Passarelas e Altares
Quando a fé se transforma em inspiração para a moda contemporânea

(Um vermelho icônico, quando reinventado pelo mestre John Galliano, se presta a silhuetas dramáticas de saias à mostra, cinturas apertadas e pescoços cobertos de crucifixos. Modelo Vittoria Ceretti (com uma amiga) em John Galliano para a Casa de alta costura Dior, primavera de 2006.Fotografado por Philip-Lorca diCorcia, Vogue, maio de 2018)
Quando a Fé vira inspiração de moda contemporânea
A moda há muito tempo deixou de ser apenas uma questão estética, e é de conhecimento de todo mundo que usar a moda como forma de expressão é uma tendência. Muitas pessoas usam seu estilo para passar sua identidade, valores, histórias e marca. E já tem bastante tempo que a fé vem ocupando seu lugar na moda. Vestimentas com símbolos de fé, joias com artigos religiosos, frases específicas que remetem à sua crença e tradições ajudam a compor looks estilosos e culturais.
Segundo a pesquisadora Anna-Mari Almila da London College of Fashion, a relação entre moda e religião é cada vez mais complexa. A moda não apenas reflete as comunidades religiosas, mas também influencia a forma como as pessoas vivem e expressam sua espiritualidade, abrindo espaço para novos debates sobre identidade e pertencimento

Esse é o tipo de comportamento que ultrapassa gerações e vira tendência.
A fé na moda contemporânea
Pensando nisso, observamos que apetrechos e elementos de fé ganharam espaço entre grandes marcas e superproduções de moda. Exemplos disso são as cruzes, medalhas, véus, bordados inspirados em arte sacra e frases com referências religiosas.
A professora Leticia Moreira Casotti, pesquisadora do consumo e da moda, diz que as redes sociais evidenciam um movimento de negociação simbólica entre fé e estética. Em seus estudos sobre influenciadoras religiosas brasileiras, ela demonstra que a moda pode funcionar como uma forma de comunicar valores religiosos sem abandonar tendências contemporâneas.

(Paris realizou sua primeira Semana de Moda Modesta. O evento reuniu quase 30 designers, destacando estilos usados por muitas mulheres muçulmanas e refletindo um crescente mercado de moda global. – – os conservadores estão prestes a embarcar nessa / BCC NEWS)
Tornou-se comum ver esses elementos nas passarelas e no cotidiano das pessoas. Mais do que um recurso estético, trata-se de uma manifestação de identidade. Cada elemento representa uma história, uma crença, pertencimento, devoção e identidade.
Segundo o pesquisador Diego Rinallo, especialista em consumo e marketing, que argumenta que objetos considerados sagrados passaram a circular também como produtos de moda. Para ele, esse fenômeno mostra como símbolos religiosos transitam entre devoção, identidade e consumo, exigindo sensibilidade para que seu significado cultural não seja esvaziado.
Identidade e pertencimento
Muito mais do que beleza ou look, é identidade visual com conteúdo histórico. Esse movimento ganhou visibilidade com fé e história, sem medo, sem culpa, apenas devoção e orgulho de pertencer àquela fé.
E como estilo também é linguagem, branding e pertencimento, looks com símbolos religiosos mostram que somos mais do que uma roupa. Somos cultura, somos identidade cultural e histórica.
Segundo o pesquisador Diego Rinallo, especialista em consumo e marketing, que argumenta que objetos considerados sagrados passaram a circular também como produtos de moda. Para ele, esse fenômeno mostra como símbolos religiosos transitam entre devoção, identidade e consumo, exigindo sensibilidade para que seu significado cultural não seja esvaziado.
Futuro e a busca pelo respeito: uma reflexão constante
Para muitas pessoas usar um look religioso representa um ato de afirmação da própria identidade e da própria fé e um manifesto de orgulho pessoal, mas também levanta discussões e gera medo da repercussão negativa. Ainda há muitas pessoas intolerantes e ignorantes que fazem comentários ruins. A presença da fé na moda não deveria ser vista apenas como uma tendência momentanea. Quando usada com respeito, ela transforma a roupa em uma extensão da identidade e da história de quem a veste.

(Detalhes e Looks de Jean Paul Gaultier Alta-Costura Primavera 2007/@Gastt_Fashion)
O desafio não está nos símbolos em si, mas na forma como a sociedade encara a diversidade religiosa. Em tempos de tanta exposição, talvez o verdadeiro estilo seja justamente saber respeitar aquilo que cada símbolo representa para quem o escolheu. Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Bath Spa University e da Bournemouth University aponta que a chamada modest fashion (moda modesta), inspirada por valores religiosos e culturais, continua em expansão no mercado internacional. O estudo destaca que o crescimento é impulsionado não apenas por consumidores religiosos, mas também por pessoas que buscam roupas alinhadas à identidade, ao conforto e à liberdade de expressão.
Por isso, é necessário ter empatia e respeito. Usar um look assim é um manifesto de poder, identidade e fé, não abertura para comentários chulos.
Fontes consultadas
ALMILA, Anna-Mari. Introduction: Fashion/Religion Interfaces. Religions, MDPI, 2020/CASOTTI, Leticia Moreira et al. Negociações simbólicas das regras religiosas do vestir em postagens no Instagram. Revista dObra[s] / THE GUARDIAN. Modest fashion headed for mainstream despite political hostility, say experts. 15 jun. 2025.
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Escrito por Talita Motta I Editado por Ana Carolina Gomes


