Cultura,  Música

Confessions II, de Madonna, convida o mundo para a pista de dança

Vinte anos após redefinir o cenário da música pop mundial, Madonna está de volta ao estilo que marcou uma das eras mais bem-sucedidas de sua carreira. No dia 3 de julho, a cantora lançou Confessions II, seu décimo quinto álbum de estúdio. O projeto quebra uma regra histórica em sua trajetória de constante mudança: em vez de buscar uma estética visual e sonora completamente inédita, a artista escolheu revisitar, expandir e atualizar a atmosfera eletrônica que dominou o mundo na década de 2000.

Para a alegria dos fãs mais puristas, o novo disco segue rigorosamente o mesmo padrão estrutural do clássico de 2005: uma linha contínua de transições fluidas entre as faixas, transformando a audição do álbum em um set ininterrupto de pista de dança.

Luto e escapismo na construção do novo álbum de Madonna

Embora o resultado final convide ao movimento, o pano de fundo que moldou o processo de composição de Confessions II é profundamente pessoal e marcado pela dor. Nos últimos anos, a cantora enfrentou uma sequência de perdas familiares significativas: a morte de seu irmão mais velho, Anthony, no início de 2023, seguida pelo falecimento de sua madrasta, Joan Gustafson Ciccone, em setembro de 2024, e de seu irmão e ex-colaborador criativo, Christopher Ciccone, apenas um mês depois.

O luto e a proximidade com a própria mortalidade, intensificada por uma grave infecção bacteriana que a deixou em coma em 2023, acabaram servindo de combustível para o estúdio. Ao lado do produtor Stuart Price, Madonna transformou o estúdio em um refúgio para digerir a perda por meio das batidas pesadas do house e do synth-pop.

O fator mercado e o contexto sobre etarismo

Para além do tom confessional e das pistas de dança, o álbum emoldura e reascende o debate sobre o espaço reservado às mulheres maduras na cultura pop. Aos 67 anos, Madonna continua sendo o principal alvo de cobranças sobre envelhecimento na indústria da música.

Muitas vezes associada ao lançamento recente, a sua fala mais contundente e viral sobre o tema foi dita, na verdade, em fevereiro de 2023, logo após a sua aparição no Grammy Awards. Na ocasião, após ser alvo de comentários preconceituosos sobre sua aparência, a artista utilizou suas redes sociais para rebater as críticas de forma direta:

“Mais uma vez, fui pega no reflexo do etarismo e da misoginia que permeiam o mundo em que vivemos. Um mundo que se recusa a celebrar as mulheres que passam dos 45 anos e sente a necessidade de puni-las se elas continuarem obstinadas, trabalhadoras e aventureiras. Eu nunca me desculpei por nenhuma das escolhas criativas que fiz, nem pela minha aparência ou pela forma como me visto, e não vou começar agora.”

Essa postura de enfrentamento estende-se a Confessions II, em que a cantora deixa claro que não pretende se adequar às expectativas tradicionais de aposentadoria ou recolhimento.

Encontro de gerações e o fenômeno das redes

O grande destaque comercial do álbum fica por conta de “Bring Your Love”, uma colaboração com a cantora Sabrina Carpenter. A faixa une a sensibilidade pop contemporânea de Carpenter à bagagem eletrônica de Madonna, servindo como o primeiro grande cartão de visitas dessa nova era.

Logo em seguida, na tracklist, o álbum entrega um dos momentos mais comentados na internet: a faixa “Danceteria”. A música rapidamente se tornou a favorita de grande parte do público e vem ganhando enorme tração e repercussão nas redes sociais, impulsionada pelo ritmo nostálgico que evoca diretamente os tempos de ouro dos clubes noturnos de Nova York.

Longe de se isolar, a Rainha do Pop abriu espaço para um verdadeiro mosaico de sonoridades atuais por meio de participações estratégicas. O álbum conta ainda com colaborações do cantor colombiano Feid na faixa “Read My Lips”, do produtor e DJ Martin Garrix em “Bizarre”, do artista belga Stromae em “My Sins Are My Savior”, e de sua filha primogênita, Lola Leon, na canção “The Test”.

Confessions II chega ao mercado não com o objetivo de competir desesperadamente pelas métricas de streaming com a geração mais jovem, mas como a afirmação de um legado vivo. Ao documentar suas dores e sua maturidade por meio do ritmo, Madonna reafirma a pista de dança como o seu eterno espaço de trabalho e cura.

Everybody get up and dance!

Leia mais sobre moda, beleza e cultura pop no Fashionlismo.

Escrito por: Gustavo Xavier | Editado por: Maria Clara Machado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *