Os Deuses do Carnaval na Avenida
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Os Deuses do Carnaval na Avenida e a realeza por trás das costuras

Fevereiro é o caldeirão fervente da cultura brasileira. Os pandeiros se aquecem e o Brasil vira o palco do mundo: anuncia-se o Carnaval. Este ano a Portela decidiu divulgar seus figurinos de uma forma inédita. Dona do enredo O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande, a escola produziu um curta-metragem conceitual para mostrar os trajes do desfile que acontecerá no dia 15 de fevereiro, na Sapucaí. 

Em entrevista à Veja, o carnavalesco portelense André Rodrigues conecta a alta-costura e o Carnaval. Alta-costura é usada para caracterizar a moda de luxo quando esta é altamente exclusiva e excepcional. De acordo com a moda europeia, para ser considerada alta-costura, uma marca deve ter: um ateliê em Paris; produzir suas peças à mão; apresentar no mínimo 35 modelos em duas coleções distintas; ter clientes individuais, além de outros pré-requisitos ligados à contratação de pessoas na capital francesa.

Para Rodrigues, a conexão nasce na dificuldade e no esmero. Além disso, a exclusividade do Carnaval é mais do que exclusiva, mas sim efêmera. Um figurino de um ano não será utilizado depois do desfile das Campeãs.

“Mas, confesso, acredito que o Carnaval carrega mais história. Um figurino de Carnaval conta a história de um povo, a exemplo do povo afro-gaúcho, no Carnaval deste ano, mas principalmente de uma comunidade inteira. A comunidade que desfila o que a gente pensa e produz está desfilando com muito amor, com muita paixão. O Carnaval é a minha régua de ver o mundo, sempre vou vê-lo nesse lugar muito diferente de outras produções”, afirma André. 

A alta-costura carnavalesca não está apenas no Rio de Janeiro. Pelo contrário: em São João del-Rei, parte do protagonismo da Bate-Paus está nas mãos e costuras de Raimunda Maria Taveira Silveira, Inácia Maria Taveira e Maria Aparecida Taveira Mendes. Três irmãs que criam a ala das crianças e das baianas.

Em 1933, no bairro Senhor dos Montes, nascia a escola mais antiga de São João del-Rei. A cidade histórica, mineira e secular é marcada pela tradição católica e pelo congado. As raízes do estado de Minas, juntamente com a força do samba, foram terreno perfeito para o surgimento da Bate-Paus

A iniciativa que deu vida ao verde e rosa são-joanenses começou como um bloco de Carnaval criado por um grupo de amigos. Durante os desfiles, os integrantes da escola realizavam coreografias com bastões, uma herança do congado e razão do nome Bate-Paus.

De bloco de Carnaval à campeã de 2025

Com 93 anos de história, a escola conquista e mobiliza os moradores do bairro em todo Carnaval. Nascida na zona rural e criada no Senhor dos Montes, Raimunda Maria Taveira Silveira começou desfilando pela escola e hoje participa da produção das fantasias. “Nós desfilávamos antes. Nós fazíamos nossa roupa […] e nós desfilávamos. Fazíamos a nossa fantasia e depois começamos a fazer a roupa para eles… Nós não paramos mais, não. Até hoje nós estamos fazendo a roupa deles!”, conta Raimunda.

Gostar de Carnaval sempre fez parte da vida de Raimunda. A semana de festa é uma felicidade grande. “Eu sou apaixonada com Carnaval. Aliás, eu acho que todo mundo é. É a melhor fase da vida, eu acho. Para a gente se divertir, cê distrai a cabeça, esquece do problema. Nossa senhora, eu gosto muito”, afirma, sorridente.

Além da alegria, para Raimunda, o Carnaval é a época de todos estarem juntos e brincarem felizes. “Festa de todo mundo, não tem discriminação de ninguém. Todo mundo é igual nessa época, né?”, diz. 

A atuação de uma escola de samba, dos ensaios e a aproximação com toda a comunidade que vive no bairro são um exercício importante de humanidade. Em um vídeo para seu canal no YouTube, Drauzio Varella, médico oncologista, afirma que fazer e manter boas amizades faz bem para a saúde. “Quando você deixa de conversar ou de encontrar seus amigos, você não está prejudicando só a sua vida social, mas a sua saúde”, afirma Drauzio. 

As conexões humanas que surgem a partir da Bate-Paus são muitas. Durante a conversa com Raimunda, apareciam vários moradores do bairro para conversar, tirar dúvidas ou apenas cumprimentar antes de ir para o barracão ajudar nos preparativos. O figurino da escola também faz parte dessa rede social da comunidade. O desfile é grande e são várias costureiras produzindo as peças. A grande professora de Raimunda na costura foi sua irmã e este ano elas produziram os figurinos da ala das crianças e das baianas.

Antes da festa na avenida, o trabalho dos componentes da escola

“Ela que passa as coisas para nós. O que vai fazer, como vai fazer… ela corta, vai na máquina e fala ‘você vai costurar assim, assim, assim’. O negócio é ter a cabeça aberta para poder fazer. Porque costura… ela não gosta que faça de qualquer jeito”, conta Raimunda.

