A visão eurocêntrica da moda e visibilidade da costura brasileira.
Apesar de não comentada com frequência em sociedade entre indivíduos, a enraizada visão eurocêntrica da moda é algo que se perpetua a bastante tempo. E por que é tão importante dialogar sobre e compreender como e onde o Brasil entra nessa história?
Se torna opinião universal o entendimento de que para estar e se consolidar lucrativamente no mundo da indústria fashion, é preciso constância e dedicação em seu próprio trabalho. Mas é apenas isso que possui capacidade para moldar uma ascensão? Em busca de respostas e outros olhares, ao decorrer serão dialogadas duas visões trazidas por Alana Segatto, e Sophia Longo (Graduandas de moda pelo Centro Universitário Armando Alvares Penteado – FAAP).
Além de “só uma peça”
A moda está por toda parte. Até mesmo, ao se expressar. De vários significados e formas que uma peça pode ter, fica evidente que ela pode se tornar tudo além de só uma peça!
E ao se pensar em expressão, é quase que universal que o primeiro contato humano terá seu seguimento guiado pela arte do desenho. Ou melhor, do “Rabisco”.
E assim, Alana Segatto inicia sua coleção que levou o 1° Lugar por Júri Popular no “Concurso FAAP Moda”: “Dos Rabiscos às Garatujas”.

– “Eu sempre começo meu processo criativo escrevendo. Eu gosto muito de ver o que estou sentindo e querendo falar quando quero criar alguma coisa nova, e naquele momento eu realmente queria fazer isso acontecer porém estava com muito medo… Quando parei para analisar esse meu medo, eu pensei “seria muito mais fácil se eu colocasse a mão na massa, e parasse de pensar”, e é o que a gente faz muito na infância, né? Só vamos, fazemos e acabou.”

– “Nesse processo de escrita, fui atrás dos significados da palavra “Rabiscos” porque eu queria muito rabiscar mesmo para ver o que sairia, sabe? E assim eu encontrei no dicionário “Desenho mal traçado/Desenho composto por traços mal feitos” e entrei numa busca ao redor dessa palavra e fiz uma ligação dela com a infância, porque apesar da gente ser livre para criar quando criança sempre atribuímos a algo mal feito mas acho que existe muita beleza nisso, pois estamos nos desenvolvendo. E assim eu trouxe aqueles elementos que frequentemente desenhamos como a casinha, a nuvem, a árvore… para esse universo. ”
Por outro lado da expressividade, Sophia Longo usou a mulher e sua força individual para desenvolver todo seu processo criativo ao longo de sua coleção que a levou como finalista do “Concurso FAAP Moda”: “Coleção ONÍRICO”

– “Eu sou muito sonhadora, desde criança. Então o tema da coleção girou muito em torno disso, uma metáfora de que eu estava realizando meu sonho ali naquele palco.
Sempre trago isso do feminino, da mulher e da força e do poder feminino. Então eu peguei as construções de que a mulher ficava sempre presente em um padrão de beleza, e eu tentei reconstruir para algo que trouxesse uma libertação, uma sensualidade… um poder feminino mesmo, para os dias de hoje. E eu pretendo seguir muito com essa estrutura de roupa daqui para frente, e desconstruir mesmo toda essa opressão que tem por trás dessas roupas, porque sempre teve.”

– “O que eu quero muito mostrar sempre, é que a gente pode desconstruir tudo isso.”
A indústria fashion brasileira e sua (des)valorização
Quando um produto que foi produzido e desenvolvido por meses, é olhado de fora, mesmo que sem querer, o questionamento “Quem preparou, pensou e cuidou desse produto recebe o equivalente ao seu trabalho e dedicação?” quase nunca vem à mente. Mas, sabe-se que deveria vir. Pois na maioria dos casos, sabe-se que o que se recebe não é equivalente ao que se dá.
Na visão de Alana, além da remuneração não ser condizente com toda a preparação e trabalho para a produção de uma peça para que ela chegue até um determinado público, algo que acaba desmotivando principalmente o trabalho daqueles que estão iniciando, é o escasso apoio no momento do aluguel de uma peça. Para Alana, não há quase nenhum tipo de valorização em questões até mesmo de ajuda de custo. Assim então, ela diz: “Em geral, é tudo muito injusto, muito mal valorizado.”
Sophia argumenta que uma das consequências dessa desvalorização ao se pensar em remuneração, é a migração forçada para outras áreas, como por exemplo: o Marketing.
“ Eu vejo meninas formadas em moda e seguindo carreira no marketing, o que não seria problema nenhum se fosse a escolha delas, mas eu percebo que é muito mais por falta de opção no mercado.”
Moda consumida como Status Social
Por muitas décadas, a moda europeia sempre foi o foco. Seja através da criação de novas tendências, ou na forte relevância em desenvolvimento de novos padrões, o fortalecimento para que em um mapa fashion ela estivesse sempre no centro ao se pensar em referência sempre se fez presente.
Tal relevância em comparação com outros modos de enxergar a moda, pode ser entendido como uma maneira de ser visto. E normalmente o impacto não afeta aqueles que podem comprar, mas sim, aqueles que não podem e demonstram poder por uma passageira sensação de inclusão. Assim, levando a moda apenas como status social (fortalecendo a visão eurocêntrica), e consequentemente mantendo ativo um sistema de consumo em massa.
Quando se pensa no mundo digital, o sentido não muda. O crescimento constante das redes sociais apenas pioram a cada dia tal padronização.
Próximas gerações
Segundo o relatório “How Gen Z and Gen Alpha Are Rewiring the Fashion Industry” (Outubro, 2025) desenvolvido pelo Boston Consulting Group (BCG), as gerações Z e Alpha devem fazer parte de um percentual de até 40% referente aos gastos globais na moda até o ano de 2035.
Ao entender isso, entende-se também que tais gerações são as mais propensas, quase que de maneira involuntária, a associarem visibilidade como requisito para qualidade de determinado produto.
A persistência da desvalorização brasileira
Para Sophia, se torna um processo muito mais profundo. Ao se pensar em tal embate, se faz uma questão que necessita de mudança coletiva de sociedade para sociedade. Ainda há uma discrepante valorização de um produto vindo de fora do que um produto propriamente brasileiro – o que afeta além da moda.
– “Se quiser começar com referências de fora, tem milhares de brasileiros que trabalham em marcas gigantescas e fazem um trabalho maravilhoso, então pode começar por aí para ir trazendo cada vez mais essa valorização para nosso país.”
Para Alana, a cadeia da moda funciona exatamente assim: a atribuição de valor a algo, e consequentemente se tornar objeto de desejo para as pessoas irem atrás. Assim, quando se fala em eurocentrismo é exatamente o foco em marcas que são de fora, pois elas que passam essa visão de inalcançável, a típica visão eurocêntrica enraizada da moda.
Logo, ao terem a oportunidade de gastarem e atribuírem seus gastos com itens de luxo, o olhar para alguma marca europeia ou até mesmo dos Estados Unidos não é o mesmo ao olhar para um item de origem brasileira.
– “Acho que isso está mudando, mas a princípio ainda não mudou.”
Desfile Mondepars – Alda, Inverno 2026
Mondepars e seu novo desfile de inverno 2026 “Alda” é um ótimo exemplo ao se falar de uma marca originalmente brasileira que está em busca de expandir seus ares e se posicionar de forma estratégica para seu crescimento.

Sobre o desfile, Alana comenta que entende que Sasha esteja fazendo um posicionamento em cima de uma repetição de padrões já anteriormente trazidos por ela anteriormente, porém atribuindo um novo significado muito bonito.
– “Acho que esse significado que ela atribui tem muito da vivência dela como brasileira. Eu vejo como algo muito positivo que ela esteja levando isso para fora, porque sinto que quando uma marca emerge muito ela abre margem para várias outras.”
Na visão de Sophia, é notório que por trás do desfile houve bastante estudo e entendimento diante de cada criação e trabalho de modelagem. Assim, Sophia acaba dando ênfase nas peças de madeira dizendo:
– “Sou alucinada por arte, e aquilo é arte pura na moda. Então, eu como estudante de moda vendo aquilo, é muito generoso e gratificante ver uma menina do nosso país fazendo aquilo.”
A criação de um caminho sólido
Um caminho sólido em qualquer carreira se faz indispensável, e com a indústria fashion não seria diferente. Para aqueles que possuem em mente seguir a área criativa no mundo da moda, a clareza no caminho é importantíssima. Mas, apenas isso?
Sophia diz que para quem busca um caminho sólido na criação, nunca deixar de buscar referências em todos os lugares é algo essencial. Além disso, sempre confiar em seu próprio potencial ao criar algo.
– “ No dia a dia mesmo, buscar referências do que você realmente gosta e realmente acha bonito porque você cada vez mais vai conseguir colocar aquilo em suas criações. E sempre criar, nunca parar de criar.”
Já Alana, diz que ter a vontade de aprender e ir atrás é algo que a ajudou e acredita que seja muito bom para ajudar outras pessoas.
– “Aproveitar essa sede de aprender para agarrar as coisas, porque acho que a gente tem muito medo. E a gente não pode ter medo, a gente tem que querer aprender porque é um momento para isso.”
Ao compreender o quão desigual não só o mundo é em seu contexto geral, mas em um espaço limitado como a moda, pode-se perceber que ainda há muito o que explorar para que haja uma melhora evidente e satisfatória para a mão de obra brasileira no estilismo.
É algo para se refletir. Acima disso, é algo para entender que todo processo se torna importante, descentralizando essa visão eurocêntrica da moda: desde o molde, até a execução e assim, até o lucro. Sem um processo, não existe outro, é como uma linha reta.
E, para ficar por dentro das novidades sobre conteúdos do mundo da moda, não deixe de acompanhar o Fashionlismo! 🙂
Escrito por Giovana Miranda I Editado por Ana Carolina Gomes


