PACE: do streetwear paulistano à primeira passarela, quase dez anos depois
Antes de virar uma das etiquetas mais respeitadas do streetwear nacional, a PACE nasceu de um gesto simples: um adolescente vendendo camisetas sem marca, sem logo, para colegas do cursinho. Era assim que Felipe Matayoshi era conhecido na época — “o Felipe do cursinho” — muito antes de fundar, ao lado da esposa e sócia Juliana Matayoshi, a grife que hoje ocupa vitrines de Paris a Tóquio.
As origens
Felipe chegou a estudar moda por dois anos e meio antes de trocar o curso por Administração. Pelo caminho, passou por agências de propaganda e até pela construção civil, mas dois fios nunca se romperam: a oficina de costura da mãe, que produzia para marcas como Forum, Triton e Iódice, e uma paixão antiga por sneakers. Uma viagem a Nova York em 2013, no auge do boom dos tênis de grife, foi o estopim. De volta ao Brasil, Felipe percebeu um espaço vazio entre o streetwear comum e o universo high-end — e decidiu preenchê-lo, como relembrou em entrevista à THE GAME.
A PACE nasceu oficialmente no fim de 2017, primeiro como marca de calçados, acessórios, mochilas e chaveiros. O fluxo de caixa instável dos primeiros meses, no entanto, empurrou a marca para um novo caminho: em maio de 2018, veio a primeira coleção cápsula de roupas, que se esgotou em duas semanas e redefiniu os rumos da etiqueta. Juliana, economista, entrou como sócia responsável pela parte financeira e administrativa — os dois estão juntos há mais de uma década e se casaram ainda nos primeiros anos da marca.
Uma herança japonesa como assinatura
O que diferenciou a PACE desde cedo foi a forma como Felipe transformou memória afetiva em linguagem de moda. Neto de imigrantes japoneses, ele viveu onze anos ao lado da avó Reiko, em Okinawa, e guarda até hoje a lembrança de como os parentes mais velhos se vestiam: calças de alfaiataria de cintura alta, camisas, bonés e coletes utilitários de náilon. Essas referências — somadas ao improviso e à informalidade do streetwear brasileiro — se tornaram o que a própria marca resume, como o encontro entre “improviso brasileiro” e “disciplina asiática”.
Coleções como a Family Commerce, inspirada em um livro que pertenceu à avó de Felipe sobre uma cooperativa agrícola de Okinawa, reforçaram esse elo. E a base sediada na Vila Carrão, zona leste de São Paulo, nunca deixou de dialogar com um público que se enxerga como comunidade — não à toa, os aviamentos de metal e aço que identificam as peças da PACE viraram uma espécie de código reconhecível entre quem veste a marca.

Da loja online à flagship nos Jardins
Nascida no digital, a PACE cresceu sem depender de vitrine física por anos, vendendo pelo próprio site e por multimarcas. Só em 2024 veio a primeira loja própria, no bairro dos Jardins, em São Paulo — um espaço que também abriga o Café PACE no segundo andar e recebe eventos culturais, ampliando a proposta da marca para além da moda.
Do lado internacional, a expansão seguiu discreta, mas consistente: a PACE hoje está presente em 21 multimarcas fora do Brasil, incluindo unidades da Dover Street Market em Paris, Nova York, Los Angeles e Singapura, a londrina Browns e seis pontos de venda no Japão, além de participar de showrooms parisienses há cinco temporadas.
A estreia nas passarelas
Foi só em 2 de junho de 2026, quase dez anos após a fundação, que a PACE subiu a uma passarela pela primeira vez. O desfile, realizado na Praça das Artes, em São Paulo, reuniu mais de 300 convidados e apresentou a coleção de inverno batizada com o neologismo TYPOJ1G — junção de “typo” (erro de digitação) e “jig” (molde, gabarito).

Segundo Felipe, a decisão de desfilar partiu menos de uma vontade criativa e mais de uma leitura comercial: comunicar a identidade da marca de forma completa, sobretudo para compradores e parceiros internacionais, num momento em que a PACE se aproxima de completar uma década de existência.
A coleção teve como ponto de partida o kendô, arte marcial japonesa: coletes inspirados no dō (armadura de tronco), pregas que remetem ao hakama reinterpretadas em bermudas e calças, chapéus estruturados e sobretudos de presença marcante. Trabalhos em couro e denim ganharam destaque pela sofisticação dos acabamentos, numa cartela sóbria que reforça a sensação de atemporalidade já associada à marca.
A primeira linha feminina
O momento mais simbólico da noite, no entanto, foi a apresentação da primeira linha feminina da PACE. Em vez de romper com a estética já consolidada, a marca optou pela continuidade: saias transparentes combinadas a coletes de couro, tops texturizados e silhuetas mais leves mantiveram os mesmos códigos do universo masculino. O gesto reflete um movimento que já vinha acontecendo organicamente — hoje, cerca de 30% das vendas da PACE são destinadas ao público feminino.


Mais do que uma reinvenção, o desfile de estreia funcionou como uma apresentação: quase uma década depois de nascer discretamente em Vila Carrão, a PACE mostrou a um público maior aquilo que já vinha construindo — com paciência, ancestralidade e uma identidade que dispensa grandes rupturas para seguir crescendo.
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Escrito por Murilo Bezerra I Editado por Ana Carolina Gomes


