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A moda diante das modelos que nunca existiram

Modelos virtuais já protagonizam campanhas de grandes marcas e abrem debate sobre criatividade, ética e o futuro do trabalho na moda.

Reprodução: Seraphinne Vallora via Instagram

A inteligência artificial vem ocupando um espaço cada vez maior na moda. Ferramentas capazes de criar imagens hiper-realistas passaram a integrar campanhas publicitárias, editoriais e estratégias de comunicação de grandes marcas, aproximando a tecnologia de um universo tradicionalmente marcado pela criatividade e pela expressão humana.

Nos últimos meses, o avanço dessas ferramentas ganhou contornos mais visíveis e despertou um debate que vai muito além da estética: o que acontece quando rostos e corpos gerados por algoritmos passam a representar pessoas que nunca existiram?

O uso desses recursos já faz parte da realidade do setor e acompanha uma indústria que, ao longo da história, sempre incorporou novas tecnologias aos seus processos. O que muda agora é a capacidade da tecnologia de produzir rostos, corpos e cenários praticamente indistinguíveis de uma fotografia, ampliando as possibilidades de criação e, ao mesmo tempo, despertando novos debates sobre os limites dessa transformação.

A inteligência artificial já faz parte da moda

Reprodução: Uwear.ai

Embora o tema tenha ganhado força recentemente, a tecnologia já vinha sendo utilizada pela indústria da moda em diferentes etapas do processo criativo. Ferramentas de análise de dados ajudam marcas a identificar tendências de consumo, prever comportamentos de compra e desenvolver coleções mais alinhadas ao perfil dos clientes.

Com a popularização da IA generativa, esse uso passou a alcançar também a produção de imagens e campanhas. Hoje, plataformas especializadas conseguem criar modelos virtuais a partir de comandos de texto, modificar cenários, desenvolver editoriais completos e produzir conteúdos com um nível de realismo que desafia a percepção do público.

O resultado é uma redução no tempo de produção e uma nova forma de experimentar conceitos visuais antes mesmo da realização de ensaios fotográficos. Com esse nível de realismo, grandes empresas começaram a testar a tecnologia em campanhas oficiais, transformando um recurso inicialmente experimental em uma estratégia de comunicação utilizada por algumas das principais marcas do mercado.

Dos bastidores às campanhas

Reprodução: modelos falsos gerados pelo estúdio Lalaland.ai

O caso que mais repercutiu foi o da Levi’s, que em 2023 anunciou uma parceria com a empresa Lalaland.ai para ampliar a diversidade de seus e-commerces por meio de modelos geradas por inteligência artificial. A marca afirmou que a tecnologia seria utilizada como complemento às produções tradicionais, mas o anúncio provocou uma intensa discussão sobre o futuro do trabalho na indústria da moda. A justificativa de ampliar a diversidade por meio de algoritmos, em vez de contratar modelos reais, foi recebida com críticas por profissionais do setor.

Reprodução: DMIX

A H&M anunciou o desenvolvimento de “gêmeos digitais” de 30 modelos reais, criados com autorização das profissionais. A Zara adotou outra abordagem: em dezembro de 2025, passou a utilizar IA para o “reaproveitamento digital” de modelos, usando fotos de ensaios anteriores e, por meio de ferramentas generativas, “vestindo” as modelos com peças de novas coleções, sem necessidade de novos ensaios fotográficos. Já a Mango justificou a adoção da tecnologia por se tratar, segundo seu CEO Toni Ruiz, de uma “criação de conteúdo mais rápida”.

Reprodução: Seraphinne Vallora

Esses exemplos mostram que não existe um único modelo de aplicação da tecnologia, mas uma série de experimentações adotadas pelo setor. O debate ganhou novos capítulos quando anúncios da Guess, publicados nas edições norte-americana, britânica e francesa da Vogue, utilizaram modelos produzidos por inteligência artificial. A campanha foi desenvolvida pela Seraphinne Vallora, agência londrina especializada em IA, a pedido do cofundador da Guess, Paul Marciano. As roupas eram reais, mas as mulheres retratadas não existiam. Os anúncios traziam um aviso discreto: “Produzido por IA”. A Condé Nast, editora da Vogue, esclareceu que modelos geradas artificialmente nunca haviam aparecido em conteúdo editorial da revista, apenas em publicidade.

Segundo Michael Musandu, CEO da Lalaland.ai, o uso de modelos de IA na moda é mais difundido do que se imagina, e marcas de todos os tamanhos não divulgam a prática simplesmente porque não há obrigação legal de fazê-lo. Em 2020, a empreendedora digital Sinead Bovell já alertava, na Vogue: “Sou modelo e sei que a inteligência artificial acabará por tomar o meu emprego”. Cinco anos depois, o alerta deixou de ser hipotético. A tecnologia deixou de ocupar apenas os bastidores da criação e passou a fazer parte da comunicação das marcas, não interferindo mais somente na forma como campanhas são produzidas, mas influenciando também a maneira como a moda é consumida e interpretada.

A voz de quem está diante das câmeras

Reprodução: @http.ethel via Instagram

A modelo Ethel sabe reconhecer uma imagem gerada por inteligência artificial, mas nem sempre foi assim. “Lembro de cruzar com uma modelo muito exótica, com traços mesclados muito específicos, e depois descobrir que na verdade ela era uma imagem de inteligência artificial”, conta. A experiência revelou algo sobre a própria lógica do mercado: uma preferência estética por traços que, na maioria das vezes, obedece a um padrão. Os modelos de IA divulgados por agências especializadas costumam ser em grande parte brancos, com características convencionalmente atraentes, como cabelos volumosos, corpos em forma e simetria facial alinhados a padrões de beleza amplamente aceitos. O que deveria ampliar a diversidade acaba, muitas vezes, reproduzindo os mesmos vieses que a indústria sempre carregou.

