Do baú-cama às peças da cultura pop: cinco criações que definiram a identidade da Louis Vuitton
Desde a invenção dos baús de viagem no século 19 às bolsas que dominaram a estética Y2K, a Louis Vuitton construiu sua história misturando inovação, exclusividade e cultura pop.

Muito antes de se tornar sinônimo de bolsas desejadas e desfiles grandiosos, a Louis Vuitton produzia baús para uma elite que passava semanas viajando de trem e navio. A marca foi fundada em 1854 pelo francês Louis Vuitton, um artesão que chegou a Paris aos 16 anos e que, ao longo de 17 anos trabalhando com Romain Maréchal, um mestre na fabricação de baús e malas de viagem, aperfeiçoou sua técnica e compreendeu as necessidades de um público viajante em constante transformação.
Com o passar dos anos, a maison tornou-se referência em bagagens de luxo e expandiu sua atuação para roupas, acessórios, joias, perfumes e itens para casa. Entre invenções que revolucionaram a forma de transportar pertences e criações que atravessaram gerações, algumas peças ajudaram a construir a identidade da marca e a transformá-la em um dos maiores símbolos de luxo do mundo.
Baú de Tampa Plana em Canvas Trianon (1858)

Baú Malle Courrier Gavetas; Pedido especial do baú “Ideal” em Canvas Damier; Baú de Tampa Plana em Canvas Trianon; Reprodução: Louis Vuitton
Em 1858, Louis Vuitton apresentou o Baú de Tampa Plana em Canvas Trianon, uma inovação que mudaria a forma como as bagagens eram transportadas. Na época, a maioria dos baús possuía tampas arredondadas, o que dificultava seu empilhamento em trens e navios. O novo modelo, revestido em um resistente tecido cinza impermeável conhecido como Trianon Canvas, trazia uma superfície plana que permitia organizar as bagagens de forma mais prática e eficiente.
A criação rapidamente conquistou a elite viajante do século 19, que buscava soluções mais funcionais para acompanhar o crescimento das viagens de longa distância. Mais do que um simples baú, o modelo estabeleceu as bases da identidade da Louis Vuitton, que passaria a ser reconhecida pela combinação entre inovação, artesanato e sofisticação.
Um fato interessante é que o Trianon Canvas utilizado no modelo original antecede o famoso monograma LV em quase quatro décadas. O icônico padrão só seria criado em 1896 por Georges Vuitton, filho de Louis Vuitton, como uma forma de combater falsificações e diferenciar os produtos da maison dos inúmeros concorrentes que surgiam à época.
Baú-cama / Bed Truck (1868)
Baú-cama Pierre Savorgnan de Brazza’s, criado em 1874. Rerpodução: Louis Vuitton
Se o Baú de Tampa Plana revolucionou a forma de transportar bagagens, o Baú-Cama levou a inovação da Louis Vuitton a um novo patamar. Criado em 1868, o modelo foi desenvolvido para atender às necessidades de uma elite acostumada a longas viagens de trem e navio, em uma época em que conforto e praticidade durante os deslocamentos ainda eram privilégios de poucos.
À primeira vista, o item se assemelhava a um baú convencional. No entanto, seu interior escondia uma estrutura que podia ser transformada em uma cama dobrável, permitindo que o viajante carregasse consigo um espaço para descanso. A criação refletia uma característica que se tornaria marca registrada da maison: desenvolver peças sob medida para atender às demandas específicas de seus clientes.
Mais de um século e meio após seu lançamento, o Baú-Cama continua despertando o interesse da Louis Vuitton. Em 2024, a maison revisitou a criação e apresentou três novas interpretações do modelo durante a feira de design de Milão. Entre elas, uma versão assinada por Nicolas Ghesquière, diretor criativo das coleções femininas da marca desde 2013; outra desenvolvida por Pharrell Williams, responsável pela direção criativa masculina desde 2023; e o Lit Monogram, uma releitura mais clássica que remete diretamente ao design original criado por Louis Vuitton no século19.
As três novas versões do baú-cama. Foto: Louis Vuitton
Speedy Bag (1930)

