Comportamento,  Moda

Moda e comportamento:por que a elegância virou sinônimo de terno?

O terno é uma vestimenta em que sentir presença faz parte do seu uso. Vestir um terno não está relacionado apenas à roupa, mas também à maneira como ela transforma a visão que temos de nós mesmos e a forma como somos enxergados pelos outros e pelo mundo. Todos procuram algum lugar para se chamar de seu e no fim para pertencer.

A consolidação do terno como símbolo de prestígio está diretamente relacionada às transformações sociais ocorridas entre o final do século XVIII e o século XIX. Nesse período, a maneira de vestir deixou de representar apenas riqueza e passou também a comunicar valores como respeito, autoridade e pertencimento social.

Moda Masculina anos 1705 (reprodução instagram :@bloshka_blog)

A aristocracia europeia exerceu importante influência sobre os códigos, por meio de roupas luxuosas, tecidos sofisticados, bordados e “fru -fru” . Entretanto, com as transformações políticas e sociais que marcaram o fim do Antigo Regime, esse modelo de riqueza começou a perder espaço. Aos poucos, uma estética masculina mais discreta ganhou força.

A alfaiataria moderna tem como papel construir uma nova visão sobre toda essa história. A desconstrução da vestimenta também pode ser entendida a partir do histórico do dandismo e da construção da elegância.

O dandismo surgiu na Inglaterra entre o final do século XVIII e o início do século XIX, em um período de grandes transformações sociais e culturais. O movimento ficou principalmente associado a Beau Brummell, que se tornou uma referência da moda masculina inglesa.

Moda Masculino anos 1800 (reprodução instagram :@bloshka_blog).

Nesse período, a forma de se vestir começou a mudar. Os excessos e os ornamentos característicos da aristocracia foram dando espaço para uma aparência mais sóbria e cuidadosamente construída. O dândi valorizava roupas bem cortadas, perfeição no caimento, tecidos de qualidade e uma aparência incrível, mas sem demonstrar esforço excessivo ( de quem passou horas penteando o cabelo) . Os dândis não eram necessariamente pertencentes às classes mais altas, mas utilizavam sua aparência como uma forma de inserir em determinados convívios sociais, em um mundo no qual o acesso a esses espaços não era tão simples.

Dândis do século XIX (reprodução site @UseFashion.com)

Ao longo do tempo, o terno deixou de ser apenas uma roupa utilizada em ocasiões formais e passou a carregar diferentes significados. O cinema e a política tiveram participação importante nessa construção, principalmente por trazer a peça a figuras de poder e influência.

Um exemplo marcante da relação entre cinema, terno e poder aparece em “O Poderoso Chefão “, filme dirigido por Francis Ford Coppola em 1972. A maneira como os personagens se vestem ajuda a construir suas personalidades e a posição que ocupam dentro da história.

Os ternos usados pelos personagens apresentam cortes clássicos, cores sóbrias e uma aparência cuidadosamente alinhada. Usar o terno para representar poder não foi por acaso. Ao longo da história, a roupa foi sendo construída como uma forma de comunicar autoridade, respeito e posição social antes mesmo de qualquer palavra ser falada. Presidentes e outras figuras políticas também utilizam a peça para transmitir seriedade, confiança e credibilidade.

Algumas coisas mudaram ao longo do tempo, e as desconstruções passaram a fazer parte do cotidiano da moda. Na desconstrução e reconstrução de ternos, por exemplo, tecidos, cortes e estruturas já usadas podem ser aproveitados para criar novas oportunidades. O upcycling seria um ótimo exemplo dessa “reforma” do tradicionalismo, trazendo um novo visual para uma peça que carrega uma história tão marcada.

Algumas mudanças também se tornaram mais aceitas no uso cotidiano. Durante muito tempo, a alfaiataria foi associada principalmente ao universo masculino, mas as mulheres passaram a usar o terno de diferentes maneiras, adaptando cortes, modelagens e formas ao próprio estilo. Com isso, a peça passou a representar diferentes formas de expressão.

Princesa Catherine usando terno vermelho assimétrico da marca Alexander McQueen (reprodução instagram: @vinni.chung)

Mas o que se quer transmitir não tem necessariamente a ver com o terno, sua cor ou sua forma padronizada. Estar feliz com a própria imagem é uma das formas mais importantes de valorizar a autenticidade. Os sentimentos que surgem quando a felicidade encontra espaço na autoestima não têm preço, forma ou tabela. No fim, a verdadeira elegância também está na maneira como cada pessoa se sente ao vestir aquilo que escolheu ser.

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Escrito por Dhara Sabino I Editado por Ana Carolina Gomes 

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