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Volume nas roupas, mas não no corpo: Jean Paul Gaultier em Paris

Dos perfumes desejados à ousadia de colocar modelos com nudez exposta na passarela, o estilista Jean Paul Gaultier sabe trazer os holofotes para si. E a construção da sua marca envolve mais do que seu nome, mas imagens e referências muito importantes para a moda.

Seja com os sutiãs em forma de cone da Madonna, o perfume Scandall e Divine, a marca Jean Paul Gaultier mantém atual e relevante o legado de seu criador. 

Fazendo jus a marca, o desfile de Duran Lantik, no dia 8 de julho, marcou a Semana de alta-costura de Paris. 

O estilista de 39 anos nasceu na Holanda e traz a pauta da sustentabilidade e designs clássicos em seu trabalho. Está no mercado desde 2016 e é diretor da JPG desde 2025.

É a primeira vez dele em um desfile da alta-costura e suas obras apostam em modelos diferentes e geométricos, além de referências à marca e à história francesa. 

Allons, enfants de la Patrie

Referências à Revolução Francesa chamam atenção no desfile. Detalhes característicos nos cabelos, o formato dos sapatos saltam aos olhos. Durante todo o desfile são usados elementos em veludo, tule, peças grandes e geométricas, além de elementos florais e rendas.

Nesse cenário, algumas peças chamam a atenção pela preciosidade e nobreza de sua composição. Destaco principalmente um vestido de veludo roxo com detalhes em um azul que se assemelha ao royal, uma peça que abusa de estruturas bem trabalhadas e extravagantes e um belíssimo vestido de renda.

Apesar do cabelo ser a mais clara ligação com a história dos jacobinos e girondinos, é interessante o uso constante da cor branca nas peças do início do desfile.

Antigamente o tecido era feito de forma artesanal. Seja de algodão ou lã, a fibra era lavada fiada e, enfim, tecida manualmente. Um trabalho protagonizado por mulheres camponesas.

Tanto a lã, quanto o algodão são naturalmente brancos, ou no caso das ovelhas podem ser marrons ou pretas também. Portanto, o branco era mais comum entre os plebeus, uma vez que tingir um tecido era caro e trabalhoso.

Porém a nobreza utilizava cores, com pigmentos vindo das colônias muitas vezes como o caso da exploração de pau-brasil, como vermelho, azul e vinho.

O branco presente na coleção, tão claro que se confunde com o cenário, gera um divertido contraste histórico.

Cores vivas, eu penso em nós

As primeiras peças se limitavam ali no branco e no preto. As cores restantes servem mais para ressaltar e chamar a atenção do que ser um indicativo de tendências.

Coleções mais artísticas como esta, cumprem o papel de elevar a moda como arte e conduzir as tendências de cores, tecidos e texturas das peças da temporada.

O veludo é um elemento recorrente nesta coleção de JPG. Vestidos com muita fluidez e movimento hipnotizante, a cor creme, acessórios que misturam prata e dourado também aparecem.

Tons pastéis de azul e rosa, num vestido que abusa das formas geométricas extravagantes e no andar lembra pétalas de rosas, aparecem em diferentes peças.

Além disso, o azul mais escuro, peças em alfaiataria e elementos plissados ganham destaque.

Mais do que a cor, que prende os olhares, a forma das peças é um espetáculo à parte. Para mim, estudante de costura e artesã, uma pergunta dura o desfile todo: como fizeram isso?!

Não parece tecido, nem parece possível, mas ali está diante de quem quiser ver. Como se coloca um zíper, como se une uma estrutura assim?

Os culotes bem volumosos e aparentes, elementos presentes em outros símbolos da marca, compõem a peça e lhes dão um ar misterioso quanto a sua criação.

Nu com a mão no bolso

No desfile do ano passado a marca se envolveu em uma grande polêmica: roupas que simulavam corpos nus com pelos. 

