Logomania
Tendências

Logotipo na moda: brega ou chique?

Da periferia às passarelas de luxo, a logomania revela como símbolos de status carregam disputas culturais, raciais e estéticas que vão muito além da roupa.

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Foto: Reprodução/Pinterest

Logotipos sempre dividiram opiniões no universo fashion. Para alguns, representam status, desejo e pertencimento. Para outros, são sinônimo de exagero, ostentação e falta de sofisticação. Mas reduzir a logomania a uma simples escolha estética ignora um ponto central: o logo carrega história, poder e disputa de narrativa. E, sobretudo, uma origem que não nasce nas passarelas.

O logo antes da logomania

O uso de logotipos na moda antecede em muito o debate contemporâneo. Ainda no século 19, a Louis Vuitton passou a estampar seus baús com monogramas como forma de evitar cópias e garantir autenticidade. Criado em 1892 por Georges Vuitton, o famoso padrão cumpria uma função prática e comercial, voltada à elite europeia da época.

No entanto, esse uso inicial estava longe de configurar uma tendência estética ou uma linguagem cultural. O logo era discreto, funcional e restrito a um público específico. A logomania, como a conhecemos hoje, nasce em outro contexto e em outro corpo.

Quando o logo vira linguagem

Foto: Reprodução/Pinterest

É nos anos 1980, em Nova Iorque, que o logotipo deixa de ser apenas marca registrada e passa a ser símbolo de afirmação. No Harlem, bairro majoritariamente negro e periférico, o estilista Dapper Dan começa a utilizar logos de grandes maisons em peças feitas sob medida para a sua comunidade.

Jaquetas de couro, conjuntos esportivos e silhuetas exageradas eram estampadas com símbolos do luxo europeu – um luxo que, historicamente, não havia sido feito para aqueles corpos nem para aquele território. Ao fazer isso, Dapper Dan não apenas criou estética: ressignificou o desejo.

A logomania nasce, então, como gesto político. Usar logos de forma escancarada era ocupar visualmente espaços negados, transformar exclusão em excesso e fazer do vestir uma declaração de poder.

Do incômodo à legitimação

Foto: Reprodução/Pinterest

Não é coincidência que essa estética tenha sido, por muito tempo, vista como vulgar, exagerada ou “brega”. Quando associada à periferia, ao hip-hop e à cultura negra, a logomania era tratada como mau gosto. O incômodo não estava no logo em si, mas em quem o vestia.

Anos depois, quando grandes marcas passam a incorporar essa mesma estética em suas coleções, ela ganha outro status: vira tendência, referência e desejo global. Portanto, a lógica se repete na moda: o que nasce marginalizado só é aceito quando legitimado pelo centro.

Logomania à brasileira

No Brasil, esse fenômeno também encontra ecos próprios. Marcas como a Cyclone, criada no Rio de Janeiro, e a Seaway, nascida em Pernambuco e ligada à cultura do surf, trabalham há décadas com estampas marcantes, logos evidentes e visual forte.

Associadas às ruas, às praias e a um estilo de vida fora do circuito tradicional do luxo, essas marcas muitas vezes foram classificadas como “exageradas” ou “populares demais”. No entanto, elas cumprem papel semelhante ao da logomania original: expressam identidade, pertencimento e desejo a partir de outros referenciais culturais.

Mais do que tendência, essas estampas contam histórias sobre território, classe e consumo no Brasil.

Afinal, brega ou chique?

Foto: Reprodução/Pinterest

A pergunta talvez esteja mal formulada. A logomania não é brega nem chique por natureza: ela é contextual. O julgamento muda conforme o corpo que veste, o espaço que ocupa e quem valida aquela estética.

Entender a origem da logomania é reconhecer que a moda não é neutra. É linguagem, é disputa simbólica e, muitas vezes, reflexo direto das desigualdades sociais. Assim, quando olhamos para os logos apenas como tendência, perdemos a chance de enxergar tudo o que eles comunicam.

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Escrito por: Samara Marques | Editado por: Maria Clara Machado

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