Arte,  Cultura

Chiharu Shiota entrelaça memória e espaço na 16ª Bienal de Curitiba

Quem entra no imponente Olho do Museu Oscar Niemeyer (MON) nos últimos dias é imediatamente capturado por uma névoa de linhas que desafia a gravidade e a própria percepção do espaço. Centenas de quilômetros de fios pendem do teto, criando uma arquitetura de fios que transforma completamente a experiência espacial do público. Trata-se de “Poéticas da Memória e da Matéria”, a exposição inédita da renomada artista japonesa Chiharu Shiota, um dos principais destaques que abriu as portas ao público na 16ª Bienal Internacional de Curitiba.

A instalação principal, intitulada “The Space Between Us”, impressiona não apenas pela força poética, mas pelos números: utiliza cerca de 300 quilômetros de fios negros e vermelhos. A extensão equivale aproximadamente ao trajeto rodoviário entre Curitiba e Florianópolis. É a maior instalação site-specific que Shiota já realizou em toda a América do Sul. Contudo, a grandiosidade da obra se desfaz em intimidade quando o espectador se aproxima. Entre os emaranhados, flutuam cartas, desenhos, colagens e relatos pessoais enviados pelo público em uma chamada efetuada pela Bienal.

“O mais impressionante dessa instalação é a interação do público com a artista”, relata o estudante universitário Vinicius Ferreira, de 20 anos, visivelmente tocado pela experiência. “Antes mesmo de entrar no Olho, os fios que pendem do teto do espaço me impressionaram e me fizeram ainda mais interessado. As cartas das pessoas tornam a obra ainda mais profunda e humana, refletindo o que é a arte para mim: a conexão entre pessoa e obra.”

Vale ressaltar que a montagem da obra mobilizou dezenas de estudantes e profissionais de áreas relacionadas às artes visuais, assim como equipes de montagem do MON.

Arte além do Olho

Não é por acaso que o Museu Oscar Niemeyer (MON), popularmente conhecido como Museu do Olho, foi escolhido para abrigar a maior parte desse universo sensível. Como parceiro histórico da mostra, o museu atua nesta edição como epicentro da Bienal. A mostra ocupa de forma sinestésica o Olho, a Torre, a Rampa, além de cinco salas expositivas e entressalas.

“Mais uma vez, o maior museu de arte da América Latina abre as portas para abrigar a Bienal Internacional de Curitiba”, celebra Juliana Vosnika, diretora-presidente do MON. Ela ressalta que o trabalho de Shiota, além de ocupar o Olho e as salas Araucária 1 e 2, estabelece um diálogo sutil e sofisticado com a própria coleção de arte asiática que pertence ao acervo permanente do museu.

Bienal de Curitiba e sua trajetória marcante

Com três décadas de história defendendo a experimentação estética na América Latina, a Bienal Internacional de Curitiba traz nesta 16ª edição o provocativo tema “LIMIARES”. Sob a direção curatorial da crítica argentina Adriana Almada e da historiadora brasileira Tereza de Arruda, o evento reúne mais de 300 artistas vindos de 38 países e cinco continentes.

A edição propõe discutir os limites entre o humano e a tecnologia, o natural e o artificial, reunindo obras que exploram essas fronteiras. “Mais do que um conceito, LIMIARES é uma atitude curatorial: habitar a fronteira, permanecer no entre, criar a partir da incerteza, gerando novos caminhos”, definem as curadoras.

Além de Shiota, o MON revela ao público obras provocativas como as fotografias e videoartes do espanhol Max Esteban, que critica a automação da condição humana, e as esculturas mecânicas de aço polido do chinês Xia Hang, que mesclam um visual cyberpunk lúdico a uma espécie de “brinquedos para adultos”.

A força dessa edição, no entanto, recusa-se a ficar trancada entre quatro paredes. A Bienal espalha-se por mais de dez instituições culturais da capital paranaense, incluindo o Museu Paranaense (MUPA), o Museu da Imagem e do Som (MIS-PR) e o Museu Alfredo Andersen.

A arte invade até mesmo o cotidiano apressado de quem utiliza o transporte público local. A partir de 16 de julho, o sistema integrado de Curitiba receberá ativações artísticas em 22 terminais de ônibus, 300 paradas urbanas e em mais de mil veículos circulando pelas ruas. Telas de TV internas exibirão mostras de videoarte com curadoria de Flavio de Carvalho, enquanto experiências de realidade aumentada convidarão os passageiros a cruzar portais poéticos em meio ao vaivém das estações-tubo.

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Escrito por Gustavo Xavier I Editado por Ana Carolina Gomes 

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