Os tórax peludos em modelos femininos e masculinos não pegaram muito bem. Mas a aparição de nudez não é nova na trajetória da marca.

Seios aparecendo por baixo da transparência das roupas são uma forma de JPG se reafirmar enquanto estilista que rompe as expectativas e os padrões de gênero. 

Neste ano, um modelo aparece com um modelito que simula seu próprio corpo, mas com diferenças importantes. 

A textura e o brilho chegam primeiro que qualquer informação. A obra também tem essa curva do lado direito que se projeta do lado esquerdo. Gerando estranhamento visual, um dos objetivos da arte, a cena me lembra os perfumes da Jean Paul Gaultier.

O carimbo da marca nesse segmento são justamente as embalagens em forma de corpos femininos e masculinos delineados. A representação de seios pontudos ainda aparece em alguns modelos. 

Laços grandes, mentes pequenas

Um elemento que se repetiu em muitos modelos no desfile foi o laço. As fitas se estendiam até arrastarem no chão e variavam de cores. 

Uma vez que as tendências clean girl e cottage core vem ganhando adeptas, os laços chamativos em tons pastéis são comuns em mulheres adultas. Um acessório ligado aos primeiros anos da infância, agora é um item fashion. E até político. 

Nesse contexto social, muitos aspectos das estéticas citadas são cooptados por mulheres reacionárias e de extrema direita. É um conjunto de símbolos que buscam regular o comportamento feminino. 

Delicada, edificadora do lar, submissa, maternal, calma e outros atributos que cerceiam a liberdade feminina e coloca a mulher na posição de sombra de um homem. 

Portanto, um elemento como esse estar no desfile de um artista comprometido com a liberdade feminina soa no mínimo curioso. Mas em um grande desfile como esse, nenhum detalhe é sem sentido.

O uso do laço em homens e em um look com renda e transparência vai justamente na contramão do laço nesse contexto reacionário. 

A aranha vive do que tece

“Jean Paul Gaultier cria moda iconoclasta na qual as mulheres são veículos de mensagens fortes e controversas. Todas as mulheres estão convidadas: diversas, negras, não formatadas, não estereotipadas, gordas, magras”, é o que lemos no site da marca.

Mas nenhuma modelo não-magra desfilou pela JPG este ano.

Embora a estreia de Duran Lantik faça bastante uso de culotes grandes e fôrmas geométricas avantajadas, na passarela não houve presença de nenhum corpo cujo culote, quadril e formas sejam naturalmente arredondados.

Além disso, não há modelos gordas e gordos no site da marca. Embora os quadris dos perfumes femininos, que representam um corpo curvilíneo, seja bem largo, na moda as larguras são artísticas. São escolha estética e estilística, porém não acompanham a sinuosidade de um corpo real e com curvas.

Isso não é um cachimbo

Afinal, ele não está nesses holofotes. E mesmo o padrão das embalagens dos perfumes levantam um questionamento: será natural um quadril tão largo com uma cintura tão fina e sem nenhuma dobra.

A rapper brasileira Duquesa, em entrevista à Erika Hilton, compartilha que tem 111 centímetros de quadril. E o corpo de uma mulher adulta com um quadril largo e sem procedimentos estéticos não se parece muito com as embalagens da JPG.

O perfume Divine da marca é o que mais chama a atenção pelo formato de ampulheta e os sutiã-cone. Divine é divino, ou divina e o glamour por trás dele está justamente em despertar essa divindade feminina.

Mas mulheres são diversas, como Jean Paul Gaultier afirma. Fato é que a marca está inserida num mundo onde a magreza extrema, profundamente associada à riqueza, está voltando ao cotidiano e onde as representações de corpos femininos não são próximas do real.

Portanto, houve um momento onde o feminino como divindade era curvilíneo e cheio de relevos. Onde a beleza era um culote de pele e carne e a cintura era da imensidão que o corpo vibrava.

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Escrito por Geovana Nunes I Editado por Ana Carolina Gomes 

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