Pink Power: como as chuteiras rosas se tornaram o acessório mais comentado da Copa 2026
O que são onze pontinhos rosas no meio do gramado? Se você respondeu alguma seleção de futebol convocada para a Copa do Mundo de 2026, acertou! Basta assistir a qualquer partida para notar algo que dificilmente passa despercebido: as chuteiras rosas. O rosa-choque dos calçados tomou conta do campo, independentemente da seleção, da posição em campo ou da marca patrocinadora.
O fenômeno rapidamente ultrapassou as quatro linhas e se tornou assunto nas redes sociais, na imprensa esportiva e, claro, no universo da moda. Afinal, como uma cor tradicionalmente associada ao feminino se tornou a escolha dominante no maior evento do futebol mundial? A resposta passa por visibilidade, marketing e até mesmo transformações culturais que refletem a sociedade contemporânea — e o papel que a moda tem sobre isso.
Por que as chuteiras rosas estão dominando o campo na Copa do Mundo de 2026?
Embora muita gente tenha associado o fenômeno a uma tendência “espontânea”, a predominância das chuteiras rosas no Mundial é resultado de uma combinação entre estratégia visual, psicologia das cores e previsão de tendências (coolhunting).
Nos últimos anos, as marcas esportivas passaram a pensar suas chuteiras não apenas como equipamentos de performance, mas também como produtos de comunicação visual. Em uma era dominada por transmissões em alta definição, vídeos curtos e redes sociais, destacar-se visualmente tornou-se tão importante quanto o desempenho em campo.
Foi justamente nesse contexto que o rosa ganhou força. Segundo Odinga Nimako, diretor global de calçados de futebol da Nike, para o The Athletic, a escolha da cor foi baseada em pesquisas realizadas com atletas. O executivo explicou que jogadores frequentemente associam cores vibrantes a confiança e desempenho em momentos decisivos. “O que ouvimos consistentemente dos atletas é que cores brilhantes geram confiança”, afirmou.
Além disso, existe um fator técnico, embasado pelo círculo cromático. Durante os testes realizados pela Nike, o rosa foi a cor que apresentou maior destaque visual contra o gramado. Segundo Nimako, “nada se destacou mais do que o rosa”.



Isso acontece porque o rosa e o verde são cores complementares, pois estão em lados opostos no disco cromático, fazendo com que, quando combinadas, o resultado seja um alto contraste. O objetivo das marcas era garantir máxima visibilidade tanto para quem acompanha a partida do estádio quanto para quem assiste pela televisão ou pelo celular.
Outro detalhe curioso é que nenhuma das 48 seleções participantes utiliza o rosa como cor predominante em seus uniformes. Isso faz com que as chuteiras se destaquem ainda mais durante as partidas.
Existem regras da FIFA para a cor da chuteira?
Ao contrário dos uniformes oficiais, a FIFA não impõe restrições específicas sobre a cor das chuteiras. Desde que os modelos respeitem os critérios de segurança exigidos pela entidade, os atletas têm liberdade para utilizar diferentes cores, estampas e edições especiais.
Essa flexibilidade abriu espaço para que as fabricantes transformassem as chuteiras em verdadeiros acessórios de identidade visual. Hoje, elas funcionam como uma extensão da personalidade do jogador e da estratégia de marketing das marcas.
Grandes competições, como a Copa do Mundo, costumam servir como vitrine para lançamentos exclusivos, transformando os gramados em verdadeiras passarelas esportivas.
Não por acaso, a tendência do rosa conversa também com o universo da moda. A consultoria WGSN, referência global em previsão de tendências, já havia apontado o chamado “Electric Fuchsia” como uma das cores-chave para 2026.
A partir daí, Nike, Adidas, Puma, New Balance e Skechers acabaram chegando a conclusões muito parecidas e lançaram coleções em tons semelhantes para o Mundial.
Pink is the new black

