A influência dos romances em como enxergamos o amor
Romances literários e redes sociais alimentam um ideal de amor, e entender essa influência pode mudar a forma como você se relaciona
Junho chegou, e com ele o Dia dos Namorados. Os feeds estão cheios de declarações apaixonadas, as histórias de amor estão cada vez mais em alta e as comunidades literárias nas redes sociais já elegeram os casais ficcionais mais icônicos do momento. Entre uma indicação de romance no BookTok e um feed com casais perfeitos, o que se lê e o que se consome nas telas vai moldando, quase sem que se perceba, o que se espera do amor real.
As histórias de amor sempre fizeram parte do imaginário coletivo, moldando a forma como as pessoas compreendem os relacionamentos. Um exemplo disso é o Mito de Aristófanes, que popularizou a ideia de que é preciso encontrar a “outra metade” para se sentir totalmente completo. Ao longo do tempo, esse ideal foi reproduzido por diferentes manifestações culturais, como a literatura, o cinema, a televisão e mais recentemente, as redes sociais que ampliaram sua influência.
“Na grande maioria das vezes, quando lemos romances e acompanhamos os personagens, estamos aprendendo a considerar o que é o amor, como ele deveria ser demonstrado, quais comportamentos são provas de afeto”, explica Ana Clara Cardoso, psicóloga clínica.
Esse conceito romântico pode se tornar um problema quando passa a ser uma idealização, ou seja, quando se cria projeções e expectativas sobre como as relações devem ser. “São as expectativas, imagens ou ideais do amor ou de um parceiro, muitas vezes se aproximando de uma fantasia, de um ideal imaginário, principalmente quando se idealiza a ausência de aspectos inevitáveis da vida”, explica Cardoso. E ainda destaca que relacionamentos saudáveis, além do romance, também são construídos por conflitos e frustrações, resolvidos com compreensão do outro e de si mesmo, e não apenas pelo que é demonstrado e idealizado nas histórias.
Quando ocorre essa idealização, o público deixa de aproveitar as obras como arte e passa a usá-las como comparação com a vida real, sem considerar a complexidade das relações humanas. Afinal, obras são feitas para impressionar e emocionar, não para retratar a realidade com fidelidade.
O sociólogo Zygmunt Bauman já apontava que, na contemporaneidade, os relacionamentos correm o risco de se tornar descartáveis, trocados rapidamente quando não atingem o padrão idealizado. Essa lógica se intensifica quando a referência vem da ficção, onde conflitos se resolvem em capítulos e o amor raramente exige trabalho cotidiano. Para a psicóloga, o problema está em colocar o relacionamento constantemente à prova diante de expectativas tão altas, a pessoa perde a capacidade de aproveitar o que a relação realmente tem a oferecer.
Nas redes sociais, os leitores se envolvem com histórias fictícias de romance e consomem esse conteúdo de forma contínua, o que torna o relacionamento perfeito algo que parece totalmente possível e alcançável. No artigo Desafios do relacionamento amoroso constituído sobre idealizações: o amor real, publicado em 2023, os pesquisadores Marta Nascimento e Francisco Pinto discutem como a dinâmica digital favorece o desenvolvimento de vínculos mais vulneráveis e uma busca constante por gratificação imediata. O resultado é um ciclo em que ficção e vida real se confundem, e as expectativas sobre o amor crescem enquanto a tolerância com suas imperfeições diminui.
O que os romances podem nos ensinar?
Apesar da idealização da mídia e das redes sociais, as histórias de amor não devem ser estigmatizadas por isso. Os romances também mostram aspectos reais dos relacionamentos e, mesmo quando existe fantasia, ainda há elementos que podem ser reconhecidos na realidade. Nesse sentido, a ficção romântica pode funcionar como um ponto de partida para compreender o que cada pessoa valoriza dentro de uma relação, o que é aceitável, o que é um limite e o que se espera do outro e de si mesmo.
Para a psicóloga, cada casal constrói a própria história a partir de suas vivências e dinâmicas cotidianas, o que faz com que cada relacionamento seja único. Por isso, torna-se inviável definir uma regra universal sobre como viver o amor. “Os romances podem servir para ampliar nossas reflexões, sem passar a ser um roteiro obrigatório a ser vivido na realidade”, afirma Cardoso. Dessa forma, a principal contribuição que os romances podem oferecer, não é um ideal a ser seguido, mas um estímulo à autorreflexão, afastando a frustração e se aproximando de uma compreensão mais honesta sobre o tipo de amor que se quer construir. No fim, talvez a maior lição que se pode ter de um romance não seja concretizar um modelo de amor, mas despertar a reflexão sobre quais relações fazem sentido para cada pessoa.
E, para ficar por dentro das novidades sobre conteúdos do mundo da moda, não deixe de acompanhar o Fashionlismo!
Escrito por Heloise de Almeida I Editado por Ana Carolina Gomes


