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De Caracas a São Paulo: por que a cultura venezuelana encontra espaço na moda brasileira

O tuki é uma subcultura urbana surgida em Caracas, na Venezuela, no início dos anos 2010, associada principalmente a jovens das periferias que criaram uma estética própria a partir da música eletrônica popular, da dança e de uma forte identidade visual marcada por cores vibrantes, roupas chamativas e referências do cotidiano urbano.

Segundo reportagens do BBC Mundo e análises de pesquisadores da cultura juvenil venezuelana publicadas em veículos como El Nacional e estudos sobre culturas periféricas latino-americanas, o movimento tuki se consolidou como uma forma de expressão estética e social de juventudes marginalizadas, frequentemente estigmatizadas pela mídia tradicional, mas fundamentais na construção de novas linguagens culturais nas cidades.

Foi justamente esse movimento que chamou a atenção do estilista venezuelano Ray Martinez ao chegar ao Brasil. Fundador da marca RUD, ele passou a incorporar referências da cultura tuki ao streetwear paulistano, não como uma “tendência importada”, mas como um diálogo entre duas histórias que se parecem.

Quem conversa conosco é o assessor de Ray, Gabriel Ferreira: “O movimento tuki mescla muito com os movimentos periféricos e ressoa muito hoje no funk. Assim como o funk, ele começa marginalizado e nasce nas periferias de Caracas”.

Reprodução: Assessoria RUD/Instagram

No Brasil, o caminho foi parecido.

Antes de ocupar festivais, passarelas e campanhas publicitárias, o funk também foi tratado como expressão de uma juventude periférica que precisava disputar espaço para existir. A roupa fazia parte dessa narrativa. Não era apenas uma escolha estética, mas uma forma de afirmar quem se era e de onde se vinha.

Para Ray, é justamente essa origem compartilhada que aproxima Caracas de São Paulo.

“Esse movimento faz uma transição muito boa aqui com o Brasil, principalmente com São Paulo, por ser muito plural. Hoje existe um distanciamento das subculturas e das culturas que nascem em comunidades não hegemônicas.”

Ao longo da conversa, Gabriel cita referências que ajudam a entender essa aproximação. Os rolês, o colorido dos anos 2000, marcas como Cavalera e Marcelo Sommer e até a explosão visual provocada pelo Restart aparecem como momentos em que a moda paulistana permitia mais experimentação.

Na visão dele, essa liberdade foi sendo substituída por uma estética cada vez mais homogênea.

“O tuki parece novo, mas aqui em São Paulo ele já é antigo. Ele flerta muito com uma São Paulo passada.”

A frase resume um sentimento compartilhado por quem acompanhou a transformação do centro da cidade. Espaços como a Rua Augusta e a Praça Roosevelt continuam reunindo diferentes públicos, mas já não carregam a mesma diversidade estética de outros tempos.

Reprodução: Assessoria RUD/Instagram

“Hoje você vê muita padronização. O estranho também está mudando porque alguém está pagando para o estranho ser colocado debaixo do tapete”, afirma.

É nesse cenário que a RUD busca construir sua identidade.

Em vez de reproduzir tendências internacionais, a marca parte da experiência de um imigrante latino-americano para criar coleções que conversam com outras periferias do continente. A intenção não é apenas vender roupas, mas provocar conversas sobre pertencimento, memória e ocupação dos espaços urbanos.

Essa proposta aparece na forma como Ray define a própria moda.

“A roupa pode ser um ataque ou uma defesa. Ela pode provocar curiosidade, fazer você pensar diferente, mas também pode ser uma forma de se blindar.”

A ideia ganha outro significado quando atravessa a experiência migratória. Deixar o próprio país significa também reconstruir a própria identidade em um lugar desconhecido.

“O Ray nasce também de um corpo imigrante. Existe esse questionamento: será que eu preciso estar com uma armadura para poder socializar porque eu não nasci aqui?”

Reprodução: Assessoria RUD/Instagram

Ao vestir uma peça, portanto, não está em jogo apenas a estética. Existe uma tentativa de preservar histórias, afirmar origens e reivindicar espaço em uma cidade onde diferentes culturas convivem diariamente.

A conversa também passa pela comunidade LGBTQIAPN+, público que sempre esteve próximo da marca. Para o pesquisador, a moda continua sendo um dos principais instrumentos para questionar padrões de masculinidade e ampliar as possibilidades de expressão.

“O homem no Brasil ficou muito padronizado. O Ray quer trazer uma ideia mais ousada.”

Mais do que recuperar uma estética específica, o trabalho da RUD propõe uma reflexão sobre o momento vivido pela moda urbana. Em um cenário cada vez mais guiado por tendências globais e algoritmos, a marca olha para a América Latina como fonte de referências próprias.

No fim, o diálogo entre Caracas e São Paulo não acontece porque uma cidade copia a outra. Ele acontece porque ambas compartilham experiências semelhantes de periferia, imigração, diversidade e resistência cultural.

Nesse encontro, a moda deixa de ser apenas consumo. Ela passa a contar histórias que, apesar de nascerem em países diferentes, falam a mesma língua.

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Escrito por Ângelis Auristela I Editado por Ana Carolina Gomes 

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