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Cinema também é manifesto político: O festival de Cannes 2026 nos mostrou isso muito bem

A 79ª edição do Festival de Cannes, realizada entre os dias 12 e 23 de maio de 2026, foi marcada por filmes que abordam guerras, regimes autoritários, conflitos políticos e memória histórica. Além disso, o Brasil também marcou presença em mostras e premiações, reforçando o crescimento do audiovisual nacional no cenário internacional.

A jornalista, produtora e colunista de cinema Heloisa Ribas concedeu uma entrevista ao Fashionlismo, na qual opinou sobre o Festival de Cannes 2026.

Imagem da 79ª edição do Festival de Cannes (Reprodução/Instagram)

Manifesto político

Muitos filmes mostrados nesta edição do Festival de Cannes retratam cenários de guerras passadas e como o autoritarismo era dominante entre a população. Muitos desses movimentos refletem na era contemporânea, com guerras ainda acontecendo e o autoritarismo presente em diversos países.

Exemplo disso é o drama belga sobre a Primeira Guerra Mundial, Coward, de Lukas Dhont, que mostra soldados nas trincheiras confrontando ideias de heroísmo e masculinidade. Também citamos Visitation, o mais recente filme de Volker Schlöndorff, diretor de O Tambor, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 1980 e da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1979. Nele é retratado o destino de três famílias que viviam próximas a um lago em Berlim durante o longo período da história marcado pelo domínio do ditador nazista Adolf Hitler e pela queda do Muro de Berlim.

Também foram trazidos dois filmes franceses, Moulin e De Gaulle: Tilting Iron, sobre a resistência francesa à ocupação nazista. Já A Man of His Time, produção em parceria entre França e Bélgica, aborda a colaboração da França durante o período da Segunda Guerra Mundial.

Dentre todos os filmes apresentados sobre o tema, A Man of His Time, do diretor Emmanuel Marre, mostrou-se um dos mais impactantes. Mesmo sendo uma obra de época, apresenta uma filmagem independente e moderna.

Vimos também Fatherland, de Pawel Pawlikowski, um filme pós-guerra. O drama em língua alemã do diretor polonês de Ida (2013) e Guerra Fria (2018) mostra o escritor alemão Thomas Mann, vencedor do Nobel em 1929, e sua filha Erika Mann, romancista e ativista antifascista, viajando por uma Alemanha dividida durante o período da Guerra Fria.

Também tivemos um thriller político que retrata um empresário corrupto que, ao descobrir a infidelidade da esposa, decide encontrar seu amante para confrontá-lo. A obra é uma adaptação livre do filme francês A Mulher Infiel, de Claude Chabrol, lançado em 1969.

Destaques para o Brasil

O Brasil marcou presença mesmo sem disputar a Palma de Ouro. Um dos principais destaques foi Laser-Gato, curta-metragem premiado durante o festival. A produção é uma coprodução entre Brasil, Estados Unidos e Reino Unido. 

“Elefante na Névoa”, filme com coprodução brasileira, venceu o Prêmio Júri da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes 2026. (Foto: Instagram / Sinny Comunicação)

Outro destaque foi Lucas Acher, diretor brasileiro responsável pelo curta premiado.

Além disso, o Ministério da Cultura levou projetos ao Marché du Film e apresentou estratégias para ampliar a presença internacional do audiovisual brasileiro. Também houve coproduções brasileiras em mostras paralelas do festival.

Os detalhes de beleza das brasileiras que roubaram a cena internacional em Cannes 2026 — (Foto: Reprodução Instagram @chopardde)

O cinema como reflexão da socieda

Para quem é amante de história, geopolítica e cultura, os filmes citados e os demais que não foram premiados agregam muito. Eles mostram como era o cenário autoritário e como determinadas formas de poder causaram danos ao longo da história.

Também vemos que esse legado ainda persiste em diversas culturas e países. As guerras continuam acontecendo em várias partes do mundo e ditadores ainda existem. Para críticos e observadores atentos, é notável a crítica a diversos líderes autoritários atuais e a determinadas políticas públicas.