“Não existe tornar diverso, não existe representação em uma imagem criada artificialmente. A indústria é exclusiva, e sempre foi. A IA torna isso ainda mais conveniente.” As imagens são criadas a partir de bancos de dados compostos por fotos de modelos reais, mas passam por alterações que tendem a aproximá-las de padrões convencionais. “Mais magras, mais brancas, mais controladas. Isso porque não entramos nos direitos trabalhistas.”

Sobre o debate de transparência, a posição é categórica. “Acho que não deveriam utilizar modelos de IA e pronto. Minha opinião é irredutível.” Não se trata de etiquetar imagens geradas artificialmente, mas de questionar a própria decisão de substituir pessoas por algoritmos em um setor que sempre se vendeu como espaço de expressão humana.

A ameaça, na leitura de Ethel, não está na capacidade da tecnologia, mas no que a sociedade passou a valorizar. “A inteligência artificial é uma ameaça não por sua capacidade, pois a aventura humana é algo insubstituível, mas porque atualmente a sociedade tende a valorizar um ideal de perfeição e minuciosidade que a IA de fato produz com a precisão robótica que apenas uma tecnologia não humana poderia fazer.” A modelo lembra ainda que “é fácil esquecer que a operação manual das câmeras, cenários, roupas, é justamente o que torna o processo artístico”, e que “talvez tenhamos levado tão longe o nosso ritmo produtivo, que apenas máquinas conseguem corresponder com a demanda, ultrapassando a nós mesmos enquanto seres complexos e criativos.” O sistema cobrou de seus profissionais um ritmo insustentável e agora oferece como solução a própria máquina que tornou esse ritmo possível.

Quando a conversa se aproxima do que a indústria chama de beleza, a crítica se torna mais direta. “A gente deveria logo tornar a IA brega, porque de fato é. Precisamos urgentemente rescindir essa crise estética e entender que a beleza da produção humana está especialmente nas particularidades que cada sujeito traz no processo criativo.”

O preço da perfeição

Há algo de profundamente contraditório em uma indústria que historicamente se baseou na expressão humana, na individualidade e na ousadia para passar a celebrar a perfeição robótica. A moda sempre foi, acima de tudo, expressão. Não apenas modelos e roupas, mas manifestações políticas, contraditórias, culturais. A pessoa veste a roupa, e não o contrário. Quando a roupa se torna o tema mais importante e as pessoas passam a ser esquecidas, a indústria perde sua razão de existir.

A cadeia criativa envolve maquiadores, cabeleireiros, fotógrafos, stylists e produtores que dão vida a cada produção. Substituir esses profissionais por algoritmos não é apenas uma questão econômica, é uma escolha sobre o que a moda decide valorizar. A perfeição robótica que a IA oferece com precisão milimétrica é exatamente o que torna as imagens artificiais reconhecíveis: a ausência de falha é também a ausência de humanidade.

Marcas de luxo que apostam na desconstrução da produção artesanal e na humanidade como diferencial nunca venderam tanto. O toque humano tem sido um argumento comercial cada vez mais forte, não como resistência à tecnologia, mas como valorização do que ela não consegue reproduzir. A imperfeição não é um defeito a ser corrigido, é a marca de que ali existiu um sujeito criando.

Quando a máquina tenta ser arte

Se algoritmos já criam imagens indistinguíveis de fotografias, a pergunta sobre o que a criatividade humana ainda oferece à moda torna-se inevitável. “A criatividade humana é humana. Simples assim”, diz Ethel. “O processo criativo é o que constrói a moda e é o que sempre irá possibilitar a criação como matéria conectiva. IA não conecta, não conta uma história, mesmo se de fato estiver fazendo isso. É vazio.”

“I.A é arte? I.A é capaz de produzir qualquer arte? Para mim, não. Não importa se tem uma pessoa ‘por trás’. A arte não está por trás. A arte é ousada, imperfeita, e explícita, por isso que requer muito como sujeito para fazê-la. I.A não é sujeito, não tem história, não tem motivação, não tem ideias e nem identidade, sobretudo, I.A não tem natureza e nem emoção.”

A inteligência artificial não faz arte, mesmo que haja alguém por trás. Isso vale para a moda e para qualquer trabalho criativo. A arte requer um sujeito, e a IA não é sujeito. “Tudo que estamos criando a partir dela, seja como ferramenta auxiliar ou principal, é uma saída mais fácil, mais barata, e mais preguiçosa e precária de se realizar uma atividade que é perfeitamente capaz de ser produzida humanamente”, conclui Ethel. “O nosso trabalho é sobretudo criativo, e isso não pode entrar nas sombras da economia capitalista que é fatalmente devastadora.”

A inteligência artificial veio para ficar na moda. Disso, poucos duvidam. Mas “talvez seja hora de dar um passo pra trás e questionar por que essa ferramenta ascende com tanta força”, como observa a modelo. “Entender o que estamos cultivando e reproduzindo como sociedade que dá tanta liberdade pra inteligência artificial emergir e criar algo que nos parece válido.” Marcas importantes do mundo inteiro estão cedendo à pressão de se “atualizar” a partir da utilização da IA. “A I.A revela uma enfermidade sistêmica, e não somente as tendências visuais e padrões estéticos das quais ela bebe da fonte.” 

Se o futuro da indústria será definido por imagens perfeitas e vazias ou pela imperfeição que conecta, essa é uma discussão que apenas começou. O risco é que, ao substituir pessoas por algoritmos, a moda perca justamente o que a define.

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Escrito por Laura Martins I Editado por Ana Carolina Gomes 

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