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Supergirl é ruim ou homens são incapazes de lidar com frizz?

Mulheres contra o voto feminino, aumento no número de feminicídios, “piadas” com cunho sexual sobre a morte de mulheres jovens, projetos de acabar com o voto feminino nos EUA e uma série de retrocessos no direito das mulheres. 

Em um contexto misógino e patriarcal como o nosso, nem as mulheres da ficção saem ilesas de sofrer apenas por serem mulheres. A super-heroína odiada da vez é Kara Zor-El , a Supergirl.

Pois se o sol amarelo blinda a moça de ferimentos, da misoginia ela não escapa tão facilmente. Seja na trama, seja na repercussão do filme, o ataque e o ódio às mulheres parecem ter uma cartilha.

Uma vez que uma mulher saia um pouco dos seus papéis de gênero… a violência aparece. No contexto de filmes de super-heroína é nítido como personagens femininas, e seus próprios filmes, fortes sofrem hate na Internet. 

Sobre esse amplo universo controverso, conversamos com Denner Emanuel do Carmo Pereira, formado em Cinema e TV pela Academia Internacional de Cinema, e assistimos à Supergirl de Milly Alcock!

Mas fique tranquila, essa matéria não contém spoilers!

Depende de quem vê

Apenas o trailer de Supergirl gerou comentários maldosos sobre a aparência da atriz e a suposta qualidade duvidosa e infidelidade da obra em relação aos quadrinhos.

De acordo com o criador de conteúdo geek Peter Jordan, conhecido por falas questionáveis sobre filmes com protagonismo feminino, a Supergirl “parece que está vomitada”. 

Ainda segundo o influenciador, nos quadrinhos ela está com “o cabelo penteadinho, cheirosinha, de batom”. 

Geralmente, comentários como esses são precipitados e se ancoram como uma reclamação à obra não ser fiel ao material original. Pasme, Peter, nenhuma obra é replicável e como leitura complementar a essa indico fortemente A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica. 

Focando no filme, a Kara não está bêbada, jogada, tresloucada durante quase duas horas. Mas ela felizmente se distancia de uma it girl escrita por um homem. 

Em contraponto, Denner Emanuel elogia o trabalho desenvolvido por Milly e afirma que as impressões do filme e as conversas online sobre ele dependem também da bolha em que se está inserido.

Direcionamentos e resultados

“Muitas vezes a gente vê o Superman do Snyder se desviando de um caminhão e esse caminhão acabou batendo num prédio e matando milhares de pessoas. Quando na verdade o Superman é um herói altruísta”, afirma sobre a diferença de condução da direção.

O filme do Superman quebra bastante a ideia do homem forte e indiferente ao redor. James Gunn, diferente de Snyder, constrói um herói e um universo mais humano e distante das expectativas de gênero.

“Na bolha em que eu me encontro, ninguém gosta dessa representação do Snyder. A gente acha, por exemplo, filmes como Supergirl um pouco melhores. Porém eu acho que vai muito desse público que está consumindo essas obras”, afirma.

No contexto cinematográfico, o trailer é interessante para situar o espectador. Pode servir como uma sinopse visual. Porém com uma aparição que causou incômodo em fãs homens, a Kara Zor-El  desse universo foi muito mal recebida.

“Eles já estão predispostos a não gostarem dessas obras, então acaba que eles boicotam, acabam que eles nem se dão o trabalho de assistir”, é o que Denner comenta sobre essa má recepção do filme.

Toda escolha é uma renúncia

Pessoalmente, eu vi muito valor em Supergirl. Gosto da trama, que não reinventa a roda, mas traz sim suas surpresas e catarses, gosto da personagem, de seus dilemas, da estética Mad Max com a qual o filme flerta e principalmente com o subtexto de gênero.

Porque, atenção redpill de plantão, o filme pode ser bem espinhoso em suas representações e críticas sutis.

Porém, ao conversar com Denner, percebi que tudo que gostamos ou concordamos ser bom, poderia ser ainda melhor. Um filme deve ser sim analisado pelo que é e jamais sobre como poderia ser.

Ainda assim, toda obra tem seu público e suas escolhas e elas cobram preços. “Na minha visão ele é um longa divertido para toda a família poder assistir…um pai poder levar o seu filho. Ele cumpre com essa ideia de ser um filme divertido para toda a família”, afirma.

Cada público, uma linguagem

Com classificação de 14 anos nos cinemas brasileiros, o filme não se aprofunda nas questões mais sensíveis da trama, como adicção e depressão, por exemplo. As próprias questões mais relativas a ser uma mulher numa sociedade patriarcal fica mais a encargo dos espectadores captarem a profundidade. 

“A depressão da Kara… ela sofre durante toda a trama, isso reflete muito na questão de: como é que você trata uma depressão de um jeito PG-13 (classificação indicativa nos EUA)? Divertida Mente, Divertida Mente 2, que conseguem tratar isso de uma forma mais lúdica que uma criança consegue entender, mas que também tem um peso para um adulto.  Esse filme eu acho que ele não faz um bom meio termo”, afirma.