Entrevista com a jornalista Heloisa Ribas

Talita Motta: Por que tantos filmes de Cannes 2026 abordaram guerras e autoritarismo?

Heloisa Ribas:  O que mais me chamou atenção nesta edição foi justamente como diferentes cineastas, de países e contextos distintos, acabaram chegando a preocupações parecidas. Isso mostra como temas como guerra, autoritarismo e intolerância estão muito presentes no imaginário contemporâneo. O cinema sempre foi uma forma de processar o tempo em que vivemos e, em Cannes, ficou evidente que existe uma inquietação coletiva sobre os rumos do mundo e da democracia.

Talita Motta: O cinema pode funcionar como instrumento de reflexão política?

Heloisa Ribas:  Eu acredito que uma das maiores forças do cinema seja justamente a sua capacidade de gerar reflexão sem necessariamente oferecer respostas prontas. Quando um filme nos coloca diante de uma realidade diferente da nossa, ele amplia nosso olhar e nos convida a questionar certezas. Nem toda obra tem a intenção de ser política, mas toda boa história tem potencial para provocar algum tipo de reflexão sobre a sociedade.

Talita Motta: Como acontecimentos históricos continuam influenciando produções audiovisuais atuais?

Heloisa Ribas: Pra mim é impossível separar completamente o presente do passado. Muitas das questões que discutimos hoje são consequência de processos históricos que continuam reverberando. Por isso, tantos filmes revisitam determinados períodos ou acontecimentos. Não apenas para contar o que aconteceu, mas para entender como essas histórias ainda impactam as relações, os conflitos e as escolhas que fazemos atualmente.

Talita Motta: Qual foi a importância da participação brasileira nesta edição do festival?

Heloisa Ribas: Eu sempre considero muito importante quando o cinema brasileiro ocupa espaços como esses, porque reforça a relevância das nossas narrativas em um cenário global. O Brasil tem uma capacidade muito própria de contar histórias, marcada pela diversidade cultural e pela complexidade social do país. Quando essas produções chegam a festivais internacionais, elas ajudam a ampliar o olhar do mundo sobre quem somos e sobre os temas que atravessam nossa sociedade.

Talita Motta: Como o audiovisual contribui para preservar a memória histórica?

Heloisa Ribas: Como jornalista, vejo o audiovisual como uma das ferramentas mais potentes de preservação da memória. Muitas pessoas têm o primeiro contato com determinados acontecimentos históricos por meio de filmes, séries ou documentários. Muito mais do que registrar fatos, essas obras ajudam a manter vivas experiências, emoções e perspectivas que poderiam se perder com o tempo. No fim, eu vejo que o cinema tem essa capacidade rara de transformar memória em experiência. Ele não apenas nos conta o que aconteceu, mas nos faz sentir por que aquilo ainda importa .

Refletir também é consciência política

Assim como em nosso país, existem inúmeros problemas políticos e sociais. Em algumas nações, governantes ainda detêm poder quase absoluto sobre a população, gerando conflitos que passam de geração para geração.

Os filmes de Cannes servem para nos lembrar que grandes produções não existem apenas para apreciarmos a arte, o audiovisual e as boas interpretações. Elas também existem para contar histórias, e nem todas essas histórias são boas.

Precisamos abrir os olhos para o que acontece na política mundial e entre as diferentes culturas. Não podemos normalizar a opressão e o autoritarismo apenas porque acontecem há muito tempo em determinada sociedade.

Cannes mostrou que cinema também é manifesto político. Os telespectadores são os juízes que decidirão o que fazer com essas informações e reflexões.

Ter o Brasil presente em um festival desse nível eleva nossa cultura e nossa arte a um patamar mundial que poucos conseguem alcançar. No panteão das grandes produções e dos grandes nomes do cinema, o Brasil segue avançando e conquistando seu espaço.

E, para ficar por dentro das novidades sobre conteúdos do mundo da moda, não deixe de acompanhar o Fashionlismo!  

Escrito por Talita Motta I Editado por Ana Carolina Gomes 

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