar os antigos chapéus de dois bicos, com as pontas para os lados, tendo as largas abas da frente e de trás erguidas e enfeitadas. Uma estreita tira de couro, ornada, o prende à testa; uma outra, à nuca, e uma terceira, o barbicacho, aos queixos. Este chapéu fica, assim, bem seguro e, apesar da altura, não deve cair com facilidade”, é o Padre Artur Passos quem descreve o chapéu de cangaceiro.

A fala, retirada do livro O incenso e o enxofre, descreve a estrutura do chapéu, mas ele vai muito além disso. É nele que se concentra a maior parte dos símbolos do cangaceiro.
Muito mais do que apenas um item usual, o item é tão importante que Lampião e seu bando trocam ele por um chapéu mais simples ao se unir ao Governo Federal, em 1926, para reprimir os participantes em revolta da Coluna Prestes.
Eu muito conto com meu Deus que tá no céu
“Como expressão de arte, o chapéu tem vida própria, podendo ser lido, em seus aspectos estético e místico, com ou sem o geral da vestimenta, ao modo da carranca do São Francisco em face do barco que isolava”, afirma Fernando.
O símbolo geralmente mais visível era a estrela de Salomão. Cada uma de suas partes representava um elemento: fogo, água, terra e ar. A soma da característica de cada elemento e seu oposto formava um todo completo.

“Está aí todo o universo. Toda a grandeza. A unidade cósmica. E a humildade contida na síntese dos opostos” narra Frederico. Não por acaso esse símbolo tão rico estava justamente na cabeça do cangaceiro.
Outros elementos são igualmente interessantes, como os bornais e cantis coloridos e vibrantes. As sandálias de couro, as bandoleiras bordadas e enfeitadas. Moedas e elementos de ouro também eram incorporados nos trajes. A flor-de-lis, o lírio, representavam pureza, inocência e eram muito utilizados.
Crucifixos e colares de Jesus em ouro, a cruz de malta e orações também eram carregados pelo bando de Lampião, por ele e por Maria Bonita. Porque os símbolos e os elementos estéticos têm em si uma importância espiritual.
Eu te anuncio no sino das catedrais
Apesar do cangaço ter características claras e partilhadas por seus integrantes, não é um movimento homogêneo. Lampião, por exemplo, não era muito ligado aos seus sonhos. Diferente de Antônio Silvino que, segundo Frederico Pernambucano, era “escravizado pelo onirismo, de exacerbação devida talvez ao amor que devotava ao jogo do bicho”.
Os sinais, devido ao modo de vida rural, eram muito importantes para os cangaceiros. Carregavam consigo patuás, elementos de proteção do chapéu ao traje. As coleiras prateadas usadas pelos cães tinha como objetivo espantar o mau olhado.
Visões, presságios, sonhos, avisos e premonições podem soar supérfluos para a modernidade urbana, mas em contextos onde se corre perigo constante e se convive com a natureza de forma intensa, a relação com tudo que é místico é intensa.

Cabritos saltando sem motivo aparente, uivos de raposa quando não há lua, pássaros brigando ou se chocando contra chapéus de viajantes… tudo mau agouro.
“Matar cobra? Nem pensar. Quem está doido de chamar bala sobre o próprio couro?”, diz Frederico.
Portanto, a estética que tratamos aqui, e a moda como um todo, não pode ser resumida ao utilitarismo. Cada elemento tem sim função, seja um porta-cantil colorido, moedas e aneis brilhantes ou uma bandoleira e cartucheira bordadas.

Mas principalmente, a cultura influencia muito como cada escolha se dispõe. O uso de muitos anéis, por exemplo, tem influência árabe. E como está claro ao longo da matéria, moda não é feminina ou masculina, é humana. Ainda assim, cabe um bloco para falar sobre a estética das cangaceiras.
Ou é só brilho feminino ou é só brilho de mulher?
Mesmo que costurar e bordar não diminuísse a masculinidade de nenhum cangaceiro, os papéis de gênero se colocavam de outras formas. O icônico chapéu de couro, por exemplo, era “coisa de homem”. Como sua origem é pastoril, não poderia ser associado a uma mulher.
As cangaceiras usavam então um chapéu de feltro de aba com 8 cm e jamais poderia ser quebrada para o alto. Era necessário diferenciar homem de mulher, e a moda serve também a esse propósito.

O chapéu de Maria Bonita, rainha do cangaço, era impressionante segundo Melquídes da Rocha. O jornalista teve a oportunidade de pegá-lo em 1938.
Era de feltro, tinha uma faixa de camurça adornada com libras de ouro. Além de uma testeira e uma passadeira com botões e medalhas de metal precioso.
Maria Bonita foi a primeira mulher a entrar no cangaço. Depois dela, outras mulheres também participaram do bando de lampião. Seus vestidos de batalha tinham detalhes em flor e detalhes em metal pendiam da barra dele.
As cangaceiras Joana Gomes e Inácia Maria de Jesus usavam perneiras compridas e adornadas. Elas usavam lenços presos ao pescoço e vestidos de manga comprida. Nas fotos do livro de Frederico, Maria Bonita normalmente aparece usando sandálias de couro sem as perneiras.
Oia eu aqui de novo, xaxando. Oia eu aqui de novo, para xaxar
Você possivelmente já ouviu arrasta pé, forró de arrastar as sandálias, baião, xaxado e maracatu. São ritmos típicos do nordeste do Brasil, muito ouvidos nas festas juninas e eternizados por Luiz Gonzaga, Gonzagão ou o Rei do Baião. Assim como o povo é influenciado pela cultura, ele produz cultura. Cultura, afinal, é tudo que um povo produz em seu tempo.
“Precisa acabar com essa história de que cultura é uma coisa extraordinária. Cultura é ordinária. Cultura é igual a feijão com arroz. É necessidade básica. Tem que estar na mesa, tem que estar na cesta básica de todo mundo […] A responsabilidade com a cultura é a responsabilidade por sua própria vida. Porque tudo é cultura”, essa é a fala de Gilberto Gil, que além de grande expoente da música brasileira também foi Ministro da Cultura.

O cangaço influenciou a cultura brasileira para além da estética. A música foi profundamente influenciada pela criação dos cangaceiros. O xaxado surgiu nesse contexto, um ritmo criado pelos bandos de cangaceiros, principalmente o de Lampião.
Eles dançavam, cantavam e compunham canções que conhecemos até hoje. A música “Mulher Rendeira” foi escrita nessa época.
“Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar” é um verso que vem do cangaço, mas não apenas. Aparece na música “Refazenda” de Gil e está no imaginário popular.
Xaxado é dança macha dos cabra de Lampião
Curioso que, como vimos, os cangaceiros dominavam bem a arte da costura e do bordado. Mas as técnicas de tecelagem, e a renda como uma vertente dessa, normalmente são dominadas pelas mulheres. Especialmente no nordeste muitas delas vivem a partir da renda que produzem e vendem.

Até em momentos mais viscerais e mórbidos, o cangaço inspira a cultura brasileira atualmente. Em 28 de julho de 1938, em Poço Redondo, Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros foram assassinados.
A imagem das cabeças arrancadas ao lado dos chapéus é emblemática. O filme “Bacurau” faz uma referência catártica a essa cena. O ato de colocar os chapéus ao lado das cabeças, quando eles deveriam estar em cima delas, é de uma simbologia impactante.
O cangaço, como movimento social, deixou sua marca de formas muito distintas na memória, na música, na moda, na história e nos costumes. A riqueza dos detalhes que constroem a imagem icônica do cangaceiro é imensa.
E como se falou muito sobre música nesse texto, preparei uma playlist com todas as canções que inspiram os subtítulos desses blocos. Espero que curtam!
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Escrito por Geovana Nunes I Editado por Ana Carolina Gomes


