Por que Estamos Trocando o Estilo Pessoal pela Moda de Prateleira?
Você já sentiu que, ao abrir o Instagram ou entrar em uma grande loja de departamento, parece que todos os looks já vêm com “nome e sobrenome”? Em 2026, vivemos o auge das micro-trends, e nos perguntamos, por que estamos trocando o estilo pessoal pela moda de prateleira? Em um dia é o Novo Boho com suas franjas e rendas; no outro, o minimalismo cirúrgico da Clean Girl ou a rebeldia montada da Rockstar Girlfriend. No entanto, o problema não é a estética em si, mas o fato de que elas funcionam como um cardápio de identidades prontas.
O excesso dessas opções “pré-fabricadas” gera o que chamamos de esvaziamento da autoria. Gastamos dinheiro de forma exacerbada não porque aquela peça realmente diz algo sobre nós. Pelo contrário, gastamos porque a vemos com tanta constância nos algoritmos e nas vitrines que nosso cérebro a aceita como o único caminho possível. Acabamos comprando uma fantasia de nós mesmas, simplesmente para pertencer a um grupo. Dessa forma, deixamos nosso estilo real de lado para não ficarmos de fora do “bloco” da vez.

O “Se” Impessoal: Quem está escolhendo o seu look?
Para entender por que fazemos isso, precisamos de um conceito da psicologia fenomenológica chamado “Se” impessoal (Das Man). Sabe quando você diz “está se usando” tal coisa? Esse “Se” é o piloto automático da massa. Segundo explica a filósofa Dulce Critelli em sua obra Analítica do Sentido, quando caímos no “Se”, vivemos uma crise de autenticidade. Em outras palavras, deixamos de ser os autores da nossa história para sermos apenas reflexos da multidão.
Em minha prática clínica e análise de styling, percebo que esse consumo de prateleira é um sintoma de vácuo identitário. O ato de vestir-se, que deveria ser um processo de descoberta, é substituído por uma “sobrevida estética” imposta pela internet. Como reforça Renata Cidreira no livro A Moda numa Perspectiva Compreensiva, a moda perde o sentido quando vira apenas mercadoria sem conexão real com a nossa pele social.

O “Corpo Próprio” contra o Imediatismo Digital
A massificação digital ignora o que o filósofo Maurice Merleau-Ponty define em Fenomenologia da Percepção como o “corpo próprio”. Nós somos o nosso corpo, e é através dele que experimentamos o mundo. Contudo, o problema é que o fast-consumption reduz a moda a uma imagem bidimensional no feed. Quando compras um look apenas porque “pareceu bem no vídeo”, ignoras a tua experiência sensorial única em troca de uma estética descartável.
O contraste aqui é violento e tem sido alvo de análises críticas por especialistas como Lilian Pacce no Vogue Business. Além disso, ela frequentemente discute como o verdadeiro luxo em 2026 passou a ser a longevidade e o detalhe autoral em resposta à saturação do descarte. Enquanto isso, o Portal FFW alerta para o esvaziamento do estilo pessoal em prol das visualizações de hauls do TikTok. Por outro lado, a moda de resistência nos convida a olhar para o que permanece: a Alta-Costura e o artesanal, que exigem o que Merleau-Ponty chama de presença.

Styling como Ferramenta de Resistência à Moda de Prateleira
A saída para não ser engolido pela moda de prateleira não é o abandono da moda, mas a retomada da autoria através do styling consciente. Afinal, ele atua como uma prática de presença contra as identidades pré-fabricadas. O styling permite subverter o algoritmo ao desmembrar as aesthetics prontas, usando elementos de uma tendência sem se tornar um manequim vivo de um bloco que não nos pertence.
Ao entender o funcionamento do “Se” impessoal, ganhamos o poder de interromper o fluxo de gasto automático. Portanto, podemos perguntar se o desejo é realmente nosso ou se apenas fomos bombardeados por aquela imagem até cedermos. Reivindicar a autoria no vestir é um ato de resistência em um mundo que lucra com a nossa padronização. Dessa maneira, permitimos que o nosso estilo pessoal volte a ser uma expressão real da nossa subjetividade, e não apenas mais um item retirado dessa moda de prateleira.

Escrito por Lyssa Bernardes l Editado por Ana Carolina Gomes


