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Menos eu, mais Fendi: Maria Grazia Chiuri estreia um novo capítulo na Maison

Apresentada em 25 de fevereiro de 2026, durante a Milan Fashion Week, a estreia de Maria Grazia Chiuri na direção criativa da Fendi não foi construída como espetáculo de ruptura, mas como gesto de posicionamento.

Sob essa perspectiva, com o tema “Menos eu, mais nós”, a designer apresentou uma coleção que privilegia construção coletiva, herança e estratégia sem abrir mão da força comercial que sustenta a Maison.

Além disso, de volta à casa onde atuou entre 1989 e 1999 como designer de acessórios, período em que participou do desenvolvimento da icônica Fendi Baguette, Chiuri retorna agora em outro patamar: não para repetir fórmulas, mas para reorganizar prioridades.

Silhueta como manifesto

O prêt-à-porter foi o verdadeiro eixo do desfile e, nesse ponto, a coleção encontrou seu discurso mais consistente.

Em termos visuais, a paleta concentrou-se sobretudo em preto e branco, mantendo a atmosfera sóbria que percorreu toda a apresentação. Ao mesmo tempo, a construção privilegiou a verticalidade, com casacos alongados e ombros estruturados que reforçavam presença e precisão.

Entre esses elementos, surgiram bermudas utilitárias com referência cargo, de comprimento na altura do joelho e bolsos marcados, inserindo uma dimensão funcional que tensionava a formalidade da alfaiataria.

Transparência e estrutura

Nos vestidos, por sua vez, dois caminhos ficaram evidentes.

De um lado, modelos com transparência e renda, que expunham deliberadamente as camadas inferiores. Nesse caso, a sobreposição revelava peças estruturadas por baixo, criando contraste direto entre leveza e materialidade. A transparência não aparecia como delicadeza romântica, mas como recurso de construção.

Fluidez como contraponto

Por outro lado, vestidos longos em seda trouxeram fluidez ao desfile, com decotes marcados e queda mais solta no corpo. Aqui, o movimento era contínuo e menos estrutural, funcionando como contraponto às peças mais rígidas da coleção.

Matéria e volume

Paralelamente, o couro, elemento histórico da casa, apareceu com força em alguns modelos, mas não foi o único protagonista. Ainda dentro dessa lógica de materialidade, os casacos exploraram volume e textura de maneira expressiva. Peças em pele surgiram com construção marcante, blocos de cor contrastantes e mangas volumosas, criando silhuetas amplas e dramáticas.

Em vez de minimalismo, o que se via era presença: superfícies táteis, mistura de cores intensas e proporções que ampliavam o corpo.

Assim, esses casacos mais ousados dialogavam com a base utilitária de parte dos looks, criando um contraste entre exuberância de superfície e funcionalidade.

Ao mesmo tempo, Chiuri integrou looks masculinos à apresentação, com sobretudos estruturados e alfaiataria precisa. A unidade entre os gêneros vinha da coerência de proporção e paleta, reforçando o espírito coletivo sugerido pelo tema da coleção.

A Baguette como eixo estratégico

Se, por um lado, o prêt-à-porter estabelece o discurso, por outro, os acessórios consolidam a estratégia – e a Fendi Baguette foi o ponto de ancoragem do desfile.

As versões apresentadas não apostam em ruptura radical da silhueta clássica, mas em variações de textura, acabamento e presença. Nesse sentido, houve modelos em couro trabalhado, propostas com estampa animalier e versões com aplicações e movimento, ampliando a leitura do ícone dentro da nova fase estética da casa.

Foto: Reprodução/Instagram: @harpersbazaares

Mais do que reinventar a bolsa, Chiuri parece recalibrá-la. A Baguette permanece reconhecível – mas inserida em uma narrativa que privilegia construção e continuidade.

Por fim, sapatos de bico afilado, botas estruturadas e outras bolsas complementaram o styling; ainda assim, foi a multiplicidade da Baguette que sintetizou o equilíbrio entre herança e atualização.

Honrar as Fendi, projetar o futuro

Como ex-integrante da casa, Chiuri carrega memória afetiva e responsabilidade histórica. Durante sua primeira passagem pela marca, trabalhou sob a orientação das cinco irmãs fundadoras, figuras centrais na consolidação da identidade da Fendi nas décadas de 1980 e 1990.

Essa consciência de legado, portanto, manifesta-se na coleção de forma sutil: valorização da construção, atenção às superfícies e reafirmação do trabalho artesanal.

“Menos eu, mais nós” não surge como slogan vazio, mas como proposta de método. Em vez de impor ruptura estética, Chiuri parece interessada em consolidar uma Fendi estruturada, coerente e competitiva.

Maria Grazia Chiuri, em sua primeira passagem pela Fendi, por volta de 1992 – Foto: Cortesia da Fendi

Um novo capítulo, sem ruído

A estreia não foi sobre choque ou teatralidade. Foi, acima de tudo, sobre ajuste de rota.

Ao priorizar silhueta, fortalecer o prêt-à-porter e reafirmar a centralidade da Baguette, Maria Grazia Chiuri inaugura uma fase que combina memória e pragmatismo. Se o desfile indica o que está por vir, a Fendi pode entrar em um ciclo de refinamento estratégico onde legado, produto e posicionamento caminham com equilíbrio calculado.

Em uma temporada marcada por recomeços, escolher estrutura em vez de espetáculo pode ter sido o gesto mais preciso de todos.

Escrito por Samara Marques I Editado por Giovana Sedano

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