Bolsa “Express”/ Reprodução: Louis Vuitton; Bolsa Speedy 25/ Reprodução: Pinterest; Audrey Hepburn fotografada no Aeroporto de Heathrow, em 5 de novembro de 1966 / Foto: Equipe/Mirrorpix/Getty Images
Criada nos anos 1930 como a bolsa de viagem Express, posteriormente renomeada de Speedy, a peça foi desenhada por Gaston-Louis Vuitton, neto do fundador da marca, para refletir o fascínio da época pela velocidade. Em 1959, o modelo foi reinterpretado em Monogram Canvas e transformado em uma bolsa de mão, tornando-se um dos acessórios mais emblemáticos da maison.
A popularidade da Speedy cresceu ainda mais após ser adotada por Audrey Hepburn, que solicitou uma versão menor da bolsa, dando origem ao modelo Speedy 25. Ao longo das décadas, a peça ganhou novos tamanhos, materiais, estampas e combinações de cores, acompanhando as transformações da moda sem perder as características que a tornaram reconhecível em todo o mundo.
De clássicas versões em Monogram Canvas a releituras assinadas por artistas e designers convidados, a Speedy atravessou gerações e consolidou-se como uma das bolsas mais icônicas da história da Louis Vuitton. Hoje, mais de 90 anos após seu lançamento, o modelo continua presente nas coleções da marca e permanece como um símbolo de elegância, versatilidade e atemporalidade.
Louis Vuitton x Takashi Murakami – Monogram Multicolore (2003)

Reprodução: Louis Vuitton, Pinterest
Em 2003, a Louis Vuitton deu início a uma das colaborações mais influentes da história da moda ao unir forças com o artista japonês Takashi Murakami. Idealizada por Marc Jacobs, então diretor criativo da maison, a parceria reinterpretou o tradicional monograma da marca, introduzindo versões coloridas, estampas lúdicas e personagens inspirados no universo pop japonês.
O resultado mais conhecido foi o Monogram Multicolore, que substituiu o clássico padrão marrom por uma combinação vibrante de 33 cores sobre fundo preto ou branco. A coleção também deu origem a outras estampas marcantes, como Cherry Blossom, Cerises e Panda, aproximando a Louis Vuitton do universo da arte contemporânea e de uma nova geração de consumidores.
O sucesso foi imediato. As peças da colaboração passaram a ser usadas por celebridades como Paris Hilton, Jessica Simpson e Nicole Richie, tornando-se símbolos da estética dos anos 2000. Mais do que uma coleção de sucesso, a parceria ajudou a consolidar a aproximação entre moda de luxo e arte contemporânea, tendência que seria seguida por diversas outras marcas nos anos seguintes.
Monogram Miroir (2006)

Paris Hilton e Kim Kardashian usando modelos Monogram Miroir. Reprodução: Pinterest
Lançada em 2006 sob a direção criativa de Marc Jacobs, a coleção Monogram Miroir transformou um dos símbolos mais tradicionais da Louis Vuitton em um dos objetos de desejo mais emblemáticos dos anos 2000. Com acabamento espelhado em tons dourado e prateado, as bolsas reinterpretavam o clássico monograma da maison em uma proposta ousada, alinhada à estética maximalista que dominava a década.
O brilho intenso e o aspecto metálico rapidamente chamaram a atenção de celebridades e influenciadoras da época. Nomes como Paris Hilton e Kim Kardashian foram fotografados usando os modelos, ajudando a consolidar a coleção como um dos grandes símbolos da moda Y2K. Mais do que acessórios de luxo, as bolsas se tornaram representações de um período marcado pelo excesso, pela ostentação e pela cultura das celebridades.
Produzida em edição limitada, a Monogram Miroir permaneceu por anos como uma das coleções mais desejadas do mercado vintage. Com o recente retorno da estética dos anos 2000 às passarelas e redes sociais, os modelos voltaram a ganhar destaque, sendo procurados por colecionadores e por uma nova geração interessada em peças que marcaram a história da moda.
Quase duas décadas após seu lançamento, a coleção continua sendo lembrada como um dos exemplos mais marcantes da capacidade da Louis Vuitton de reinterpretar seus códigos tradicionais e dialogar com diferentes momentos culturais.
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Escrito por Mariana Castro I Editado por Ana Carolina Gomes


