Cultura

Homens escritos por mulheres: o novo fenômeno cultural

Literatura romântica deixou de ser “culpa feminina” e virou fenômeno cultural

Os homens escritos por mulheres se tornaram um fenômeno da literatura contemporânea e da cultura pop. Esse reconhecimento, no entanto, contrasta com a forma como, por muitos anos, a crítica e o mercado editorial trataram livros voltados ao público feminino, especialmente romances com carga erótica, classificando-os como literatura “menor” e associando-os a um consumo íntimo e até constrangedor. Histórias sobre desejo feminino raramente eram vistas como culturalmente relevantes.

Esse cenário começou a mudar quando mulheres passaram a compartilhar suas leituras publicamente, discutir romances sem vergonha e transformar personagens fictícios em fenômenos culturais. Foi assim que cresceu a obsessão pelos “homens escritos por mulheres”: protagonistas emocionalmente disponíveis, cuidadosos e vulneráveis, construídos a partir do olhar feminino.

Mais do que uma tendência literária, o fenômeno revela uma mudança cultural. Mulheres passaram a reivindicar histórias centradas em seus próprios desejos emocionais, afetivos e sexuais, sem constrangimento.

Dos livros às telas: o romance conquistou a cultura pop

Com a popularização desses livros, adaptações de romances literários nunca estiveram tão em evidência. Dos livros para as telas, produções como O Verão Que Mudou Minha Vida, Off Campus e Bridgerton conquistaram milhões de fãs e transformaram personagens fictícios em verdadeiros fenômenos da cultura pop. 

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Mas esse reconhecimento não significa que o preconceito tenha desaparecido. Muito dele também se reflete em Hollywood. Apesar do enorme sucesso comercial e da visibilidade de adaptações, como Bridgerton, muitos atores e profissionais da indústria ainda tratam romances e suas adaptações como obras de menor prestígio, distantes do status reservado às chamadas “grandes ficções”, como cinebiografias ou dramas históricos. 

Em entrevista à Elle, Emily Henry, autora de sucessos como Leitura de Verão e De Férias com Você, que a Netflix adaptou recentemente, afirmou que ainda existe um forte estigma em torno do romance em Hollywood. A escritora explica que, ao acompanhar as adaptações de seus livros, percebeu uma diferença significativa entre a forma como o gênero é tratado pelo mercado editorial e pela indústria cinematográfica.

Enquanto o romance conquistou maior reconhecimento entre leitores e editoras, em Hollywood, muitos profissionais da indústria ainda tratam o romance como um gênero desprestigiado., especialmente quando comparado a dramas e outras produções consideradas mais “sérias”.

Mas o que explica tanta paixão por esses protagonistas, mesmo diante do preconceito?

Homens escritos por mulheres
Garrett Graham da série Off Campus/Prime Video. Foto: fandom.com

A resposta talvez possa estar na forma como eles foram escritos. São homens escritos por mulheres, personagens que estão longe de serem perfeitos: eles erram, têm traumas, inseguranças e conflitos. Ainda assim, existe algo que chama a atenção das leitoras. A maneira como tratam as mulheres, como aprendem com os próprios erros e como fazem do respeito a base de seus relacionamentos.

Essas obras vêm fazendo um grande favor para as mulheres, mostrando como o respeito é o pilar de uma boa relação. Muitos podem pensar que estamos obcecadas por esse universo por causa das cenas de sexo, por ser um gênero considerado fútil ou até “feminino demais”. Mas a verdade é que existe uma complexidade muito maior nesses romances.

Essas histórias não são apenas sobre casais apaixonados ou sobre o famoso “felizes para sempre”. Elas falam sobre amadurecimento, luto, ansiedade, traumas, autoestima, amizades, família e sobre aprender a lidar com os próprios sentimentos de forma saudável. Os relacionamentos são importantes para a construção da história, mas eles não existem sozinhos. Eles acompanham esses personagens que também estão tentando descobrir quem são, superar seus medos e encontrar o próprio caminho.

Conrad Fisher da série O Verão que Mudou Minha Vida/Prime Video. Foto: fandom.com

Talvez seja justamente isso que faça com que tantas mulheres se identifiquem com essas histórias. Não é apenas sobre encontrar uma grande história de amor, mas sim sobre acompanhar pessoas imperfeitas tentando construir relações mais saudáveis. Ver personagens que erram, aprendem, pedem desculpas, respeitam limites e entendem que amar alguém também significa crescer junto.

Mas será que esses livros criaram expectativas irreais? Será que estamos esperando demais?

TALVEZ NÃO!

É comum ouvir que “homens como os dos livros não existem”. Mas a verdade é que poucas leitoras acreditam que vão encontrar um Conrad Fisher ou um Garrett Graham exatamente como eles aparecem nas páginas. O que elas procuram não é um personagem perfeito, mas alguém que saiba respeitar, ouvir, pedir desculpas quando erra e construir uma relação baseada principalmente em parceria.

Os homens literários também falham, sentem medo, carregam traumas e tomam decisões ruins. A diferença é que eles evoluem. E é justamente essa evolução que tem feito tantas mulheres refletirem sobre os relacionamentos que vivem na vida real.

No fim das contas, talvez a questão nunca tenha sido sobre encontrar o “homem perfeito”

O sucesso dos homens literários mostra que as mulheres não estão apaixonadas apenas por personagens fictícios, mas pelo que eles representam. Em uma sociedade onde, a violência de gênero e discursos misóginos ganham cada vez mais espaço, impulsionados pela ascensão do movimento redpill, não é difícil entender por que tantas leitoras se encantam por protagonistas que escutam, respeitam e acolhem.

Além disso, ler um romance ou assistir a uma história de amor pode, para muitas mulheres, oferecer a esperança de que relacionamentos baseados em afeto, diálogo e parceria também sejam possíveis na vida real. Assim, mais do que uma forma de escapismo, essas histórias também funcionam como um lembrete de que relações saudáveis podem, e devem, existir fora da ficção.

Aqui estamos falando sobre mais do que criar expectativas irreais, os romances contemporâneos abriram espaço para conversas importantes sobre amor, consentimento, parceria e vulnerabilidade. E é esse o verdadeiro motivo pelo qual eles conquistaram tantos corações: porque mostram que o mínimo nunca deveria parecer extraordinário.

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Escrito por: Moeisha Bastos | Editado por: Maria Clara Machado

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