Para além do esmero e dedicação das irmãs, é preciso levar em consideração o material e as melhores técnicas para utilizá-lo. Este ano, para o figurino das crianças, utilizaram-se três cores de cetim no figuro. O cetim é um tecido delicado, que desfia com muita facilidade e depois de costurado uma vez, desmanchá-lo pode prejudicar o material. Tudo é feito com muito carinho e cuidado para o melhor resultado no dia do desfile.

“Igual esse brilho aqui […], você passa pelo lado do avesso […]. Você põe do lado direito e costura pelo avesso. Senão, ele fica junto. Tem que ter atenção. Se sair junto, tem que desmanchar”, descreve Raimunda.

“Eu acho legal no conjunto. Quando todo mundo está pronto, né? Quando vai desfilar lá, que bonito que fica”, e parte da vitória da escola no Carnaval do ano passado está na dedicação de todos que fazem a magia acontecer. Incluindo as irmãs, que também fizeram as mesmas alas deste ano.

Quem decide o tecido, a modelagem, a quantidade e outros detalhes é o carnavalesco. André Carvalho, nome por trás do enredo Os Deuses do Carnaval em Festa com a Bate-Paus, foi quem levou os tecidos, os apliques em brilho e as medidas das fantasias. Conforme elas são produzidas, Raimunda, Inácia e Maria anotam os nomes de quem vai desfilar com cada peça, para garantir o melhor caimento possível.

As crianças que forem participar do desfile vão até as costureiras para que elas anotem seus nomes e tamanho e, depois, recebem a fantasia que vão usar no dia. Neste ano, o Carnaval são-joanense permitiu que as escolas incluíssem cores além das duas tradicionais de cada uma. No caso da Bate-Paus, o rosa e o verde estão acompanhados do roxo na ala das crianças. Já as baianas mantêm a tradicional cor branca. Para finalizar os figurinos das 30 crianças, Inácia e Raimunda estavam aguardando os apliques em brilho e os pompons chegarem.

Tempo de ser feliz

A preparação para a folia começa meses antes e movimenta a economia para além dos dias de festa. Além disso, as escolas compram muitos rolos de tecido, em várias cores, para atender a toda a demanda.

Geralmente, o tecido vem do Rio de Janeiro ou de São Paulo, devido à grande quantidade necessária e à importância de garantir materiais do mesmo lote, pois muitas vezes existe uma leve variação de cor entre um lote de tecido e outro. 

Este ano, três peças compõem a fantasia da ala das crianças: blusa, calça e um babado para o pescoço. O material que não é utilizado voltará para o barracão para ser incluído em outro momento. Sobre a produção dos 20 figurinos de baianas, Raimunda afirma: “É difícil […]. É muito babado. Muito babado […]. Você põe na máquina e não é brinquedo, não. No ano passado aumentou a roda da saia. Aumentou no ano passado: foi para cinco metros e meio”. Para um melhor acabamento, as barras são passadas no overlock.

O tamanho da saia é equivalente à altura de uma girafa adulta! Todo esse tecido é passado várias vezes na máquina, pois para fazer cada babado é necessário costurá-lo pela largura da saia inteira. Quando a peça vai para o barracão, acrescentam um aro para que ela fique no formato desejado. Quem já costurou sabe a dificuldade de passar grandes quantidades de tecido na máquina e Inácia compartilha as etapas do processo: “Corta, passa tudo no overlock primeiro, para depois pregar ali”.

Tudo que move é sagrado

“É. Não é fácil”, afirma Raimunda. “Mas Deus ajuda… Negócio é sentar e trabalhar. Ter boa vontade de trabalhar e vai. E depois sai tudo bonito lá. Sai tudo bonito lá. É muito bom de ver depois. Nós ficamos doidos para ver!”, continua. “Cansa… a máquina o dia inteiro. Nossa senhora, tá doida… Imagina? Mas é bom! Depois que passa a gente sente até falta”, finaliza, mostrando como é gratificante fazer parte do espetáculo do Carnaval há tantos anos. 

Com o título de 2025, a Bate-Paus se tornou tetracampeã do Carnaval são-joanense, sendo motivo de orgulho e alegria para os moradores do Senhor dos Montes. Raimunda fica muito feliz ao ver a escola na Avenida Tancredo Neves, local dos desfiles, mas diz que sua satisfação vai além. “Ou ganha ou não ganha, não tem problema! O negócio é que está lá. Todo mundo se divertindo… O Carnaval é bom demais!”, comenta.

Além de amigos e uma rede de apoio, Drauzio Varella também pontua a importância de fazer atividades manuais para a saúde e a longevidade do corpo e da mente. De acordo com os relatos de Raimunda, apesar das dificuldades, é muito gratificante construir o maior espetáculo da cultura brasileira. 

“Saúde é o mais importante. Se você não tiver prazer de quê? De nada… Você quer sair, você quer aproveitar, você quer ver outras coisas, você quer passear. Como que vai? Não tem como. Tudo que você tem que pedir a Deus é saúde. Porque com saúde você tem prazer em fazer qualquer coisa”, diz.

A importância, a história e a força do Carnaval na vida das pessoas fazem dele uma joia, um artigo precioso celebrado ano após ano. O Brasil sempre renasce com mais fôlego, mais vida, mais luz após os dias de festa. Cada elemento, cada pessoa, cada ponto dado no tecido da nossa cultura é vital e nos constrói como esse povo acolhedor, simpático, amoroso e conectado com os seus. Feliz Carnaval!

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Escrito por: Geovana Nunes | Editado por: Maria Clara Machado

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