Olivia Rodrigo e o ativismo através da arte
Olivia Rodrigo é uma das artistas que mais se posicionam na atualidade. A cantora ganhou maior notoriedade em 2021, ao lançar o seu primeiro álbum de estúdio, “Sour“. Porém, antes disso, ela esteve presente na mídia por conta de sua carreira como atriz, participando de trabalhos como “Bizaardvark” (2016) e “High School Musical: The Musical: The Series” (2019), sendo ambas séries da Disney.
Por mais que seja conhecida mundialmente, a artista nunca teve medo de deixar claro seus ideais, utilizando do talento, da fama e da arte para isso. Inclusive, ela já declarou, em entrevista para a BBC, que não se preocupa em conquistar ou perder fãs devido às suas opiniões. “Não acho que o meu objetivo seja ser amada por todo mundo. E quando você deixa de colocar isso como a sua principal motivação, acho que tudo se torna muito mais divertido e prazeroso”.
A jornalista especializada em política, Victória Moreira, acredita que quando uma artista da magnitude de Olivia se posiciona diante de questões sociais, ela amplia o alcance de debates que, muitas vezes, não recebem a atenção necessária. “Vivemos em uma sociedade marcada por diferentes visões políticas e culturais, e a arte pode ser um espaço importante para a reflexão. Quando uma artista utiliza sua visibilidade para falar sobre os direitos das mulheres, por exemplo, ela contribui para que essas questões cheguem a públicos diversos. Isso não significa que todos precisam concordar com ela, mas que o debate precisa existir e que as pessoas comecem a pensar”, reitera Victória.

Direito à liberdade de expressão
Olivia Rodrigo se posiciona abertamente contra as ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e do governo Trump. Além de ter declarado apoio à Kamala Harris na época das eleições presidenciais nos Estados Unidos, a cantora enfatizou ao atual governo que não usasse suas músicas para divulgações — o Departamento de Segurança Interna, em colaboração com a Casa Branca, utilizou a música “All-American Bitch” em uma propaganda que incentiva imigrantes sem documentação a se autodeportarem.
Ainda em relação às ações anti-imigração, Olivia se posicionou contra o ICE, dizendo que as ações da organização são inconcebíveis. “Estou com Minnesota”, escreveu no Instagram, após uma operação do ICE em Minneapolis, que causou duas mortes em janeiro deste ano. Ela também tinha criticado ações no governo do atual presidente em Los Angeles, declarando que a cidade simplesmente não existiria sem imigrantes. “Tratar membros trabalhadores da comunidade com tão pouco respeito, empatia e devido processo legal é terrível. Eu me solidarizo com a bela e diversa comunidade de Los Angeles e com os imigrantes em toda a América. Eu defendo nosso direito à liberdade de expressão e à liberdade de protestar”.

Ano passado, Olivia também se posicionou contra os ataques na Faixa de Gaza. “Não há palavras para descrever a dor que sinto ao testemunhar a devastação que está sendo infligida a pessoas inocentes na Palestina. Mães, pais e crianças em Gaza estão famintos, desidratados e sendo privados de acesso a cuidados médicos básicos e ajuda humanitária”, disse a artista. Além disso, ela incentivou os fãs a doarem para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), organização que fornece ajuda humanitária em Gaza e na Cisjordânia desde os anos 80.
Recentemente, no Daisy Chain Fields, Olivia encomendou à Nöl Collective um vestido para usar no festival. A marca é da designer palestina Yasmeen Mjalli, e sediada em Ramallah. Em uma entrevista concedida à Vogue Arabia, a designer descreveu a encomenda como uma ‘intervenção divina’, já que a alfândega israelense interrompeu o envio de uma remessa de tecidos importados da Índia e destruiu os produtos, levando sua marca à beira do fechamento. “Eu genuinamente pensei: talvez devêssemos parar, talvez este seja nosso último esforço. Eu estava tão cansada”, afirmou Yasmeen.

O vestido de modelagem curta e cor de rosa foi produzido na Palestina, em seda natural, e recebeu bordados tradicionais tatreez, com pássaros e margaridas, feitos por artesãs na Cisjordânia. Para Mjalli, Olivia usar o vestido no evento representou uma vitória não só para a marca, mas também para todos os envolvidos na produção da peça.
Olivia Rodrigo e o direito das mulheres
Olivia Rodrigo sempre se posicionou a favor dos direitos femininos, principalmente em relação à legalização do aborto e saúde reprodutiva. Em sua turnê mundial, do álbum Guts, a cantora colaborou com a organização Right by You para distribuir pílulas do dia seguinte, preservativos e cartões com informações sobre aborto para os fãs. Nos folhetos, havia uma frase que definia a campanha: “Funding abortion? It’s a good idea, right?” — “Financiar o aborto? É uma boa ideia, certo?” —, uma homenagem à música ‘Bad idea, right?’, que faz parte do álbum.

Em seu show em St. Louis, Missouri — estado que, em 2022, implementou uma das proibições de aborto mais severas do país — os fãs receberam kits com anticoncepcionais e cartões com QR codes para acessar recursos sobre aborto e sobre o Missouri Abortion Fund (MOAF). A organização fornece assistência financeira e educação pública para as residentes do estado que precisam de cuidados com o aborto e não podem arcar com os custos.
Contudo, dias após a distribuição, a equipe da artista notificou os fundos locais de aborto de que não poderiam mais distribuir anticoncepcionais de emergência e outros recursos de saúde reprodutiva nos shows por causa da presença de crianças no evento. Olivia também possui uma ONG defensora dos direitos reprodutivos das mulheres, a Fund 4 Good.
A Fund 4 Good é um projeto global idealizado pela artista junto com a Entertainment Industry Foundation. O projeto visa a construção de um futuro equitativo e justo para mulheres e meninas. Ademais, apoia diretamente organizações sem fins lucrativos que defendem a educação feminina, apoiam os direitos reprodutivos e previnem a violência de gênero.

“Nos shows, vejo que grande parte do público são garotas e mulheres jovens, e sinto uma responsabilidade de fazê-las se sentirem vistas e protegidas, seja nas músicas ou nas causas que apoio. […] Espero que no futuro, não precisemos mais de fundos para o aborto, e espero que eles sejam legais e acessíveis em todos os estados”, afirmou Olivia em entrevistas sobre a sua turnê e o trabalho da organização.
Inclusive, parte dos lucros da venda de ingressos da turnê mundial Guts foi destinada à esse projeto. Além disso, os lucros foram distribuídos para a National Network of Abortion Funds (NNAF), Nebraska Abortion Resources (Nebraskaar) e Iowa Abortion Acess Fund (Iaafund). Todas redes de acesso ao aborto nos Estados Unidos, entre outras organizações sem fins lucrativos que apoiam mulheres e meninas ao redor do mundo.
Em 2022, durante a sua apresentação no Festival de Glastonbury, Olivia criticou a decisão da Suprema Corte dos EUA de revogar o direito ao aborto garantido pelo caso Roe v. Wade. A cantora convidou Lilly Allen para cantar a música “Fuck You”, dedicando-a aos aos juízes responsáveis pela decisão. “Devastada e aterrorizada”, foram suas palavras em relação à essa decisão.

Nesse ano, ela reafirmou novamente o seu posicionamento, ao protagonizar um vídeo do Planned Parenthood — organização sem fins lucrativos que fornece serviços de saúde reprodutiva e educação sexual —, que destacou o fechamento de quase 30 centros de saúde da organização desde que a lei de “desfinanciamento” entrou em vigor. O clipe conta com a música “My Way” da cantora, que funcionou como preparação para o festival idealizado pela Olivia: o Daisy Chain Fields.
Daisy Chain Fields e serena joy
No dia 29 de agosto, aconteceu a primeira edição do Daisy Chain Fields, um festival com line-up 100% feminina, no Great Park, em Irvine, na Califórnia. Realizado e idealizado pela Olivia Rodrigo, o festival foi inspirado no Lilith Fair, um festival dos anos 90 criado por Sarah McLachlan, com um modelo semelhante de somente artistas femininas se apresentarem. O Daisy Chain Fields arrecadou US$ 20 milhões — sendo US$ 10 milhões com a venda de ingressos, valor que foi dobrado pela filantropa Melinda French Gates.
Toda arrecadação obtida foi destinada a organizações sem fins lucrativos voltadas à defesa, proteção e bem-estar de meninas e mulheres. Entre eles, destacam-se o Center for Reproductive Rights e o Johns Hopkins Center for Indigenous Health.
A programação do festival reuniu nomes como Chappell Roan, Doechii, Devon Again, Mitski, The Breeders, Garbage, Santigold, Bikini Kill, Rachel Chinouriri, Not for Radio, Die Spitz, Quiet Light e Eli. As artistas convidadas concordaram em não lucrar com as apresentações, reforçando o caráter beneficente do evento. Além de uma line-up completamente feminina, a organização do festival também priorizou fornecedores, artistas visuais e instalações gerenciadas por mulheres.

No dia 21 de agosto, dias antes do festival, Olivia lançou a música “serena joy”, exclusivamente na Analog Record Shop, uma loja de discos na Califórnia. Foram produzidas 500 cópias da canção em CD, que esgotaram no mesmo dia. A música chegou às plataformas digitais no dia 24.
serena joy é inspirada em uma das personagem da distopia “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood. Mas quem é Serena Joy?
Ela é a esposa de um dos comandantes responsáveis pela criação de Gilead, Fred Waterford. Gilead é um regime teocrático, na qual os direitos fundamentais das mulheres são completamente inexistentes, incluindo o controle sobre o próprio corpo. Serena Joy foi uma das peças fundamentais para a derrubada dos EUA, ação que possibilitou a criação de Gilead, já que ela defendia e propagava discursos conservadores. A grande questão é que, no atual regime, a própria Serena perdeu os direitos que ela mesma pregava contra. Antes, ela podia ler, escrever e ter voz na sociedade. Agora ela não pode se manifestar publicamente, nem exercer sua profissão de escritora.

A mensagem que a Olivia quis passar com essa música foi justamente essa: se você, como mulher, ajudar na construção de um sistema que vai contra os seus direitos, por achar que está do lado “certo”, você vai sofrer as consequências desse mesmo sistema. Assim, não é porque uma mulher apoia um regime autoritário e que inferioriza as próprias mulheres, que ela também não será inferiorizada.
“If they do it to them, they’ll do it to you” — “Se fazem isso com elas, vão fazer com você”.
O impacto do posicionamento para os fãs
Grande parte dos fãs da Olivia Rodrigo são engajados e defendem as causas sociais que ela defende. Tanto é que eles apoiam e acham extremamente necessário uma artista jovem como ela se posicionar em relação à esses assuntos na sociedade. Os fãs enxergam os posicionamentos da cantora como inspiradores, pois, com essa atitude, Olivia estimula aqueles que a acompanham a se interessarem por essas pautas. Sendo assim, o público que segue a artista se sente acolhido por ela, com uma fã base formada majoritariamente por mulheres e pessoas LGBTQIA+.
Para Victória Moreira, a influência pode acontecer, principalmente, porque muitas meninas enxergam artistas como referências. “Quando Olivia Rodrigo fala sobre os direitos das mulheres, ela pode estimular suas fãs a conhecerem melhor essas questões, desenvolverem o pensamento crítico e compreenderem a importância de seus próprios direitos. Mas é importante lembrar que nem todo mundo possui a mesma opinião, mas isso não a faz se tornar irrelevante como artista e defensora”, afirma a jornalista.

Dessa forma, a questão da visibilidade também é algo que agrada os fãs da cantora. Quando ela, sendo uma artista conhecida mundialmente, se posiciona a favor de temas como a legalização do aborto e direitos LGBTQIA+ e contra a ascensão do conservadorismo, a artista coloca essas pautas na mídia. Assim, faz com que essas causas ganhem relevância, atenção e destaque em escala global.
Olivia já declarou que sempre sentiu que falar o que pensa é importante. “Acho que é nosso trabalho, como artistas, tentar ao máximo refletir o mundo ao nosso redor da forma como o enxergamos. Ainda estou tentando entender o que isso significa para mim, e sempre existem coisas que sinto que posso aprender e fazer melhor”, afirma.
Nesse sentido, as afirmações da artista refletem no impacto causado nos fãs. A maioria deles vê a atitude da Olivia como corajosa e a tem como referência, gerando uma conexão com o seu público, que compartilha dos mesmos posicionamentos. É uma esperança para um mundo que está vivendo um retrocesso de valores políticos e morais.

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Escrito por: Carla Emile | Editado por: Maria Clara Machado


