O novo poder surrealista da Schiaparelli em 2026
Coleção apresentada por Daniel Roseberry na semana de moda de Paris transforma símbolos do corpo, da arte e do surrealismo em um guarda-roupa feminino dramático e contemporâneo.
Na tarde de 5 de março, durante a Semana de Moda de Paris, a maison Schiaparelli apresentou sua coleção feminina de outono 2026 de ready-to-wear. Sob a direção criativa de Daniel Roseberry, o desfile confirmou mais uma vez a capacidade da marca de transformar a passarela em um espetáculo visual que mistura moda, arte e narrativa simbólica.
A expectativa em torno da apresentação era alta, já que a marca tem consolidado uma posição singular no calendário internacional, combinando o legado surrealista da fundadora com uma linguagem contemporânea de luxo e alto impacto visual.
Batizada de “The Sphynx” (A Esfinge), a coleção parte de um imaginário ligado ao mistério, à identidade e à transformação. Na passarela, os looks exploram formas, materiais e símbolos que reforçam essa atmosfera.

O enigma da esfinge
A inspiração central da coleção parte da figura da esfinge, símbolo histórico de mistério e enigma. A imagem dessa criatura híbrida, que combina características humanas e animais, surge como metáfora para a mulher contemporânea imaginada por Roseberry: complexa, multifacetada e cheia de camadas de identidade – algumas reveladas e outras mantidas em segredo.

Esse jogo de “revelar e ocultar” também apareceu na simbologia recorrente do buraco de fechadura, um dos códigos mais conhecidos da marca. O símbolo surge como convite para olhar além da superfície, sugerindo a ideia de descoberta e de introspecção. Na coleção, ele funciona quase como um portal simbólico, representando a curiosidade, o desejo de conhecimento e a exploração da psique feminina.

Essa abordagem reforça o diálogo constante entre passado e presente dentro da maison. A herança surrealista deixada por Elsa Schiaparelli continua viva, mas reinterpretada sob uma perspectiva atual, que conecta fantasia e funcionalidade.
Silhuetas e experimentação
Visualmente, a coleção construiu um equilíbrio interessante entre rigor e fluidez. Daniel trabalhou com cortes extremamente precisos, reforçando ombros estruturados e cinturas marcadas, elementos que criam uma silhueta poderosa e arquitetônica.


O uso do trompe-l’oeil, técnica que produz ilusões ópticas nos tecidos, apareceu em peças que simulam texturas ou estruturas que não estão realmente ali.


Malhas elaboradas e tecidos laminados também contribuíram para a sensação de movimento, como nos vestidos plissados e fluidos, que parecem escorrer pelo corpo como água.


Essa combinação entre precisão técnica e fantasia visual construiu um guarda-roupa que oscila entre escultura e movimento, reforçando a ideia central de transformação presente na coleção.
Objetos surrealistas na passarela
Como já se tornou marca registrada da Schiaparelli, os acessórios assumiram um papel protagonista na narrativa visual do desfile. Em vez de simples complementos, eles funcionaram como objetos artísticos capazes de redefinir cada look.
Entre os elementos mais comentados estavam os sapatos com cabeças de gato esculpidas em resina, que criavam um efeito simultaneamente intrigante e surrealista.

Bolsas surgiram com pássaros ou pés de avestruz em bronze, transformando referências da anatomia animal em elementos de luxo.


As joias também seguiram essa lógica experimental: algumas peças incorporavam pelo de macaco em shearling, mantendo o espírito provocador e irreverente que sempre marcou a identidade da casa.

Outras criações chamaram atenção pela mistura entre humor e precisão técnica como os vestidos com caudas que lembravam carapaças de tartaruga.

Cores, materiais e atmosfera visual
A paleta de cores concentrou-se principalmente em preto profundo, branco intenso e variações metálicas, criando contrastes visuais fortes que destacavam a arquitetura das peças.
Nos materiais, Roseberry apostou em uma mistura rica de texturas. Lãs estruturadas, tecidos laminados, pelos, superfícies metálicas e plissados fluidos criaram um jogo constante entre peso e leveza.




Essa diversidade tátil contribuiu para construir a imagem de um luxo altamente sensorial, no qual cada detalhe revela um novo nível de experimentação.
Moda entre arte e realidade
A coleção também surge em um momento simbólico para a história da marca. Poucas semanas antes do desfile, foi anunciada a exposição “Schiaparelli: Fashion Becomes Art”, que será apresentada no Victoria and Albert Museum, em Londres, dedicada ao legado artístico da fundadora.
Nesse contexto, o trabalho de Daniel parece buscar justamente essa ponte entre arte e vestuário. Ao traduzir a exuberância da alta-costura para peças prontas para vestir, o diretor criativo mantém o espírito artístico da casa, mas o aproxima de um guarda-roupa contemporâneo.
Entre sofisticação e criatividade, o desfile de outono 2026 da Schiaparelli mostra que a moda ainda pode ser um território de mistério, onde roupas não apenas vestem o corpo, mas também provocam imaginação e curiosidade.
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Escrito por Victória Parente I Editado por Ana Carolina Gomes