Para entender a dimensão do fenômeno, é preciso lembrar que, durante décadas, a história das chuteiras foi marcada pelo domínio absoluto do preto.
Modelos usados por ícones como Pelé, Maradona e Zico seguiam uma lógica de discrição e funcionalidade, e o visual do calçado quase não mudava entre uma geração e outra.
Foi apenas no final dos anos 1990 que as marcas começaram a explorar cores vibrantes como ferramenta de diferenciação. Desde então, o futebol viu passar ondas de dourado, prata, azul neon, amarelo fluorescente e laranja.
Agora, em 2026, o rosa parece ocupar o posto que um dia pertenceu ao preto. O mais curioso é que essa escolha não partiu de apenas uma fabricante. Nike, Adidas, Puma, New Balance etc. chegaram praticamente à mesma solução estética para a Copa do Mundo de 2026 ao adotarem as chuteiras rosas.
Dessa forma, o resultado foi uma espécie de “maré rosa” nos gramados. Em alguns jogos, mais de dois terços dos atletas em campo usavam variações muito semelhantes da mesma cor. O que deveria diferenciar jogadores e marcas acabou criando um efeito coletivo inesperado.
O fator exclusividade na diferenciação
E é justamente aí que entram alguns dos maiores nomes do futebol mundial. Enquanto a maioria dos jogadores aderiu ao rosa, craques como Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar Jr. optaram por caminhos diferentes.
Messi apareceu na Copa utilizando uma edição especial da Adidas inspirada nas cores da Argentina. O modelo branco e azul foi desenvolvido exclusivamente para o camisa 10 da seleção, reforçando sua posição como um dos principais ativos da marca.
Cristiano Ronaldo também fugiu da tendência predominante. Para marcar sua sexta participação em Copas do Mundo, a Nike desenvolveu uma chuteira dourada exclusiva, transformando o modelo em uma homenagem à sua trajetória histórica no esporte e para encerrar seu ciclo no Mundial.
Já Neymar recebeu versões personalizadas da Puma, mantendo uma identidade visual própria em vez de aderir ao rosa que dominava o restante do torneio.



A decisão desses atletas revela uma lógica muito conhecida pela indústria da moda: quando uma tendência se torna massificada, o verdadeiro luxo passa a estar na exclusividade. Enquanto centenas de jogadores tentam se destacar usando a mesma cor, estrelas globais conseguem chamar atenção justamente por não segui-la.
A vestimenta como quebra de paradigmas sociais
Mas o aspecto mais interessante dessa história está longe do campo. Durante décadas, o rosa foi associado ao universo feminino. Ao mesmo tempo, o futebol foi construído socialmente como um espaço predominantemente masculino.
Ver alguns dos maiores atletas do planeta usando chuteiras rosas sem qualquer questionamento mostra o quanto essa percepção mudou. A moda sempre funcionou como um reflexo cultural. Muito antes de as tendências chegarem às passarelas, elas costumam surgir a partir de transformações sociais mais amplas.
Nesse contexto, a popularização do rosa no vestuário masculino, inclusive de atletas, ajuda a enfraquecer estereótipos antigos sobre o que homens podem ou não usar. Assim, o que antes poderia gerar estranhamento, hoje é visto apenas como uma escolha estética.
No futebol, isso ganha uma dimensão ainda maior. Milhões de crianças acompanham seus ídolos durante a Copa do Mundo e absorvem referências estéticas, comportamentais e culturais.



Quando jogadores como Vinícius Júnior, Mbappé, Bellingham ou Haaland entram em campo usando rosa, a mensagem transmitida é de que cores não têm gênero. O que importa é o estilo, a autenticidade e a possibilidade de expressão individual. E, talvez, seja justamente esse o legado mais interessante das chuteiras rosas na Copa de 2026.
Uma prova de que, mesmo em um ambiente tradicionalmente masculino como o futebol, a estética continua sendo uma poderosa ferramenta de comunicação e mudança de comportamento.
No fim das contas, as chuteiras rosas não dominaram apenas os gramados, mas tomaram o protagonismo de uma conversa que vai muito além.
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Escrito por: Shayla Gabriela Silva | Editado por: Maria Clara Machado


