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Um dia frio, um bom lugar para comprar meias novas

Quem é de Barbacena e região sabe que o mês de abril reserva um dos momentos mais especiais do ano: o Jubileu de São José Operário. De 21 de abril a 1º de maio de 2026 as imediações da Basílica de São José sediam uma das maiores e mais tradicionais festas da cidade. Em sua 62ª edição, o Jubileu reúne barracas de roupa, sapatos, churros, pastel, tropeiro, drinks, brinquedos e até panelas de alumínio. 

Além do clássico parque de diversões, das celebrações religiosas e das famosas cocadas, o Jubileu é muito querido pelo comércio de roupas. São muitas barracas, com várias peças de fast fashion e vendedores de vários lugares do Brasil. O destaque normalmente vai para as meias, roupas íntimas e roupas de frio, como toucas e casacos. 

Nos últimos anos, a discussão sobre moda circular e consumo consciente ganhou muito fôlego e, em alguns espaços, usar roupas de segunda mão vem perdendo o estigma. Mas o fast fashion ainda ocupa um lugar de destaque na vida da classe trabalhadora, enquanto área que emprega e que veste de forma mais acessível quem trabalha.

Neste dia do trabalhador, data tão importante, o Fashionlismo traz um olhar sobre o fast fashion para além de uma forma problemática e ultrapassada de produção, mas como parte de um problema maior que ainda ocupa um grande espaço na renda de muitos brasileiros.

A moda no dia a dia

Para falar sobre o assunto, conversei com Lívia Bertolin, tecnóloga em moda, e com Maria dos Santos e Davi Rangel, comerciantes de roupas. 

No final de 2025, uma pesquisa da Globo traçou um amplo perfil do consumo de moda do brasileiro. O esporte, por exemplo, influencia muito as tendências de compra no Brasil e, com a Copa do Mundo se aproximando e a estética brasilcore em alta, as camisas de seleção e clubes de futebol aparecem em grande número no Jubileu.

Desde criança, Lívia se encantou pelo universo da moda por meio dos desenhos, com personagens estilosos e com personalidade. “O que me encanta na indústria da moda é a liberdade criativa que a gente tem. Porque tanto uma estilista quanto uma pessoa que não estuda moda pode fazer combinações muito boas. Tem pessoas que transformam até mesmo o que, para muitos, seria lixo, em moda”, afirma.

Mais descarte do que produção

Para Lívia, a futilidade e a descartabilidade com a qual os produtos de moda são tratados é um problema. Por ano, o Brasil descarta em média 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis. Em 2023, a indústria da moda produziu 8,02 bilhões de peças e 2 milhões de toneladas de tecido, segundo a ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção). Cada residência no Brasil descartou 44 quilos de roupas e calçados apenas em 2024, de acordo com a S2F Partners. 

A produção e o descarte demonstram uma disparidade entre comprar e desprezar. Para Lívia, “roupas foram feitas para durar, e não para serem descartadas facilmente”. 

Como consumidora de moda circular, em bazares e brechós, tenho quatro peças CGC. E para além do conceito básico, são peças produzidas antes de 1998, e é nítida a diferença entre o tecido dessas peças e de algumas mais atuais. Afinal, elas têm no mínimo 28 anos de existência e estão em ótimo estado de conservação.

A lógica da durabilidade é muito diferente hoje. Roupas produzidas em massa, com menor qualidade e menor tempo de duração, são, consequentemente, descartadas com mais  facilidade. O próprio Jubileu é cercado pela mística de reposição anual de roupas íntimas e calças jeans. A vida útil da peça também está associada ao quanto se usa.  

Quem compra e como compra?

De acordo com a pesquisa da Globo, citada anteriormente, 53% dos consumidores de moda, na verdade, são consumidoras. Mulheres lideram o consumo por gênero e, talvez, contraintuitivamente, as classes C, D e E representam juntas 69% dos compradores.

De toda a amostragem, 28% define seu estilo como controlado e diferente de outros estilos citados, como geek ou vintage, que se conecta com a economia. Ou seja, a compra de roupas depende de descontos, é feita em lojas mais populares e apenas quando realmente é necessário. 

Para Maria dos Santos, que há anos vem de São Paulo para o Jubileu, as vendas já estiveram melhores. Maria afirma que, esse ano, as pessoas estão comprando menos, pois está calor. As costumeiras roupas pesadas e muito quentes para enfrentar o frio intenso de Barbacena já podem ser substituídas por casacos mais finos e leves. O frio doloroso de abril vem ficando apenas na memória de quem conheceu a cidade anos atrás. 

Se vestir na pós-modernidade

As mudanças climáticas são cada vez menos uma ideia distante e futura, e mais um fenômeno que faz parte do nosso cotidiano. Chuvas intensas, ondas de calor e eventos extremos do clima: as alterações seguem acontecendo, mas o clima já se alterou.

