Quem borda um ponto, narra um conto: tatreez e a história palestina
Se uma árvore cai e não há ninguém por perto, ela realmente caiu?
Esse questionamento é antigo e gera bastante reflexão. Afinal, a realidade como conhecemos depende dos nossos registros? Como garantir que algo aconteceu sem registro ou testemunhas?
Nesse sentido, todas as formas de registrar os acontecimentos são interessantes e humanas. Seja uma foto, um diário, um documentário e até mesmo um bordado.
Por isso, no universo têxtil e artesanal, diversos projetos buscam registrar a passagem de tempo. Um exemplo deles é a manta do tempo. Feita em técnicas de tecelagem como crochê e tricô, ela é um registro cronológico da temperatura em um ano inteiro.

Outro exemplo é o tatreez. O bordado típico da Palestina conta história e imortaliza a história desse povo. E é sobre ele a nossa conversa de hoje!
O tatrez: ponto a ponto
Seja manual, seja feito por máquina, o bordado está presente em itens cotidianos. De toalhas personalizadas à itens de decoração, o bordado está lá. Ele também enobrece vestes específicas, como vestidos de noiva, ou peças comuns como calças jeans.



Sem dúvida, o tatreez é um tipo de bordado e uma forma única, ancestral e cultural de registro. Em árabe, tatreez sifnifica bordado e ele é utilizado como decoração para vestidos, roupas de cama, livros e lenços.
De mãe para filha
Normalmente, as técnicas de tecelagem e todo o universo têxtil em si é protagonizado por mulheres. O tatreez não é diferente, conhecido como forma de resistência das mulheres palestinas.

As formas geométricas e o trabalho colorido não são aleatórios. Desde 2021 a técnica é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco e foi considerado “uma prática social e intergeracional generalizada na Palestina”.
Em outras palavras, o jeito de fazer o tatreez são passadas de geração em geração no território palestino. Em um contexto de violência, guerra, preconceito e genocídio que vive a Palestina, o reconhecimento do tatreez a nível internacional e seu uso por primeiras damas é relevante.

Do campo à cidade
O encanto dessas obras de arte vai além do visual e se estende ao que ele representa. Segundo o artigo do site Handmade Palestine o tatreez também é conhecido, tradicionalmente como fallahi.
Fallah quer dizer agricultor, trabalhador rural e o ponto recebe seu nome, pois era feito pela fallaha, a mulher agricultora da palestina. A maior inspiração das mulheres para a criação de suas peças, no início, era a paisagem.

O que se chama de motivo, no crochê e no bordado, é uma série de repetições que geram uma parte do desenho. Alguns motivos eram utilizados para distinguir as mulheres pelo seu status social e estado civil.
Além disso, a região da qual elas são podiam ser identificadas pelo tatreez também. O motivo do cipreste, árvores eretas e invertidas, é um estilo tradicional de Gaza. Enquanto Ramallah é mais conhecida pelos fios vermelhos brilhantes e contínuos.
A vida é o fio do tempo
Há oito anos atrás, Julia Gravalos Benini, aprendeu a bordar. Com vídeos no Youtube, ela descobriria uma nova forma de ver e viver o mundo a partir da arte. Para ela o mais encantador do bordado é o ato em si. “O processo de bordar… incluindo os movimentos das mãos, a escolha de cores, as texturas das linhas”, afirma.
As peças que produz são bordados livres no algodão. Sua técnica é a do realismo. O que se vê normalmente são bordados em bastidor, mas Julia realiza outros tipos também. “Tanto em bastidores quanto em bonés e roupas, porque são a maioria dos pedidos que recebo sob encomenda. Também já fiz peças abstratas, de tapeçaria, com bordado em ponto russo e bordados em outras superfícies, como em fotografias e joias”, conta.

Para ela, trabalhar com bordado mudou sua forma de ver as coisas. “Bordar me trouxe uma nova relação com o tempo. Por ser uma arte de execução lenta, levar cinco horas para produzir uma peça parece rápido, mas se eu passo cinco horas fazendo qualquer outra atividade, sem parar, o mesmo período dura uma eternidade. Também me tornei mais atenta aos bordados que vejo no cotidiano e às cores que me cercam, imaginando se já fizeram uma linha com um tom específico que chama minha atenção”, afirma.
O mais importante do bordado é o avesso
Se você tem uma amiga ou amigo artista, ou é o amigo artista, vai compreender minha descrição. Ao se apaixonar por uma arte, aprendê-la e fazer dela parte de si, você se torna uma pessoa diferente do que foi antes. Mergulhar na sensibilidade artística faz com que o olhar paraa o mundo ao redor se transforme.
O bordado é uma arte versátil e livre. Da escolha do material das técnicas, dos desenhos, é possível criar algo novo em cada passar da linha. Como artista entendo a complexidade da pergunta: o que sua arte significa para você? Mas a essa questão, Julia respondeu com maestria e sensibilidade.

“O bordado é a materialização da minha memória. Eu não conseguiria selecionar vinte horas específicas da minha vida e dizer o que fiz em cada minuto delas, mas, se tiver feito um bordado nesse período, ele é o registro perfeito da passagem do tempo, e da consequente eternização dele”, compartilha.
Pode me perguntar de cada coisa que eu me lembro
Atualmente, e é importante o uso dessa palavra visto que é um ranking que sempre pode mudar, minhas duas comidas favoritas são: shawarma e vaca atolada.
Nunca comi nada melhor, em 24 anos, do que a vaca atolada que minha avó faz. É mágico. Logo depois vem o shawarma. Uma obra prima da culinária árabe que tem o meu coração há anos. Porque comer não é apenas se nutrir de energia, vitaminas e afins, mas se nutrir de afeto, cultura, memória.

Por isso, foi sobre afeto, memória e cultura que conversamos com Tania Mara Moreira Sad. Neta de libaneses, seu pai nasceu no Brasil e Tania cresceu ao redor da culinária árabe. Tania ressalta que o Sad em seu sobrenome era diferente. “Na migração, fizeram um documento brasileiro com ‘a’ só. não corrigiram e assim ficou, mas ele originalmente é com dois ‘as'”, conta.
A cultura está em tudo
A conexão de Tania com sua raízes se inicia, profundamente, com a culinária. Em suas primeiras memórias estão os pratos e relatos de sua avô paterna.
“Minha avó quando chegou no Brasil, experimentou o angu… ela falou: ‘Meu Deus, que a comida é essa que não tem gosto de nada?’. Porque a culinária árabe tem muito condimento, é muito temperado, um sabor vivo ali, né? Ela experimentou o angu e ela não entendeu o que era aquilo, porque o pessoal fazia aquilo e comia aquilo”, conta.
Muito mais do que temperos vivos e acentuados, a culinária árabe é marcada pela presença de homens na cozinha. “Meu avô fazia muito charuto… o que também é uma coisa interessante. A culinária não era só a mulher que fazia. Meu avô cozinhava muito bem, eu tenho uns primos mais velhos que cozinham muito bem, cozinham comida árabe muito bem”, compartilha.
Casa cheia de pessoas e memórias
Além disso, as reuniões familiares também fazem parte dos relatos de Tania. “E uma memória forte que eu tenho, a minha tia mais velha… ela nasceu no Líbano também… se reuniram na casa dela e uma vez fizeram… como se fosse um kibe recheado com carne de carneiro. Mas ele não é frito, ele é cozido numa papa de arroz. Eu era muito nova também, mas eu tenho isso na minha lembrança”, relembra.

O resgate de memórias, os populares “causos” são importantes e quando se fala de comunidades que são restritas em números espaços específicos para conversar e celebrar as memórias são fundamentais.
No contexto de Barbacena, é o caso do Clube Sírio-Libanês criado em 2022.
“Um primo distante montou um clube sírio-libanês, aqui em Barbacena, sabe? Então ele faz umas festividades para reunir os descendentes que vivem em Barbacena… para relembrar memórias. Ele resgatou muitas fotos, de várias famílias, é um negócio até bacana”, conta.
Segundo Tania iniciativas como essas são importantes. “Para não deixar as tradições morrerem, das pessoas se reunirem, falarem dos antepassados… contar cada um sua história. Porque está morrendo, a verdade é essa. As novas gerações não se interessam por isso. Não ligam. Então vai abrasileirando tudo e o que fica da memória dos antigos vai morrendo com eles”, afirma.
Linhas que atravessam séculos

