Moda e memória: como as roupas guardam histórias, despertam lembranças e ajudam a construir identidades

Desde que o mundo precisou se proteger por meio da vestimenta, as roupas desempenham um papel fundamental na história da humanidade. Já foram utilizadas para representar a caça, proteger o corpo, diferenciar funções sociais e comunicar pertencimentos. A moda, ao longo do tempo, sempre revisita o passado e ressignifica referências. Segundo a WGSN, “referências antigas ganharão novos materiais, modelagens e significados, entregando algo essencial hoje: conforto emocional e sensação de pertencimento”. Essa perspectiva revela que a busca pela memória não acontece por acaso: em um mundo pós-pandêmico, reconectar-se com o passado tornou-se uma forma de encontrar acolhimento e pertencimento.
O psicanalista Sigmund Freud enfatiza em seus estudos que as experiências e lembranças da infância influenciam a formação do indivíduo ao longo da vida. Considerando essa relação entre memória e emoção, percebe-se que o crescimento do interesse por brechós, peças vintage e roupas herdadas demonstra que a relação das pessoas com a moda ultrapassa tendências e consumo. Muitas peças carregam lembranças, sentimentos e histórias familiares, tornando-se símbolos de identidade e conexão afetiva.
Ao aprofundar os estudos sobre psicologia do consumo, encontramos diferentes teorias que ajudam a compreender essa relação emocional com o vestir. A teoria de Philip Kotler contribui para entender por que brechós e bazares conquistam cada vez mais espaço na moda. Para o autor, o comportamento do consumidor é influenciado por fatores psicológicos, sociais, culturais e pessoais, mostrando que uma compra vai além da aquisição de um produto. Ao escolher uma peça de segunda mão, muitas pessoas buscam autenticidade, diferenciação e a oportunidade de construir um estilo próprio, além de se identificarem com valores como sustentabilidade e consumo consciente. Dessa forma, brechós e bazares deixam de ser apenas espaços de compra e passam a representar uma nova maneira de consumir moda, em que cada peça carrega história e significado.

Além disso, outro autor importante para essa reflexão é Jean Baudrillard, que explica que os objetos de consumo possuem significados que ultrapassam sua função prática. Na moda, uma peça não serve apenas para vestir, mas também comunica identidade, memória e sentimentos. Sob essa perspectiva, a moda circular transforma cada roupa em um elemento de valor simbólico, seja por sua história, exclusividade ou possibilidade de transformação. Ao escolher uma peça de segunda mão, o consumidor também escolhe a narrativa que ela representa, transformando o ato de se vestir em uma forma de expressão pessoal.
Ainda assim, falamos muito sobre teorias, mas os dados também reforçam essa transformação no comportamento do consumidor. A pesquisa Brechós 2025, realizada pelo Sebrae-SP, revela que 45% dos consumidores valorizam a qualidade das peças e 43% destacam a sustentabilidade e o consumo consciente como fatores importantes para a escolha da moda de segunda mão. Esses números mostram que o consumidor atual busca mais do que adquirir uma peça: procura produtos que tenham significado, durabilidade e conexão com seus valores. Dessa forma, os bazares se consolidam como espaços de identidade e transformação dentro do mercado da moda.

Mas a roupa também possui uma função sentimental. Existem peças que carregam cheiro de saudade, cheiro de abraço e cheiro de amor. As roupas despertam sentidos profundos e ativam memórias afetivas, proporcionando verdadeiras viagens no tempo. Uma peça deixa de ser apenas um objeto e passa a representar momentos, pessoas e histórias. Vestir-se também pode ser uma forma de pertencer.

Para Roland Barthes, a moda pode ser compreendida como um sistema de signos, no qual as roupas ultrapassam sua função prática e passam a comunicar significados. Em seus estudos, o autor demonstra que o vestuário transmite mensagens sobre identidade, cultura, comportamento e valores sociais. Dessa forma, uma peça não é apenas um objeto, mas uma construção de sentidos. Aquilo que vestimos participa da maneira como nos apresentamos ao mundo, revelando que o ato de vestir também é um ato de comunicação.
Portanto, as peças de nossos avós, mães, pais, tios e tantas outras pessoas carregam significados que ultrapassam o tecido e a modelagem. Compreender a roupa como uma espécie de memória afetiva nos permite observar o ato de “se arrumar” como uma forma de expressar sentimentos, histórias e pensamentos profundos. A moda pode representar acolhimento, transformação e até mesmo um respiro diante dos desafios da vida.
A roupa também pode assumir um papel emocional na construção da identidade, especialmente em momentos de sensibilidade, como experiências marcadas pelo bullying. Para muitas pessoas, o vestuário torna-se uma forma de proteção simbólica, permitindo expressar quem são, reconstruir a autoestima e encontrar pertencimento. Mais do que uma barreira física, uma peça pode representar coragem, transformação e a possibilidade de ressignificar a própria imagem.
Dessa forma, se apresentar ao mundo nem sempre é simples. Em alguns momentos, esse ato pode ser desafiador, principalmente quando envolve inseguranças e a maneira como somos percebidos pelos outros. Por isso, vestir uma roupa que representa quem somos pode se tornar uma forma de resistência: uma maneira de afirmar a própria identidade, recuperar a confiança e ocupar espaços com mais liberdade.
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Escrito por Dhara Sabino I Editado por Ana Carolina Gomes


