Julie de Libran repensa a alta-costura pelo movimento
Estilista apresenta uma coleção que une luxo, conforto e conexão com o corpo.

A Semana de Alta Costura de Paris ganhou uma apresentação marcada pela intimidade e pelo bem-estar com Julie de Libran. No dia 6 de julho, a estilista apresentou sua coleção Fall 2026 Couture em um cenário pouco tradicional para a temporada, transformando o desfile em uma reflexão sobre movimento, liberdade e a relação entre corpo e roupa.
Uma passarela fora do tradicional
A escolha do espaço foi um dos elementos centrais da narrativa da coleção. Julie de Libran apresentou seus novos trabalhos no Studio Rituel, estúdio de pilates localizado em Paris, onde os convidados acompanharam a apresentação próximos aos equipamentos de exercício e sem sapatos. A atmosfera criada aproximou o desfile de uma experiência sensorial, reforçando a ideia de que a moda também pode estar relacionada ao equilíbrio e ao bem-estar.
A escolha do local não foi apenas uma decisão estética. O ambiente fazia parte do conceito desenvolvido pela estilista, que relacionou o processo criativo ao cuidado com o corpo e à importância dos momentos de pausa. A proposta foi mostrar roupas pensadas para acompanhar movimentos, em vez de apenas serem observadas como objetos de luxo.
A relação entre moda e movimento também foi reforçada pela participação de Verena Tremel, fundadora do Studio Rituel e bailarina, que acompanhou a apresentação com uma performance ligada aos gestos e deslocamentos das modelos. A passarela deixou de funcionar apenas como espaço de exposição e passou a ser uma extensão do corpo, criando uma conexão entre tecido, movimento e presença.

Entre conforto e sofisticação
A coleção apresentou uma mistura entre técnicas tradicionais da alta-costura e uma proposta mais leve para o vestir. Vestidos com franjas metálicas feitas à mão, peças com brilho, transparências, tecidos fluidos e conjuntos de alfaiataria apareceram em uma construção que equilibrava delicadeza e força.
Entre os destaques estavam um vestido preto de ráfia coberto por grandes paetês, criações com materiais metalizados e peças com franjas cortadas manualmente, que acompanhavam o movimento das modelos. A presença de calças e conjuntos também chamou a atenção por reforçar uma ideia de alta-costura menos restritiva, aproximando o luxo da liberdade corporal.
A estilista explorou diferentes interpretações da feminilidade ao aproximar elementos do guarda-roupa cotidiano ao universo da couture. Algumas peças remetiam ao conforto de roupas de descanso, mas receberam acabamentos sofisticados, como aplicações florais, bordados e materiais nobres, mostrando que o luxo também pode estar relacionado à sensação de vestir.

O artesanato como memória
A sustentabilidade apareceu como parte da construção da coleção, principalmente por meio do upcycling. Julie de Libran reutilizou materiais de trabalhos anteriores, incluindo tecidos de tweed de alta-costura guardados pela marca, além de criar uma peça composta por diferentes camisas brancas.
A escolha reforça uma visão de luxo baseada na permanência e no valor emocional das peças. Em vez de seguir apenas a lógica da novidade constante, a estilista propõe uma relação mais afetiva com a roupa, valorizando técnicas manuais, materiais já existentes e histórias construídas ao longo do tempo.
O trabalho da marca também acompanha uma discussão presente no mercado de luxo atual: como preservar o artesanato tradicional sem ignorar questões ambientais. Ao transformar materiais antigos em novas criações, Julie de Libran mostra que a alta-costura pode continuar evoluindo sem abandonar sua essência.
Quando o corpo vira parte da criação
A coleção Fall 2026 Couture também reflete uma mudança na forma como a alta-costura vem sendo apresentada atualmente. Em uma temporada marcada por grandes cenários e construções extremamente estruturadas, Julie de Libran escolheu um caminho mais íntimo, colocando o corpo como ponto central da narrativa.
A crítica especializada da Vogue Runway destacou justamente essa escolha ao interpretar o desfile como uma pausa dentro da própria Semana de Alta Costura. A apresentação funciona como um convite para desacelerar, “parar e respirar” em meio ao ritmo acelerado da moda, mostrando que a couture pode ser também uma experiência de conexão, conforto e presença.

A proposta reforça uma nova interpretação do luxo, menos ligada ao excesso e mais relacionada à experiência humana. Ao transformar um estúdio de pilates em passarela, Julie de Libran apresentou uma moda que valoriza não apenas a construção das peças, mas também a maneira como elas acompanham a vida de quem as veste.

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Escrito por Laura Martins I Editado por Ana Carolina Gomes


