Comportamento,  Cultura,  Lifestyle,  Moda,  Psicologia da Moda,  Sociedade,  Tendências

Por que tantos homens se vestem igual? A armadura por trás da moda masculina

Reprodução/Instagram: @/composition

Camiseta básica, cores sóbrias, escapulário, bermuda no comprimento considerado “certo”, tênis e, quando muito, uma peça de destaque (desde que não chame atenção demais). Na moda masculina brasileira, essas escolhas parecem apenas uma questão de estilo, mas na verdade, mostram códigos profundos sobre masculinidade, status e estereótipos. Afinal, quando uma roupa deixa de ser apenas uma roupa e passa a determinar o que é considerado “masculino” ou “armadura social”?

Quando olhamos para o guarda-roupa dos homens no Brasil, o básico não é acidental, é um território seguro. Por exemplo, a partir de uma peça aparentemente básica e distante de grandes discussões sobre estereótipos, a bermuda ganha outro significado quando analisada pelo estudante de moda Gabriel Ferreira: “A bermuda começa a ser um demarcador. Vamos pensar num jeans, se você sai com uma bermuda acima do joelho, já gera discussão. E aí, eu faço esse teste com algumas amigas, tipo: ‘O que você acha desse menino com essa bermuda?’, ‘Gay, mas se está abaixo do joelho, não sei definir’. Então, acho que algumas peças a gente consegue pegar muito de exemplo”.

Essa régua invisível se estende à psicologia das cores. O guarda-roupa masculino brasileiro é predominantemente pautado por tons neutros,  os famosos “cinquenta tons de cinza”, preto, branco e azul-marinho. Cores vibrantes ou o brilho sutil ainda são encarados com desconfiança, sob o risco de o homem virar motivo de chacota ou fugir do “padrão aceitável”.

A influência esportiva, aliás, é uma das características mais presentes na moda masculina brasileira. Adidas, Nike, Fila, entre outras marcas, ajudaram a transformar roupas originalmente ligadas ao esporte em peças do cotidiano. Porém, podem ser consideradas como uma barreira à diversidade estética quando somadas à rivalidades do futebol, que adicionam barreiras às cores. Como pontua Gabriel: “Acho que o homem é muito preto e branco. Quando você envolve o futebol, a cor é um demarcador de você usar ou não usar. Por exemplo, se eu sou corintiano roxo, eu não uso nada verde”.

A estética básica também revela uma relação particular dos homens com o ato de se arrumar. A própria ideia de que “shopping é para mulher” reforça a noção de que se preocupar com roupas seria algo secundário para eles. Na visão do entrevistado: “eu acredito que o básico pode funcionar, mas também acredito que é muito automático”. Nesse cenário, vestir-se de maneira simples pode significar mais do que praticidade: pode ser uma forma de evitar julgamentos e permanecer dentro de uma imagem socialmente aceita de masculinidade. 

Se o básico garante invisibilidade segura, a busca por status faz o caminho inverso. É aí que entram as marcas e os logos em evidência. Nas periferias ou nos grandes centros, a estampa grifada serve para anunciar pertencimento. “Eles querem a marca mesmo”, analisa Gabriel. “Não é sobre a roupa em si, é sobre o logo. É a forma que encontram de dizer: ‘Olha o que eu estou vestindo, eu pertenço a este lugar’.”

Com o aumento da violência contra mulheres e a volta de um sistema mais conservador contra a comunidade LGBTQIAPN+, a sociedade se vê mais desafiada à encontrar um parceiro, tendo em vista que muitas pessoas se questionam do motivo de estarem solteiras, voltando-se à aparência. As redes sociais também se tornaram o lugar para expor determinados conceitos, gostos e aparência. Hoje, a busca por validação estética chegou à academia, deixando de ser apenas um espaço de saúde para se transformar em uma linha de montagem do “homem padrão”, aquele que treina (e não que “malha”), usa a camiseta básica preta e ostenta o ganho de massa muscular.

Para Gabriel, toda essa estrutura revela uma angústia muito maior ligada à autoestima e às relações contemporâneas: “Para ganhar biscoito de outro homem, para ganhar biscoito de outra mulher, para se sentir desejado”.
No fim, a discussão sobre moda masculina vai muito além das tendências que aparecem nas passarelas ou nas vitrines. Bermudas, cores, marcas, roupas esportivas, acessórios e até o corpo mostram como ainda existem códigos que orientam o que muitos homens consideram aceitável vestir. Para Gabriel, ampliar esse repertório passa justamente pelos temas climáticos, psicológicos e sociais.

E, para ficar por dentro das novidades sobre conteúdos do mundo da moda, não deixe de acompanhar o Fashionlismo!  

Escrito por Ângelis Auristela Santos I Editado por Ana Carolina Gomes 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *