Germanier reafirma o upcycling como linguagem de alta-costura
No encerramento da Semana de Alta-Costura de Verão 2026, a Germanier apresentou uma coleção que consolida sua posição singular no calendário parisiense: uma alta-costura construída a partir do reaproveitamento radical de peças não vendidas, resíduos têxteis e estoques mortos da indústria da moda. Com o desfile, Kevin Germanier voltou a provar que couture também pode ser irreverente, sustentável e profundamente conectada ao espírito do tempo.
Intitulada Les Chardonneuses, a coleção reafirma o estilista suíço como um dos nomes mais singulares do circuito: alguém que trabalha o luxo a partir do reaproveitamento, sem abrir mão do espetáculo, da cor e do humor. “Minha coleção favorita que já fizemos com upcycling de roupas não vendidas”, escreveu Kevin Germanier ao apresentar o desfile em seu Instagram.


Da matéria descartada à construção couture
Diferentemente de uma abordagem estética do reaproveitamento, Germanier trabalha o upcycling como estrutura criativa. As peças exibidas na passarela partem de roupas preexistentes, desconstruídas e reconfiguradas em silhuetas complexas, com volumes calculados, superfícies densamente trabalhadas e um domínio técnico que legitima sua presença no território da alta-costura.
Desde o primeiro look, fica claro que a proposta não é a contenção. Pelo contrário: bordados exuberantes, volumes estratégicos, superfícies densas de plumas, lantejoulas, rendas e paetês criam uma narrativa visual vibrante e quase festiva. É couture que não se leva excessivamente a sério — e justamente por isso se torna ainda mais potente.


O humor, aliás, atravessa toda a coleção como linguagem. Germanier parece se apropriar de referências da cultura pop e do exagero performático para deslocar a ideia tradicional de sofisticação. O brilho é frontal, as cores são saturadas, e os corpos vestem peças que celebram o artifício, a teatralidade e a liberdade de construção.
Mas se o resultado final é exuberante, o método é rigoroso. Les Chardonneuses foi construída integralmente a partir do reaproveitamento de peças e materiais não vendidos, fornecidos pelo grupo LVMH, conglomerado que reúne maisons como Dior, Louis Vuitton e Celine. Mais do que uma escolha pontual, o upcycling é a base do trabalho de Kevin Germanier há mais de dez anos, desde sua formação na Central Saint Martins, em Londres.


“Les Chardonneuses”: resistência, trabalho e resiliência
O título da coleção evoca imagens de resistência e labor manual. A referência às chardonneuses — mulheres associadas historicamente ao trabalho árduo, à coleta e à sobrevivência em ambientes hostis — atravessa a coleção de forma sutil, mas constante. Essa ideia se traduz em silhuetas firmes, ombros estruturados, volumes protetores e uma presença física forte dos looks.
Em um momento em que a alta-costura busca reafirmar sua relevância, a Germanier propõe uma resposta clara: o luxo do futuro passa pela inteligência do processo. Aqui, o valor não está apenas no tempo investido ou na raridade do material, mas na capacidade de reprogramar o que já existe.
Tecnicamente impecável, Les Chardonneuses reafirma que o reaproveitamento não é um atalho criativo, mas um campo fértil para a inovação. Ao transformar roupas não vendidas em peças de alta complexidade construtiva, Germanier questiona diretamente os excessos da indústria e sugere novos parâmetros para o fazer couture.


Um encerramento coerente para a temporada
O desfile da Germanier encerra a semana de alta-costura com uma leitura precisa do presente. Entre brilho calculado, humor consciente e excelência técnica, Kevin Germanier constrói uma moda que assume o excesso como estratégia criativa e o reaproveitamento como fundamento legítimo do luxo contemporâneo, não como uma exceção, mas como método de trabalho.
Ao articular rigor construtivo, responsabilidade material e uma estética que emerge do próprio processo de criação, a Germanier reafirma com Les Chardonneuses que a alta-costura pode e deve ser um território de invenção, posicionamento e liberdade, e tudo isso se traduziu nas passarelas de Paris.
Escrito por: Mayla Shiva / Editado por: Maria Clara Machado


