Mulheres negras que utilizam estilo coquette
Moda,  Sociedade

Em que lugar ficam as mulheres negras dentro da moda?

A estigmatização e os estereótipos impostos à mulheres negras em relação a estéticas crescentes na atualidade.

Ao pesquisar estéticas específicas que ficaram nos trend topics das redes, como a clean girl, a maioria dos resultados apresentam mulheres com características específicas: brancas de cabelo liso. Essa estética, que em sua tradução significa “garota limpa”, prega um visual natural, que inclui maquiagem leve e minimalista, cabelo simples e uma paleta de cores neutras.

Segundo uma matéria do Brasil de Fato, “Clean girl só para brancas?”, algumas influenciadoras criticam tendências como essa, que sugerem um visual embranquecido como sinônimo de elegância e sofisticação. “Elas defendem que trends como a clean girl ignoram como o racismo marginaliza as estéticas naturais de mulheres negras, e escancaram o fato do cabelo black não ser visto socialmente como refinado”.

A estética coquette é outra que evidencia essa situação. Esta, diferente da citada anteriormente, possui um visual mais fofo, romântico e com bastante uso das cores rosa e branco, e de acessórios, como laços e babados. Com isso, a sociedade associa ambos os estilos às mulheres brancas, como se apenas elas pudessem utilizá-los.

De acordo com um texto postado no portal Geledés – Instituto da Mulher Negra, “durante a escravidão existia o culto à verdadeira feminilidade, ideologia que marcou qual era o padrão de comportamento feminino na época , mas obviamente esses padrões do que é ser mulher só valiam para as mulheres brancas de classe média”. A estética da “mulher negra raivosa”, infelizmente, se perpetua até os dias atuais, entre as mais diversas mídias. A negra que se enfurece, que grita com as pessoas e que não possui nenhum sinal de delicadeza.

Em que lugar ficam as mulheres negras?
Imagem/Arquivo Pessoal

As pessoas veem mulheres negras como ‘brutas’

A sociedade perpetua essa marca por meio do racismo estrutural. A sociedade habitualmente associa as mulheres negras a estereótipos de brutalidade, sensualidade, e até vulgaridade, pois, inconscientemente, também relaciona os estilos que considera adequados para elas a esses adjetivos. Além disso, o mesmo ocorre quando elas decidem utilizar uma estética que é ligada a feminilidade. A sociedade julga as que decidem usar esses estilos, porque o racismo impede as pessoas de verem delicadeza em um corpo negro.

Em um vídeo postado por Carol Soares, no TikTok, a influenciadora relata justamente isso. “Se eu uso um estilo coquette, um estilo mais girly girl, não, não posso. Só brancas podem usar. Eu tenho que usar o estilo afropaty, até porque sou negra”, disse ela, repetindo o que certos internautas disseram. “Se você procurar clean girl ou qualquer outra estética no Pinterest, só vai aparecer mulher branca, você já percebeu isso? […] Se a gente usa um estilo mais delicado, mais feminino, por exemplo, incomoda muito as pessoas, porque as pessoas veem a gente como mulheres brutas o tempo inteiro”, reforça Carol.

Em que lugar ficam as mulheres negras?
Foto/Instagram: Carol Soares @eucarolsoares

A moda é liberdade

Para a sociedade, o estilo “adequado” para mulheres negras usarem é o baddie ou o afropaty. O primeiro possui um visual considerado sensual e que “passa confiança”, e usa uma combinação de roupas justas e largas, referenciando ao estilo streetwear. Já o segundo, como o próprio nome diz, une o estilo das patricinhas com a estética e valorização de elementos de beleza da cultura afro. Obviamente não é errado abraçar esses estilos, porém, quando mulheres negras escolhem utilizar uma estética que foge desse padrão, elas acabam sofrendo críticas; como se aquilo não pertencesse à elas.

Uma matéria do portal Modeefica destaca essa problemática: “da mesma forma que existe uma ‘crença popular’ sobre a relação amistosa da mulher negra com o samba, parece existir uma ideia de que precisamos nos vestir de acordo com estereótipos africanos, do hip-hop, ou qualquer outra cultura originalmente negra”.

Em um vídeo postado recentemente por Carina Soares, irmã da Carol, no Instagram, a influenciadora reafirma que colocar pessoas pretas em uma caixinha e esperar que elas sigam estereótipos é, sim, racista. “A moda é um tópico muito importante pra se abordar quando a gente fala sobre expressão de identidade. A grande maioria dos estilos sempre chega pra gente com um protagonismo branco. Mas a moda é liberdade e é por isso que eu acho tão incrível ver pessoas pretas explorando e usando esses estilos, porque é dessa forma que a gente ocupa espaços e, consequentemente, quebramos esses estereótipos”, declara.

Carina afirma que é “extremamente” importante ver, principalmente, mulheres pretas usando outros estilos além daqueles que a sociedade espera delas. No caso do streetwear e do baddie, Carina finaliza: “são lindos, mas não deviam ser regra”.

Carina Soares, uma mulher negra que utiliza estilos alternativos
Foto/Instagram: Carina Soares @eucarinasoares

É o poder das mulheres negras

A moda, por mais “nichada” e estereotipada que seja, deveria ser algo ao qual todas as pessoas se sentem pertencentes. Colocar pessoas em uma caixa, de acordo com sua raça ou classe social é preconceituoso e impede a autenticidade, que é algo que a moda estimula ou, pelo menos, deveria estimular.

Assim, dizer que mulheres negras não podem usar alguma estética, tira delas a liberdade de ser quem são e as estigmatiza. Dessa forma, também faz com que elas não tenham alternativa, a não ser usar aquilo que lhes é imposto. “Mulheres negras não são obrigadas a nada, a gente veste e escuta o que gosta e ponto. Esse negócio de ficar rotulando a gente o tempo inteiro, pra gente se encaixar em uma caixinha e ser todo mundo igual, me irrita”, expõe Carol no vídeo postado.

Portanto, as mulheres negras têm e devem ter o direito de escolher o estilo e estética que querem usar. É necessário que elas passem a ocupar esses espaços que lhe são tirados pelo racismo estrutural e pelos estereótipos impostos pela sociedade. Como Carol diz, com entusiasmo, “esse é o incrível de ser negra! A gente tem a liberdade de fazer o que gente quiser. […] E é incrível que a gente consegue ficar linda de todas as formas… é o poder da mulher negra”.

Foto/Instagram: Carol Soares e Carina Soares

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Escrito por: Carla Emile | Editado por: Maria Clara Machado

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