“Às vezes parece que ele quer muito tratar os temas de alcoolismo e depressão, só que ele fica muito na superfície do que poderia vir a ser tratado”, finaliza sobre esse tópico.

Ser um pouco mais rasa não faz a obra ser ruim. São escolhas criativas. Não é possível agradar a todos.

Eu sou a mulher do fim do mundo

Mas é cada vez mais difícil agradar um fã de quadrinhos. Milly Alcock participou de outras grandes produções como A Casa do Dragão, do universo de Game Of Thrones. 

Uma vez que o fã da série está habituado com mulheres mais quebradas emocionalmente, a expectativa que ser mulher impõe abaixa um pouco. 

“Agora a galera que vai ver um filme de super-herói esses, eles estão esperando ver uma mulher poderosa, linda, perfeita, que não se abala com nada”, Denner afirma.

“Os super-heróis, como você disse, o Wolverine, que é um personagem quebrado a todo momento… ele tem mais esse apelo para o público masculino. Porque é onde o cara que não tem muito uma força física ou não tem uma predisposição a lutas… ele se enxerga naquele personagem”, continua.

É comum ouvir que os homens heterossexais são homoafetivos. Não que sejam gays, mas o afeto, o carinho, a admiração é destinada a outro homem. Um jogador de futebol, um herói de filme. 

Ao falarmos sobre o Superman de James Gunn ser uma boa representação de homem, Denner e eu não conseguimos pensar em nomes além de Marshall Eriksen e Forrest Gump como exemplos de homens saudáveis na cultura pop.

Uma vez que idolatram homens como Tyler Durden, de Clube da Luta, e ouvem Homem Ser, do filme Mulan, sem pensar que o maior exemplo de “masculinidade” era uma mulher, eles vão esperar que as mulheres andem bem penteadas, com batom e perfume.

“A representação visual da Kara nesse filme para mim é um dos pontos mais fortes que o filme tem. Porque se você está tentando representar uma personagem que está sofrendo com depressão, alcoolismo, é claro que ela não vai aparecer toda poderosa com cabelo sedoso”, afirma sobre a polêmica da aparência da personagem.

Respeite esse corpo, ele não lhe pertence

Curiosamente, mulheres em papéis não sexualizados nesses universos são comumente chamadas de feias. Existe a categoria de “galãs feios”, mas não existiria uma categoria dessa para mulheres.

“Agora quando ele vê uma mulher desse tipo causa esse estranhamento. Porque o que ele está acostumado a consumir são mulheres como a Mulher Maravilha ou como a Capitã Marvel dos quadrinhos. Que é essa figura mais bela, perfeita, sem defeitos”, comenta Denner.

Dentro desse universo, é comum que as mulheres sejam hipersexualizadas ou reduzidas à donzelas em perigo. Até mesmo as vilãs passam por isso.

No tenebroso Esquadrão Suicida de 2016, Margot Robbie está com um traje minúsculo e desconfortável. Mas nas aparições da personagem em Aves de Rapina de 2020 e O Esquadrão Suicida dirigido por James Gunn, os trajes são muito melhores nesse sentido.

Porém não se pode esperar tanto de uma indústria cinematográfica que esnoba o filme Barbie no Oscar, mas premia Ryan Gosling por uma música dizendo como ele é um inútil.

Cinema, mulher e mercado 

Quando se fala de cinema, principalmente de super-heróis e super-heroínas, é necessário pensar na indústria em si. Mulheres fortes e seguras de si ganham mais espaço, porque vendem. 

Negócios são negócios e o cinema gera bilhões e bilhões de dólares. 

“Porém o jeito que o cinema enxerga as super-heroínas faz sentido mercadologicamente. Porque é óbvio que como já vai ser um filme boicotado por conta do público que vai consumir, que já não está querendo assistir aquela obra, você tratar as mulheres como essa figura angelical, como uma deusa, é mais vantajoso para as empresas. Pois a pessoa vai preferir assistir uma Mulher Maravilha do que assistir uma Capitã Marvel”, afirma.

Mulheres na tela? Melhor que sejam bonitas e agradáveis. O que se espera de uma mulher, principalmente de seu comportamento, reflete como elas são retratadas nas artes.

“O público de super-heróis eles são um pouco tóxicos, por assim dizer, porque eles querem muito uma coisa que eles sabem que não vão ter. Por exemplo, um fã de  quadrinhos de super-herói masculino, eles só querem ver a mulher mais objetificada, uma mulher mais poderosa no sentido de beleza. Beleza física eu digo, porque uma personagem com beleza interior não é muito rentável”, continua a reflexão.

Segundo Denner, a DC, responsável pelo filme da Supergirl, ainda tem trabalho pela frente caso queira continuar com seu novo universo cinematográfico.

Supergirl é um filme bom, leve, emocionante, divertido, mas potencialmente reflexivo e gostoso de assistir. O ódio gratuito nas redes sociais, o hate e a bilheteria abaixo do esperado não refletem o valor cinematográfico da obra.

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Escrito por Geovana Nunes I Editado por Ana Carolina Gomes 

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