Com as mãos se move o mundo: a Feira de Artesanato em Barbacena
A época de tirar os casacos e cachecóis do armário chegou atrasada, mas chegou. Além das peças clássicas do outono, também é tempo de procurar botas country e coturnos para conferir as Exposições Agropecuárias.
Este ano, o evento em Barbacena dura duas semanas. Do dia 13 a 24 de maio a cidade recebe milhares de pessoas do Campo das Vertentes, além de artistas como Lauana Prado e Daniel.

Porém, nem só de agropecuária vive o interior e seus eventos! A Feira de Artesanato reúne não apenas os fazeres alimentícios da cultura agropecuária, mas também artesãs e artesãos diversos. Suas peças e seus trabalhos vão além da estética e do utilitarismo, mas são um estilo de vida que preserva tradições, cultura, heranças milenares e ainda representam uma vida de mais bem-estar.

Profissão e herança milenar no artesanato
Em 23 de outubro de 2015, a então presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 13.180. Nomeada como Lei do Artesão, ela regulamentou o artesanato como profissão, além de estabelecer diretrizes específicas para políticas públicas destinadas aos artesãos e artesãs.
Apesar de ser uma lei recente, o artesanato sempre foi uma profissão. No Brasil, existem 8,5 milhões de artesãs e artesãos, e 80% são mulheres. Em Minas Gerais, a tradição artesanal é conectada com a história e a presença das nações indígenas por todo estado.
Para Fernanda Braz Santarosa, artesã, jornalista e voluntária no Coletivo Nós Di Minas, o artesanato é plural.
“O artesanato é uma potência cultural imensa, tanto a nível nacional quanto aqui no nosso estado de Minas Gerais. Aliás, em Minas o artesanato representa a nossa identidade, nossas raízes, é uma forma de preservar a nossa cultura, as histórias da nossa comunidade”, afirma.
Jennifer Silva Soares trabalha com artesanato em resina e é uma das expositoras na Feira. Na sua visão, além de preservar as tradições, o artesanato é uma forma de “expressar a criatividade e valorizar o trabalho manual. Cada peça carrega história, identidade e a dedicação de quem a produz”.
O artesanato é amplo e versátil. Existe crochê, tricô, artesanato em madeira, resina, produções com gesso, macramê, papelaria, costura criativa, bordado, brincos e colares, velas aromáticas, tapeçaria e diversos outros nichos artesanais.
No Coletivo Nós Di Minas, que esteve presente no primeiro fim de semana da Feira, é possível encontrar produtos e peças variadas.

Nada se copia, tudo se cria
Cada peça, mesmo que feita pela mesma artesã, é única. Parte do mercado de luxo, na moda, pressupõe exclusividade no produto. Assim, uma peça única, ou pouco replicável, tem um valor maior pela raridade.
No universo artesanal, nenhum trabalho é igual. Ainda que a técnica seja a mesma, o resultado não é idêntico. Longe de ser um defeito, o artesanato possui essa particularidade herdada do ser humano.
Ainda assim, existe estudo, conhecimento e primor técnico na execução da arte.
Jennifer, proprietária da marca Resiluar, começa pela criação do modelo. O cliente escolhe o modelo mais adequado para seu objetivo e desejo e, então, a peça é feita a partir dos moldes.
“Depois eu preparo a resina, aplico cuidadosamente nas fôrmas, adiciono pigmentos, elementos decorativos e os detalhes que vão dar vida à peça”, conta.
O trabalho de Jennifer inclui eternizações. Seja uma imagem ou pelos de um animal de estimação, com a resina ela consegue tornar o objeto imortal. Desse modo, isolado dos efeitos do tempo, dentro da resina ele faz parte de um universo próprio e se mantém presente na vida do cliente.
O tempo de criação depende de fatores como clima e tamanho da peça, mas no geral dura entre 7 e 10 dias para que a peça seque totalmente.


Fernanda é crocheteira, mas sempre se encantou com tudo que é manual. “Adorava fazer cursos de artesanatos de diversos tipos e nisso aprendi um pouquinho de cada coisa: fiz tricô, pintura em tela, pintura em gesso, fuxico, costura, bordado… e principalmente o crochê, que sempre foi minha grande paixão”, compartilha.