Assim que Julia começou a bordar, o mundo se transformou. Imagens geradas por IA, até livros gerados por IA e o pior “arte” gerada por IA.
Das ilustrações visualmente poluídas ao deepfake perigoso, a IA emula muito da cultura humana. Chegando até a falsear e copiar obras de arte. Segundo Julia, máquinas não podem reproduzir a essência do trabalho. “Alguém que quer ter uma peça bordada à mão não está pensando só na técnica, ela considera a exclusividade do trabalho e o olhar de quem a produziu, que uma máquina não consegue emular”, afirma.
Há 16 anos Tania faz dança do ventre e a sua admiração pelos figurinos a fez aprender a bordar para esse fim específico.



Essa nossa vida de artista
“Eu comecei a bordar para bordar as minhas roupas que eu queria coisas, eu não queria essas coisas vendidas… eu queria coisas que eu fizesse, que tivesse minha cara, que fosse do meu gosto. Aí eu comecei a bordar… com isso bordei alguns figurinos para a turma de dança, para algumas meninas. Mas não é a minha a minha profissão não. Era para ver a beleza, a beleza do bordado no palco, sabe?”, diz.
Para Julia, e Tania demonstra isso na sua busca por um bordado que se parecesse com ela, a arte é subjetiva.


“Na minha perspectiva, a arte precisa ser feita por uma pessoa, justamente por ser o retrato de uma subjetividade. Uma IA não tem experiências, não tem memórias, não tem uma visão de mundo. Ela acessa, sem consentimento, artes que foram produzidas por quem tem tudo isso, sendo incapaz de criar um conteúdo original e, no caso do bordado, tátil. Uma ferramenta sem mãos e sem tato, literalmente, não consegue criar uma arte que se sente nas pontas dos dedos, independentemente de uma tela estar ligada”, conta.
Sou um coração batendo no mundo
“Todas as formas de arte são a manifestação de uma subjetividade, de forma literal ou figurativa. Elas refletem maneiras de pensar e de ver o mundo, sendo um fragmento concreto da história da humanidade. Como é uma forma de arte, o bordado cumpre esse mesmo papel”, comenta Julia.


“A partir da técnica, conhecemos os materiais e os processos que um conjunto de pessoas desenvolveu, aprendeu e ensinou de geração em geração. Pelos temas, visualizamos o que a artista que bordou valorizava, no que ela via beleza e no que fazia sentido registrar, para durar para sempre. Pela visibilidade que a obra recebeu, sabemos se essa arte foi devidamente valorizada no momento em que foi produzida, e isso também já comunica muito sobre a cultura de um povo”, continua.
O relato de Julia sobre a arte se comunica com o tatreez. Ele é uma forma de imortalizar características da cultura e da própira artista que o produziu. Como dizemos no portal, a moda é uma forma de identidade, de se colocar perante o mundo. O tatreez, e o bordado como um todo, eleva a identidade de quem faz e quem usa a peça.
A vida é amiga da arte



“Penso que o bordado sempre foi uma forma de resistência. Mesmo quando ele não era considerado uma forma de arte, pelo ambiente no qual era feito e pela pessoa por trás da agulha, continuou a ser produzido. Hoje ele é compreendido como a manifestação artística que sempre foi, é a principal fonte de renda de muitas mulheres (o que seria impensável no século passado) e, acima de tudo, é um registro das histórias daquelas que o produzem”, afirma.

A arte de um povo em seu tempo é uma forma de comunicar sua essência e imortalizar sua maneira de ser. Como Julia descreve, uma arte tátil como o bordado é uma forma de garantir que a mensagem e sua essência se perpetue.
O tatreez resiste ao tempo físico, pela característica do bordado em si, ao automatismo sem vida da IA e é uma forma de manter viva a cultura, saberes, história e paisagens do povo palestino em um mundo que hostiliza e age contra sua existência.
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Escrito por Geovana Nunes I Editado por Ana Carolina Gomes


