O vestir como sintoma: a pressa está atropelando o seu estilo?
Sair de casa vestida não significa, necessariamente, estar presente sob a ótica da Psicologia da Moda. Em uma rotina marcada pela urgência, muitas vezes não fazemos escolhas: reagimos apenas de forma automática ao relógio. O vestir, no entanto, poderia ser um espaço de criação e prazer. Antigamente, era como a ida a um parquinho de diversões quando éramos crianças.
Hoje, contudo, virou mais um item burocrático da lista entre o café da manhã e o primeiro compromisso do dia. Vivemos em uma cultura do imediato em que o feed não para. Além disso, as notificações se acumulam e o tempo de perceber o outro, e até mesmo o próprio corpo, se dissolve em meio às demandas externas. Essa pressa constante transforma o estilo em mera função e a imagem em um fragmento isolado. Quando não há tempo para sentir o caimento de um tecido ou perceber como uma peça se sustenta, o vestir deixa de ser uma escolha consciente e vira algo meramente automático.

A “Sobrevivência Estética” e a Psicologia da Moda em tempos de pressa
De fato, essa desconexão gera o que podemos chamar de “sobrevivência estética”: um estado onde habitamos roupas, mas não as preenchemos com nossa identidade. Assim, o resultado desse atropelo cotidiano é um esvaziamento da imagem pessoal, que passa a ser guiada apenas pela conveniência ou pelo medo de errar, silenciando nossa voz interna antes mesmo de sairmos pela porta. Portanto, recuperar esse espaço exige entender que o olhar clínico sobre si mesma no espelho é o primeiro passo para retomar o controle da própria narrativa.
O styling, ao contrário do que o senso comum dita, não é um ato de futilidade, mas uma ferramenta poderosa de afirmação da subjetividade. Além disso, brincar com sobreposições, volumes e texturas exige pausa, exige uma permanência e uma existência real no agora, que o ritmo digital tenta nos roubar a todo custo. Nesse contexto, pausar, hoje, é um gesto quase subversivo de resistência contra a produtividade tóxica. É nesse intervalo de tempo que o sujeito decide como deseja ocupar o seu espaço no mundo e como quer ser lido pelo outro.

Contudo, sem esse tempo de maturação da imagem, o visual perde o sentido simbólico e o corpo perde sua referência de porto seguro, fazendo com que a roupa deixe de ser linguagem viva e passe a ser apenas uma resposta defensiva e sem alma a um dia que já começou atrasado.
O look como ferramenta de regulação emocional
Na prática, escolher uma bota pesada para contrastar com a fluidez de um vestido leve não é um excesso de vaidade. Gastar minutos entendendo as proporções de uma camisa em uma calça oversized é um processo real de regulação emocional. Com efeito, ao criar camadas e texturas, o corpo estabelece limites sensoriais necessários diante do caos externo. Isso funciona como uma espécie de âncora psíquica que nos mantém centrados no presente. É uma forma silenciosa de dizer que quem dita o ritmo é o meu próprio “eu”.

Nesse cenário, as tendências deixam de ser uma regra externa. Elas passam a ser ferramentas de expressão escolhidas com intenção. O vestir consciente, pilar fundamental da psicologia da moda, é um fenômeno profundamente humano. Ele materializa fisicamente aquilo que está sendo processado por dentro. Isso transforma a invisibilidade da psique em uma narrativa visual autêntica.
Reivindicando a autoria através do styling

No fim, estilo não é sobre seguir tendências. É sobre ter a coragem de não ser engolida pela velocidade. É sobre se reconhecer plenamente no tempo que você escolhe reivindicar diante do espelho. O ato de se vestir vira um ritual de presença e autoria. Portanto, quando o corpo participa ativamente da escolha, a imagem deixa de ser uma reação passiva. Ela passa a ser uma decisão consciente de existir.
Escrito por: Lyssa Bernades / Editado por: Maria Clara Machado


