Por que as costureiras estão desaparecendo?
A desvalorização da execução da ideia de moda e o apagamento das mãos que transformam criação em existência.

A escolha de Paulette Boncouré para a capa desta matéria se justifica pela relevância de sua trajetória e pela contribuição que sua história representa para a moda. Sua vivência, marcada pelo trabalho, pela dedicação e pela transmissão de conhecimentos entre gerações, reflete aspectos fundamentais da construção do vestuário e da valorização dos saberes manuais.
Ao destacar sua imagem na capa, busca-se reconhecer a importância de sua trajetória e homenagear uma história que dialoga diretamente com os temas abordados nesta reportagem.

A costura sempre fez parte da moda. Afinal, grande parte das peças precisa passar por esse processo para que uma ideia saia do croqui e ganhe vida. Mas, se a costura é tão importante para a existência da moda, por que ela continua sendo tão desvalorizada?

Da tradição familiar ao esquecimento:
Ao crescer, sempre ouvi histórias sobre como o conhecimento da costura era passado entre gerações. O ensinamento era compartilhado entre irmãs, que costuravam roupas para seus irmãos, e a diversão estava em encontrar um belo modelo de vestido e transformá-lo em realidade. Com o tempo, aquilo que começou como aprendizado e afeto tornou-se profissão.
Em muitas famílias, a costura fez parte da construção da identidade familiar. Tecidos, moldes e máquinas de costura estiveram presentes em diferentes momentos da vida, acompanhando celebrações, necessidades e transformações. Mais do que produzir peças, esse conhecimento ajudou a criar conexões entre gerações e deixou marcas que permanecem na memória de quem conviveu com esse ofício.
Porém, em uma sociedade marcada pela rapidez e pelo consumo imediato, tornou-se muito mais fácil comprar do que mandar fazer. Como consequência, a valorização das costureiras tende a diminuir. Com o crescimento do fast fashion, esse cenário se intensifica. A Uniform Market divulgou que a Indústria da Moda Fast Fashion deve atingir US$ 291 bilhões até 2032, segundo o último relatório Environmental Impact of Fast Fashion Statistics.
Além disso, a profissão enfrenta uma realidade preocupante. Dados mostram que 62% das costureiras autônomas ganham menos que um salário mínimo. O que, no mínimo, é contraditório. A moda celebra estilistas, tendências e grandes desfiles, mas raramente volta os olhos para quem transforma o desenho em realidade.
Existe ainda uma questão social pouco discutida: por muitas vezes, a costura passou a ser vista como uma atividade menor, associada apenas ao trabalho doméstico ou a uma profissão sem prestígio. Em alguns contextos, saber costurar deixou de ser reconhecido como uma habilidade técnica e criativa para ser tratado como algo ultrapassado. Esse preconceito contribuiu para o apagamento de profissionais que dominam conhecimentos fundamentais para a construção do vestuário.
Em um cenário de envelhecimento da mão de obra e falta de interesse das novas gerações pela profissão, o número de costureiras vem diminuindo. Entre 2010 e 2020, a Abit apontou uma redução de 32% nos postos de trabalho formais do setor do vestuário.

Ao observar os grandes desfiles, com toda a sua majestade, conceitos elaborados, construção de atmosfera e iluminação cuidadosamente planejada, surge uma pergunta: onde encontraremos quem produziu, com as próprias mãos, aquelas roupas? Quem deixou seu toque físico em cada costura? Quem teve o suor misturado ao toque do tecido?
É chegada a hora de refletir sobre a distância existente entre a valorização da ideia e a valorização da execução. Afinal, sem a costura, o croqui permanece apenas no papel. E sem as mãos que constroem a moda, nenhuma criação se torna realidade.
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Escrito por Dhara Sabino I Editado por Ana Carolina Gomes