A técnica do crochê
O crochê é uma técnica de tecelagem milenar encontrada em diversas culturas. Se utiliza uma agulha com gancho na ponta — e a origem da palavra remete justamente a esse gancho — e linha. Desse material, e dos pontos da técnica, podem nascer infinitas peças.
Assim, de um amigurumi a um vestido de casamento, o crochê é a arte do possível. Em seu processo de produção, Fernanda prioriza a sustentabilidade. “Trabalho muito com fio de algodão e também procuro usar materiais que seriam descartados para tecer, como sobras de fios ou reutilização de peças têxteis que seriam descartadas, para transformar em fios e crochetar”, diz.
Embora não faça parte integralmente da indústria têxtil, por ser um trabalho que nenhuma máquina faz, o crochê ainda faz parte da moda. Não apenas porque muitas peças são de vestuário, incluindo ainda bolsas e acessórios, mas também porque a matéria-prima é similar e produzida industrialmente.
Além dos fios que Fernanda cita, existem fios de viscose, acrílico, malha e poliéster. São diversas as marcas produtoras de fios para crochê e tricô, e como parte de uma indústria, mesmo que indiretamente, é interessante que a artesã reflita sobre seus impactos ambientais.

Ser artesã: muito além da profissão
Mais do que uma profissão, mais do que renda, o artesanato possibilita uma forma de vida conectada com si mesmo e com sua saúde.
Segundo Fernanda, “meu processo de produção é bem lento, no meu tempo, até porque sou portadora de uma doença autoimune que compromete bastante as articulações”.
“O crochê também me ajuda muito nisso, no processo de manter a saúde mental em dia, para aliviar inclusive no meu tratamento de saúde”, conta a artesã.
Portanto, trabalhar com artes manuais faz bem para saúde, para a longevidade e é fundamental para cuidar da mente. “O trabalho em crochê sempre foi o meu refúgio, meu descanso mental, minha terapia… é um momento em que eu esqueço de tudo e me concentro só no movimento da agulha”, afirma Fernanda.
“É um trabalho que me faz bem, trabalhar com o artesanato me dá calma, concentração e satisfação. Uma forma de relaxar e, ao mesmo tempo, de produzir algo que faz outras pessoas felizes”, o que começou como trabalho rentável para Jennifer, se tornou uma paixão.
Natural de Montes Claros, no norte de Minas, ela está em Barbacena há dois anos. “Aqui encontrei muitas inspirações da natureza, nas cores, na cultura, no local, que influencia muitas minhas peças”, conta.


A arte que vive no artesanato
Ainda existe uma divisão entre artesanato e arte. Como se o artesanato não pudesse conter em si o caráter provocativo, disruptivo e revolucionário de uma grande obra. Ou até como se a premissa dos movimentos repetitivos e “conservadores” excluísse o artesanato do lugar de arte.
Há ainda quem diga que o objetivo do artesanato é mais utilitário e a arte não vai por esse caminho. Com o massivo uso de IA, acaba se perdendo a linha entre o que é arte e o que não é.
Nesse sentido, o artesanato, sua irreprodutibilidade natural, é mais arte do que nunca. “Virou uma paixão. Hoje é meu trabalho, minha forma de expressão. E também uma maneira de compartilhar a beleza com outras pessoas”, é o que Jennifer responde sobre sua afeição pelo trabalho.
Além disso, ela traz um relato que ressoa com muitos artistas e artesãs. “Cada peça é como criar um pequeno universo. É muito gratificante ver o que comecei como um líquido transparente se transformar em algo bonito, durável e com muito significado para alguém”, diz.

Como se vende artesanato?
Apesar de tradicional, importante e extremamente valioso, o artesanato muitas vezes é desvalorizado. Sendo assim, políticas públicas, como a criação do Programa do Artesão (PAB), são importantes para a viabilidade da atividade desses trabalhadores.
Sobre a Feira de Artesanato, presente na Exposição, é essencial, na opinião de Jennifer e Fernanda. “A feira de artesanato é essencial para dar visibilidade aos artesãos locais e aproximar o público. O trabalho manual valoriza a cultura e a criatividade da região. E também é um espaço de troca de aprendizado e inspiração para todos que participam”, conta Jennifer.
Com grandes artistas anunciados, e duas semanas de funcionamento, a Exposição atrai grande público de Barbacena e região. Dessa forma, a movimentação de pessoas durante o dia dá visibilidade para os expositores e é mais um local de vendas e conexões.



Para Fernanda, a Feira deste ano foi uma virada de chave no setor na cidade. “O espaço do ficou numa localização excelente, com uma estrutura muito bonita e organizada, e isso trouxe uma visibilidade maior e destacou demais o trabalho dos artesãos da cidade”, comenta.
Além disso, a importância da Feira é tamanha que o artesanato da cidade ocupa visibilidade nacional. “O evento cresceu muito e se estruturou como uma grande feira nacional do agronegócio, e isso fez despontar o artesanato da nossa cidade para o cenário nacional, já que a cidade está cheia de expositores e turistas”, diz Fernanda.
Mais do que parte do ritual e da vibe de conhecer um lugar novo, passear pelas feiras de artesanato, prestigiar o trabalho e comprá-los é fundamental para o artesão.
Afinal, as artesãs devem ser valorizadas como as grandes artistas e, muitas vezes, as sábias que são.
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Escrito por: Geovana Nunes | Editado por: Maria Clara Machado


