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A Última Parada da Roupa: O Caminho Invisível do que Você Descarta.

Da doação à reciclagem, o destino das roupas revela os limites da moda circular e expõe o que a indústria não mostra.

O ponto de partida: o descarte

Tudo começa com um gesto simples. Abrir o armário, olhar para uma peça esquecida e decidir: “isso aqui eu não uso mais”.

As razões variam: desgaste, mudança de estilo, impulso por acompanhar tendências. Mas há uma certeza confortável que acompanha esse momento: a ideia de que doar é suficiente.

A peça sai das mãos do consumidor carregada de uma espécie de alívio moral. Afinal, ela ainda pode servir para alguém.

Mas e se esse não for o fim da história e sim o começo de um percurso invisível?

O que acontece depois da doação

A roupa chega a um brechó, a uma instituição ou a um ponto de coleta. À primeira vista, parece estar entrando em um ciclo positivo.

Mas a realidade é menos otimista.

Com o crescimento da moda acessível e do consumo acelerado, o volume de roupas descartadas aumentou drasticamente. Brechós e organizações enfrentam um fenômeno silencioso: a saturação.

Nem tudo é aproveitado. Peças fora de tendência, com baixa qualidade ou danificadas acabam ficando para trás.

É o que especialistas chamam de “excesso invisível”  aquilo que não aparece nas vitrines nem nas narrativas inspiradoras da moda circular.

Quando a roupa vira resíduo

Quando não há reaproveitamento possível, a peça deixa de ser roupa e passa a ser resíduo.

É nesse ponto que a cadeia da moda revela um de seus maiores gargalos: a ausência de infraestrutura capaz de absorver o volume crescente de descarte.

Globalmente, milhões de toneladas de resíduos têxteis são geradas todos os anos, e grande parte ainda tem como destino aterros sanitários ou incineração soluções que ampliam impactos ambientais, como a emissão de gases de efeito estufa e a contaminação do solo.

No Brasil, o cenário acompanha essa lógica. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, mais de 170 mil toneladas de resíduos têxteis são geradas anualmente apenas na etapa produtiva sem contar o volume descartado pelo consumidor final.

Em um país de dimensões continentais, o desafio se intensifica: não se trata apenas de produzir menos resíduos, mas de estruturar sistemas eficientes para coletar, transportar e processar aquilo que já foi gerado.

O limite da doação  e o que fazer com o descarte

Diante desse cenário, surge uma dúvida inevitável: se a doação também contribui para o excesso, qual é o melhor destino para as roupas?

A resposta não é abandonar a doação mas direcioná-la de forma mais estratégica.

Em vez de encaminhar peças apenas para bazares ou instituições que já operam no limite, uma alternativa mais eficaz é destiná-las a pontos de coleta voltados à reciclagem têxtil.

Iniciativas como a Cotton Move atuam justamente nesse elo da cadeia. Por meio de site e aplicativo, é possível localizar pontos de descarte próximos, garantindo que as peças sejam encaminhadas para um sistema estruturado de reaproveitamento.

Fonte – site da marca.

O que é logística reversa e por que ela importa

Esses sistemas fazem parte do que se chama logística reversa, um conjunto de processos que viabiliza o retorno de produtos pós-consumo para a cadeia produtiva.

Na prática, isso significa criar um caminho organizado para aquilo que já foi descartado:

  • coleta adequada
  • transporte
  • triagem
  • reprocessamento ou destinação correta

Sem logística reversa, o descarte se torna difuso e descontrolado  aumentando as chances de impacto ambiental.

Muito além do consumo: o peso do resíduo têxtil

Embora o olhar do consumidor seja importante, grande parte do problema está antes mesmo da peça chegar ao guarda-roupa.

O chamado resíduo têxtil inclui sobras industriais, aparas de corte, tecidos não utilizados e perdas de produção um volume significativo que já nasce como descarte.

Esses resíduos pressionam ainda mais um sistema que já opera no limite e reforçam a necessidade de soluções estruturadas que atuem em toda a cadeia.

Entrada na reciclagem têxtil

Em meio a esse cenário, surgem iniciativas que tentam reorganizar o fluxo do pós-consumo.

Empresas como a Momo Ambiental atuam na coleta, triagem e reintegração de resíduos à cadeia produtiva. É nesse ponto que a peça descartada ganha uma nova possibilidade, ainda que não garantida.

Fonte – site da marca.

Entrevista | Reciclagem têxtil na prática: o que acontece depois do descarte.

Em meio ao debate sobre moda sustentável, entender o que acontece com os resíduos têxteis após o descarte é essencial. Para aprofundar esse olhar, conversamos com a CEO da Momo Ambiental a Mayumi Ishikawa que explica como funciona, na prática, a reciclagem de tecidos e os impactos gerados por esse processo.

Larissa Toblu:

Você sempre teve uma conexão com questões ambientais. Como isso te levou a trabalhar com reciclagem têxtil?

CEO da Momo Ambiental:

Sempre fui muito conectada com a natureza, com reciclagem e com o impacto ambiental das nossas escolhas. Quando entendi o tamanho do problema causado pelos resíduos, especialmente os têxteis percebi que precisava atuar diretamente nessa área. A moda gera um volume enorme de descarte, e isso me motivou a buscar soluções dentro do próprio processo produtivo.

Larissa Toblu:

Na prática, como funciona a reciclagem de tecidos dentro da empresa?

CEO da Momo Ambiental:

O primeiro passo é sempre a triagem. Nós separamos os tecidos por tipo de material, porque cada um exige um destino diferente.

Por exemplo:

  • Sintéticos como poliamida e poliéster
  • Naturais como algodão
  • Outros materiais, que também entram em fluxos específicos

Depois dessa separação, cada grupo segue para um tipo de reciclagem. Os materiais sintéticos, que são derivados do plástico, podem ser transformados em novos produtos, como sacolas reutilizáveis. Já tecidos como algodão são direcionados para processos de desfibragem, que permitem a criação de novos materiais, muitas vezes usados em artesanato ou outros produtos.

Larissa Toblu:

Ou seja, uma peça descartada pode ganhar várias novas formas?

CEO da Momo Ambiental:

Exatamente. A gente trabalha com a transformação da matéria. Muitos dos produtos que desenvolvemos vêm diretamente de sobras têxteis. Aquilo que seria descartado volta para o ciclo produtivo com uma nova função.

Larissa Toblu:

E quais materiais aparecem com mais frequência nesse processo?

CEO da Momo Ambiental:

Os sintéticos são muito comuns, principalmente a poliamida. Eles estão muito presentes na indústria da moda hoje. Por isso, também são um grande desafio mas ao mesmo tempo uma oportunidade de reaproveitamento.

Larissa Toblu:

Falando em impacto: vocês já conseguem mensurar o que esse trabalho representa ambientalmente?

CEO da Momo Ambiental:

Sim. Hoje, reciclamos cerca de 200 toneladas de resíduos têxteis por semana.

Esse número é muito significativo quando pensamos no tempo de decomposição desses materiais. Dependendo do tecido, uma peça pode levar de 10 até mais de 200 anos para se decompor em um aterro.

Ou seja, estamos evitando que uma quantidade enorme de resíduos fique acumulada no meio ambiente por décadas ou até séculos.

Larissa Toblu:

Além do impacto ambiental, existe também um impacto social nesse processo?

CEO da Momo Ambiental:

Com certeza. Trabalhamos com estrutura industrial, com grandes máquinas, mas também desenvolvemos projetos com artesãs. Isso amplia o impacto social, gerando renda e criando novas possibilidades a partir do resíduo.

A reciclagem têxtil não é só sobre o meio ambiente é também sobre economia e inclusão.

Larissa Toblu:

Existe ainda muita desinformação sobre sustentabilidade na moda?

CEO da Momo Ambiental:

Sim, muita. Ainda existe uma comunicação muito simplificada sobre o que é ser sustentável. É importante entender que existem diferentes tipos de materiais, especialmente plásticos, e que cada um exige um tratamento específico. Sem esse entendimento, fica difícil avançar de forma real na solução do problema.

Quando a roupa deixa de cumprir sua função no guarda-roupa, ela não desaparece  ela entra em um sistema que ainda não está preparado para recebê-la.  Sem reaproveitamento possível, a peça passa a ser resíduo, e é nesse ponto que a cadeia da moda revela uma de suas maiores fragilidades: a falta de infraestrutura para lidar com o volume crescente de descartes. 

Diante desse cenário, a percepção de que doar resolve o impacto se mostra limitada.

A doação continua sendo uma alternativa relevante, mas precisa ser redirecionada para fluxos mais estruturados, como pontos de coleta voltados à reciclagem têxtil. Iniciativas como a Cotton Move apontam caminhos possíveis ao conectar o descarte a sistemas de logística reversa, um conjunto de processos que garante o retorno desses materiais para triagem, reaproveitamento ou destinação adequada. Ainda assim, o desafio vai além do comportamento individual: ele está na escala de produção, na ausência de políticas públicas robustas e na dificuldade técnica de reciclar materiais complexos.

Ao acompanhar o percurso de uma peça até sua última parada, fica evidente que a moda sustentável não pode ser reduzida a escolhas isoladas. O que está em jogo é a construção de um sistema capaz de assumir responsabilidade pelo que produz. Sem isso, até mesmo os gestos mais conscientes encontram seus limites e a roupa, que um dia foi desejo, se torna apenas mais um resíduo em um ciclo que ainda precisa ser reinventado.

Fontes

Entrevista com a CEO da Momo Ambiental.
Apuração, entrevistas e condução da reportagem: Larissa Toblu.
Observação de campo sobre processos de reciclagem têxtil.
Ellen MacArthur Foundation — estudos sobre circularidade e resíduos têxteis.
United Nations Environment Programme — dados sobre impacto ambiental da moda.
Relatórios de mercado sobre pós-consumo e gestão de resíduos têxteis.
Momo Ambiental — entrevistas e informações institucionais.
Observação de campo e entrevistas com agentes do setor.

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Escrito por Larissa Toblu I Editado por Ana Carolina Gomes 

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