A cultura da sexualização em relação aos looks de artistas femininas
Como as críticas às roupas utilizadas por artistas como Olívia Rodrigo e Sabrina Carpenter tem relação com a cultura da pedofilia na sociedade?
Durante o sucesso do novo álbum da Olívia Rodrigo, “you seem pretty sad for a girl so in love“, foram levantados muitos debates acerca dos looks utilizados pela artista nos shows e videoclipes de promoção do disco. Babados e vestidos estilo “baby-doll” causaram questionamentos dos telespectadores, que teceram críticas à cantora, dizendo que ela estava “se sexualizando enquanto usava roupas claramente infantis”.
A Sabrina Carpenter foi outra artista que sofreu críticas parecidas. Após o lançamento do seu álbum “Man’s Best Friend“, no qual a cantora utilizou bastante do estilo coquette – laços, rosa, lingeries e renda – muitos internautas disseram que ela estaria usando referências do universo infantil ao criar essa estética mais sensual nas promoções do álbum e nos shows.

Normalizamos a pedofilia em nossa cultura
Associar elementos como lingeries e baby-doll ao universo infantil é, no mínimo, perturbador. Crianças não utilizam esse tipo de roupa. Além disso, as artistas são mulheres adultas e dançam de forma sensual no palco. Mesmo que as vestimentas delas sejam algo mais fofo e delicado, porque esses elementos, considerados femininos, automaticamente são associados à infantilidade?
A própria Olívia rebateu essas críticas, em entrevista ao Popcast do The New York Times. Ela disse que sente que já usou roupas que talvez fossem reveladoras no palco, mas que para as pessoas isso não era inapropriado. E afirma: “Mas eu, completamente coberta com um vestido que as pessoas consideram infantil, é ‘inapropriado’. E acho que isso mostra como realmente normalizamos a pedofilia em nossa cultura”.

Os looks usados pela Olívia e pela Sabrina são inspirações de décadas passadas. A Sabrina utiliza bastante minissaias e botas de cano alto, inspiradas nos anos 70. Já os baby-dolls, da Olívia, são inspirados em estrelas dos anos 90, como Kathleen Hanna, vocalista da banda Bikini Kill e fundadora do movimento punk feminista Riot Grrrl, e Courtney Love, vocalista da banda Hole.
Reforçando valores patriarcais
A consultora de estilo, Ana Carol, acredita que existe uma cultura de sexualizar tudo, por mais que não ache que isso aconteça apenas através das roupas. “Vivemos em uma sociedade onde a sexualidade está muito presente em filmes, séries, publicidades, músicas e redes sociais. O nosso olhar é sempre exposto a isso e influencia a forma como interpretamos as coisas. Por isso, muitas vezes há essa sexualização até de roupas femininas, românticas e delicadas”.
A cultura da pedofilia, que é a normalização do abuso e da exploração sexual de crianças e adolescentes, está enraizado na nossa sociedade, seja através de letras de músicas, da televisão ou artistas. Termos como “novinha” são pequenos diante das diversas peças que montam o quebra-cabeça dessa “cultura”, e que às vezes passa despercebido, tendo em vista que dizem: “é só mais uma mídia, não tem nada de errado”.

Questionar roupas que mulheres adultas utilizam, relacionando-as à crianças, mesmo que o comportamento dessas artistas não esteja condizente com nada que seja infantil, também faz parte dessa “cultura”. Imaginar crianças em danças sensuais ou em lingeries – que é uma roupa usada por adultos – nada mais é do que a objetificação de corpos, tanto de mulheres quanto de crianças, e é um dos muitos problemas sociais pertencentes ao patriarcado.
Segundo o artigo “Como assim, cultura da pedofilia?”, do portal Politize!, a cultura da pedofilia expressa e reforça os valores patriarcais. “O patriarcado é um sistema social que opera a lógica da dominação masculina sobre as mulheres e crianças. O poder dos homens, principalmente, dos homens brancos e ricos é percebido na estrutura social, econômica, política e cultural”.
Elas merecem ser criticadas?
A estudante de Fashion Studies, Kímberly de Paula, gera um questionamento: “quem, especificamente, acha qualquer tipo de referência ao infantil sexy em qualquer nível e grau?”. E complementa: “porque eu particularmente não tenho como primeira reação, ao ver uma mulher adulta em um baby-doll de cintura império, pensar em uma criança sendo sexy, a minha mente não vai para esse rabbit-hole bizarro e perturbador de associação. Então a pergunta não precisa ser “elas merecem ser criticadas?” mas sim “quem tem a mente tão doentia que acharia elementos infantis sexys?”.
Kímberly também falou sobre o patriarcado e a associação do feminino ao infantil: “[…] ele existe em cima da premissa de que mulheres têm menos valor, menor capacidade, menor relevância, entre outros absurdos, que são cientificamente comprovados errados, se tratando do funcionamento da sociedade, e um dos métodos para manter essa idéia perturbadora é reduzir o que é feminino ao infantil, para manter a idéia de falta de seriedade e relevância”.
A normalização desses pensamentos na sociedade reforça a sexualização de mulheres e crianças. E, muitas das vezes, a mulher é culpabilizada, ao invés daqueles que pensam dessa maneira. Como ressalta a Olívia Rodrigo, ninguém deve ser responsabilizado por um homem sexualizá-la de uma forma que nunca foi sua intenção. Afinal, as mulheres devem se vestir da maneira que se sentirem confortáveis, sem que nenhuma mente doentia perturbe-as de alguma forma.

Você quer saber mais sobre esses assuntos? Não deixe de conferir outros conteúdos disponíveis aqui no Fashionlismo e de ficar de olho nos próximos posts. Até mais!
Escrito por: Carla Emile | Editado por: Ana Carolina Gomes