2024 foi o ano mais quente já registrado no planeta e a temperatura média da Terra inteira aumentou 1,6 graus Celsius. Esse aumento é calculado em comparação com a “era pré-industrial”, ou seja, antes das múltiplas revoluções industriais, o aquecimento global existia em níveis normais. Afinal, ele é de fato um aspecto natural, mas que vem sendo agravado pela ação industrial.

E a indústria da moda é uma das mais poluidoras: 8% das emissões de gás carbônico na atmosfera são produzidas por ela. Para produção de apenas uma calça jeans são utilizados 11.000 litros de água. A quantidade de água que a indústria têxtil consome por ano é igual a 37 milhões de piscinas olímpicas. E uma piscina olímpica tem 2,5 milhões de litros de água. 

Afinal, quem tem condições de ser consumista?

Por outro lado, Davi Rangel liga as vendas mais baixas ao poder de compra da população. “O Jubileu, pelas feiras que eu estou vendo, está sendo o melhor. Mas como a situação do nosso país não está aquelas coisas… infelizmente, a gente sente um pouco isso. O pessoal hoje em dia evita muito gastar para ter em casa, né”, afirma. 

Ainda que as vendas estejam indo bem, é pior em comparação com o passado. O estilo de roupas vendido por Davi é o oposto do que Maria vende: é moda praiana. Vestidos e saias longos e frescos. Assim, se conecta com o relato sobre o calor impactando as vendas e até os hábitos de consumo. 

“Muitas coisas têm aumentado de preço e as roupas não iriam ficar de fora. Eu acho que tá cada vez mais difícil comprar roupas novas no Jubileu. Porque até mesmo tentando barganhar com o vendedor a gente ainda leva por um preço meio salgado”, afirma Lívia.

De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, em 2024 a indústria da moda reunia 8.279 empresas em Minas Gerais. Com 126.401 trabalhadores, esse setor econômico representa 17,6% de toda produção do estado e 13% dos postos de trabalho. Além disso, são mais de 1,3 milhão de empregos formais e 8 milhões se forem somados os “indiretos”. Segundo a ABIT, 60% de toda essa mão de obra é feminina.

De acordo com a pesquisa sobre consumo de moda, 28% dos entrevistados fazem compras toda semana, uma ou duas vezes por mês, e esses compradores fazem parte das classes A e B. Explicando a fala e a constatação de Davi sobre as baixas nas vendas, segundo o SPC Brasil, em 2025 73,5 milhões de consumidores brasileiros estavam negativados. Além disso, o poder de compra não acompanha os aumentos do PIB. Portanto, tratar o consumo de peças fast fashion como desvio moral, desordem e excesso é cegueira de classe.

Pesquisas como essa são muito importantes para visualizar e traçar tendências, mas é necessário levar em conta alguns fatores. Por exemplo, uma pesquisa realizada em agosto mostra que 8 em cada 10 brasileiros pretendem comprar roupas nos próximos meses. Como não foi nos dito quantos meses são, dois ou mais, é possível considerar a proximidade do Natal como um fator que motive tais compras.

Novas perspectivas

“Acredito que a gente deveria passar a olhar para a moda em si… até mesmo para nossas roupas antigas, com um carinho a mais, sabe?”, diz Lívia, sobre hábitos de consumo e a necessidade de novas peças. 

“Uma das justificativas que eu tenho ouvido nos últimos tempos é ‘meu Deus, eu vou repetir o look! Não posso repetir look, eu tenho que ter uma roupa diferente’. Você não precisa necessariamente comprar um item novo ali para estar mostrando que está com uma roupa nova. Você pode pegar uma roupa que você considera antiga, ou velha, e estilizar ela. Tanto pegar, cortar e reconstruir ela do jeito que você quiser… quanto você estilizar com um acessório a mais, dar um charme para ela”, continua.

Essa percepção nos convida a exercitar a criatividade e exercer um estilo mais autêntico, além de mais autonomia em se vestir. Saber usar uma peça, combiná-la de formas diferentes e inusitadas, burla as percepções de que é a mesma roupa sendo repetida. E afinal… lavou, “tá” novo. É importante também pensarmos se realmente é tão fundamental que ninguém repare que usamos a mesma roupa em situações distintas. 

A indústria da moda é ampla e multifacetada. Emprega pessoas, muitas vezes com salários péssimos e insalubridade laboral, e supre uma necessidade de identificação e pertencimento – afinal, moda não é apenas cobrir a nudez -, além de movimentar a economia. 

Ela é cercada de polêmicas ambientais, sociais e humanitárias. Mas é atravessada pela cultura, do novo, da tendência e do fetiche de mercadoria, de suprir os vazios e as angústias emocionais do nosso tempo, e por interesses de quem ganha muito dinheiro com ela. 

Ao criticar e propor alternativas ao seu modelo produtivo atual, é preciso pensar que o problema não são os Davis e as Marias que comercializam as peças. Hoje, e todos os dias, é importante ter cuidado para não atacar quem ganha o pão e precisa disso.

Leia mais sobre moda, beleza e cultura pop no Fashionlismo.

Escrito por: Geovana Nunes | Editado por: Maria Clara Machado

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