Tendências

Especial em homenagem ao legado de Giorgio Armani e Valentino na moda

“A elegância não é se destacar, mas ser lembrada.” — Giorgio Armani.

Estilistas italianos Valentino e Giorgio Armani participam de evento em foto de 1984
Foto: Vittoriano Rastelli / Getty Images

A moda italiana é marcada por nomes que redefiniram a elegância, a silhueta e a maneira de se vestir. Giorgio Armani e Valentino Garavani estão entre os nomes mais influentes da moda italiana no cenário global, representando duas formas distintas — e igualmente marcantes — de traduzir a elegância.

Como já disse Anna Wintour, editora-chefe da revista Vogue: “Armani veste pessoas. Versace veste amantes”. Apesar da frase mencionar apenas esses dois estilistas, seu sentido também pode ser associado à estética de Valentino. Ambos vestem mulheres a partir de uma elegância refinada, embora trabalhem com abordagens diferentes: Armani com uma linguagem mais clássica, formal e elegante; Valentino com romantismo, delicadeza e sofisticação, distanciando-se da extravagância característica de Versace.

Mesmo compartilhando algo em comum, cada um construiu uma identidade visual única.

Giorgio Armani: As origens de um ícone da moda italiana.

Sua trajetória começou no dia do seu nascimento, no dia 11 de julho de 1934, em uma pequena cidade ao sul de Milão, Piacenza. No começo, ele sonhava em se tornar médico, porém, após dois anos de estudos, decidiu abandonar o curso, percebendo que não possuía aquilo que precisava para seguir a profissão.

Giorgio Armani, em 1942
Foto: Vogue

“Eu tenho muitas memórias da minha infância. Eles definitivamente influenciaram meu trabalho. Eu lembro da elegância do meu pai e da minha mãe. Uma elegância simples. Era, principalmente, uma elegância interna, afinal, não tínhamos muito dinheiro”, se recorda no documentário “Made In Milan”, de 1991.

Após essa decisão, cumpriu serviço militar no exército italiano e, ao voltar à vida civil, mudou de direção e começou a trabalhar no setor da moda como vitrinista e auxiliar de vendas em uma loja de departamentos milanesa, a Rinascente.

Nos anos 1960, com sua experiência já consolidada, conseguiu um emprego de designer no ateliê de Nino Cerruti, onde aprendeu a arte da alfaiataria, um dos grandes pilares de sua carreira.

“Eu entrei na moda quase que por acidente e, depois, foi crescendo em mim até me absorver completamente, roubando toda a minha vida (…) Nunca pensei em entrar na moda, mas eu acidentalmente consegui pessoas que trabalhavam na indústria em diferentes áreas, do marketing até a distribuição. Percebi então que poderia acrescentar em algo criativamente, então eu aceitei entrar para uma grande marca de moda e cuidar da linha masculina, cuidando de tudo de design do zero, ou o que um tecido realmente era. E acabei não fazendo faculdade de moda, como Saint Martins ou o Instituto Marangoni”, revelou sobre sua trajetória.

Com o apoio de seu parceiro e amigo Sergio Galeotti, fundou, em 1975, sua própria marca, a Giorgio Armani S.p.A., lançando roupas prêt-à-porter masculinas e femininas. Para viabilizar o negócio, ambos venderam um Volkswagen Fusca por dez mil dólares, valor que possibilitou o início da marca.

Giorgio Armani
Foto: Vogue / Cortesia de Giorgio Armani

Assim, o terno Armani tornou-se um item indispensável no guarda-roupa masculino e, para as mulheres, foi quase revolucionária a introdução do tailleur para o trabalho executivo, apelidado de power suit, nos anos 1980.

Hollywood

Armani alcançou sucesso instantâneo com um novo estilo: a jaqueta esportiva combinada com uma simples camiseta, algo que ele próprio chamava de “o alfa eo ômega do alfabeto da moda”.

Filmes clássicos dos anos 1980, como American Gigolo, lançaram tanto Armani quanto Richard Gere a Hollywood. Dessa forma, o estilista se tornou o nome mais popular do cinema, vestindo atores em mais de 200 filmes. Entre seus devotos estão nomes como Anne Hathaway, Sean Penn, Jodie Foster, George Clooney, Sophia Loren e Brad Pitt.

Seu impacto no mundo da moda e do cinema foi muito significativo devido ao seu jeito único, conhecido por supervisionar cada detalhe de seu império, dos designs das coleções à publicidade. Por isso, Armani se consolidou como um pilar da cultura e da economia italiana.

Mas sua influência não parou apenas nas roupas. A marca expandiu para acessórios, perfumes, maquiagens, roupas esportivas e linhas com preços mais acessíveis. Fundou a Emporio Armani, em 1981, com o objetivo de ser uma linha mais jovial, moderna e acessível (“democratizada”) do que a Giorgio Armani.

Giorgio Armani se despediu de seu parceiro Galeotti em 1985 e, mesmo diante da dor da perda, encontrou forças para seguir adiante, construindo sua carreira e consolidando seu império.

Giorgio Armani e Sergio Galeotti, na década de 1970.

Após a perda de Sergio Galeotti, Giorgio Armani se reergueu e seguiu ampliando seu legado; o reconhecimento veio em 2003, quando se tornou o primeiro estilista a conquistar um espaço na “Calçada da Fama” da Rodeo Drive, um dos endereços mais luxuosos da moda.

Impacto e inovação

Com o crescimento de sua marca, Armani passou a ser reconhecido de diversas formas. Começando em 1987, com o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito da República Italiana. Quinze anos depois, tornou-se embaixador do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Já em 2008, passou a integrar a Legião de Honra Francesa e, assim, adquiriu o time de basquete Olimpia Milano.

Sua criação também chamou a atenção da realeza. Em 2006, assinou o vestido que uniu Katie Holmes e Tom Cruise e, em 2011, criou os vestidos de casamento e recepção de Charlene, princesa de Mônaco, esposa do príncipe Albert. Além disso, desenvolveu figurinos para shows de artistas como Beyoncé e Lady Gaga.

Giorgio Armani com modelos no desfile de alta-costura Giorgio Armani Privé Primavera 2025 em Paris — Foto: Giorgio Armani / O GLOBO

Em 2007, foi um dos primeiros estilistas a transmitir desfiles de alta-costura pela internet. Durante a pandemia da Covid-19, em 2020, foi o primeiro grande nome da moda a cancelar um desfile presencial e realizá-lo online. Além disso, doou cerca de dois milhões de euros para hospitais italianos e para a Agência de Proteção Civil, adaptando fábricas de sua marca para a produção de equipamentos médicos.

Valentino Garavani

Nascido no norte da Itália, em Voghera, no ano de 1932, Valentino Clemente Ludovico Garavani desenvolveu desde jovem um olhar atento para o figurino, inspirado pelos filmes hollywoodianos que assistia.

Ao atingir a maioridade, mudou-se para a França, onde aprendeu os códigos da alta-costura parisiense. Posteriormente, em 1959, retornou a Roma para abrir um estúdio na Via Condotti. Pouco tempo depois, conheceu Giancarlo Giammetti, que se tornou seu parceiro nos negócios e na vida.

Em 1962, fundaram juntos a maison no Palazzo Pitti, em Florença, onde foram reconhecidos internacionalmente como um símbolo do luxo italiano. Diferente de Armani, Valentino se formou na École des Beaux-Arts e na Chambre Syndicale de la Couture, em Paris, aprimorando técnicas ao lado de mestres como Jean Dessès e Guy Laroche.

Origem do Vermelho Valentino

Seu trabalho foi marcado por linhas limpas, uso de chiffon, laços, flores e pelo contraste elegante entre preto e branco. Entretanto, algo se destacou fortemente em sua identidade: o icônico “vermelho Valentino”.

Valentino – Foto: Vogue.

“Enquanto todos vivemos em um mundo de distrações, desde a hora em que acordo me concentro em um único objetivo: comunicar beleza e perfeição” — Valentino Garavani.

O tom vibrante transitou entre o feminino, o social e o glamour, sendo criado em 1950, inspirado por uma mulher vestida de vermelho na ópera de Barcelona. Mas, o tom estreou oficialmente na coleção Fiesta, em 1959.

Dessa forma, conquistou grandes clientes, como Jackie Kennedy Onassis, Elizabeth Taylor, Sophia Loren e princesas europeias.

Inovação

Valentino também se destacou pela inovação. Lançou o projeto “Open for a Change”, utilizando materiais reciclados em seus tênis icônicos, buscando alternativas ao couro e ao poliéster. Além disso, lançou refis para suas linhas de maquiagem e passou a utilizar 100% de energia renovável em suas instalações.

Sua história se fortaleceu não apenas com as passarelas, mas também com lançamentos de acessórios e prêt-à-porter. Seu relacionamento pessoal e profissional com Giammetti ajudou a construir, então, o mito do grande couturier moderno.

Um legado eterno

Um veio do sul e o outro do norte da Itália. Apesar de origens distintas, seus caminhos sempre se conectaram por uma mesma paixão: a moda.

Armani encontrou uma forma de expressar a elegância por meio da alfaiataria e do minimalismo, enquanto Valentino construiu um universo de romantismo, luxo e emoção em suas criações.

Embora ambos já tenham partido, seus legados seguem vivos. Em cada tecido, em cada cor e em cada detalhe, suas visões continuam atravessando o tempo. Acima de tudo, Armani e Valentino não apenas vestiram corpos, mas ajudaram a construir memórias, estilos e uma ideia de elegância que permanece.

“A elegância verdadeira não é tendência passageira, mas aquilo que permanece”.

Escrito por: Luiza Zaninelli | Editado por: Flavia Cavalcante

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *