A ameaça da moda ao futebol “raiz” masculino
Jules Koundé, blokecore, identidade masculina e o novo estilo em campo
A moda não deve ser vista como ameaça dentro da cultura esportiva. Pelo contrário, ela sempre esteve presente no esporte; não à toa, definimos os torcedores pelo uniforme do time que vestem. O que mudou nos últimos anos foi que, talvez, esse fenômeno ultrapassou a arquibancada e entrou em campo, à medida que atletas passaram a usar a moda para se expressar, como fazemos no dia a dia. E poucos jogadores representam isso tão bem quanto Jules Koundé.

O defensor do Barcelona e da seleção da França virou personagem frequente nas revistas de moda por seus looks de streetwear. Koundé já apareceu em concentrações da seleção francesa usando saia plissada de Simone Rocha, gravata colorida, botas de salto cowboy, bolsas Louis Vuitton e peças da Comme des Garçons. Entre o oversized, o vintage e o luxo, o jogador passou a ocupar um espaço ainda raro no futebol masculino: o de atleta que usa a roupa intencionalmente para afirmar sua personalidade. Algo até então considerado “de mulher” no meio esportivo.


Em entrevista à Vogue França, ele diz que seu estilo é “versátil e camaleônico” e afirma que nunca quis ter stylist, pois gosta de escolher sozinho suas roupas. Já em entrevista à GQ, o defensor deixa claro que a moda é um meio de expressão para si mesmo.
Nova geração, nova tradição
Nas redes sociais, muitos elogiam a ousadia do jogador, enquanto outros consideram seus looks exagerados para o universo do futebol. Apesar dos muitos comentários ironizando suas produções, as novas gerações, em sua maioria, defendem Koundé como “o jogador mais estiloso do futebol atual” e símbolo de uma geração menos presa às regras tradicionais de masculinidade.
A revista Vogue França afirmou que Koundé ajuda a recolocar em debate “a rigidez dos códigos da masculinidade no futebol”, especialmente após o francês aparecer usando peças historicamente associadas ao guarda-roupa feminino. Enquanto isso, a GQ destacou que a seleção francesa se transformou em uma das equipes “mais bem vestidas do esporte”, aproximando o futebol das semanas de moda e do luxo contemporâneo.

Em 2024, Koundé estrelou uma campanha da Jacquemus, marca francesa conhecida entre a geração Z. Mais recentemente, em 2025, foi escolhido para a campanha de estreia da linha SR_A Engineered, parceria entre Samuel Ross e Zara.

O esportista, hoje, se tornou uma referência estética disputada pelas marcas e ajuda a construir essa ponte de diálogo com o público que consome moda nas redes sociais e, ao mesmo tempo, aprecia o esporte.
Além do futebol: a consolidação do Blokecore na moda universal
Nos últimos anos, com o fenômeno do blokecore, camisetas de time deixaram de ser exclusividade de torcedores para se tornarem peças centrais do streetwear global.

Segundo a GQ Alemanha, o blokecore nasceu da mistura entre a cultura de arquibancada e a moda urbana, impulsionada principalmente pelo TikTok e pela geração Z. O visual gira em torno de camisas retrô de futebol, tracksuits Adidas, jeans largos e tênis vintage: uma estética inspirada nos torcedores ingleses dos anos 1990.
Hoje, o footballcore ou blokecore transformou camisas esportivas em itens fashion desejados fora dos estádios, aparecendo em passarelas, semanas de moda e looks de celebridades. O uniforme, além de representar paixão pelo clube, comunica estilo, memória afetiva e um pertencimento cultural.
No Brasil, a tendência também ganhou força e colocou em debate a ideia ultrapassada de que homens usando camisa de time “não estão arrumados”, já que o futebol passou a atravessar definitivamente a cultura da moda.

Essa mudança mostra que a moda pode funcionar como ferramenta de força dentro do esporte. Quando atletas como Koundé usam roupas ousadas, eles desafiam a ideia de que a masculinidade precisa ser rígida.
A quebra de padrões repressivos no futebol
No livro “O Segundo Sexo”, Simone Beauvoir discute como a sociedade constrói os papéis de gênero e os transforma em normas aparentemente “naturais”. A filósofa afirma que homens não nascem naturalmente associados à força ou agressividade, mas, na verdade, essas características são ensinadas, cobradas e repetidas socialmente. Assim, o futebol tornou-se, historicamente, um dos principais espaços de reprodução dessa masculinidade rígida.
Dentro da cultura esportiva tradicional, existe uma expectativa sobre como um jogador deve agir, se vestir e se comportar. O atleta idealizado costuma ser forte, competitivo, pouco vulnerável e distante de qualquer elemento associado ao feminino.
Beauvoir explica que a sociedade cria oposições rígidas entre masculino e feminino, em que o homem é frequentemente associado à razão, poder e ação, enquanto a mulher é ligada à aparência, sensibilidade e ornamentação. Durante muito tempo, a sociedade colocou a moda nesse segundo campo, enxergando-a como algo superficial ou feminino demais para o universo esportivo masculino. Por isso, quando jogadores demonstram interesse por moda, muitas pessoas tentam questionar sua masculinidade, como se estilo e força fossem incompatíveis. Na realidade, o que acontece é a necessidade constante de policiar corpos e comportamentos para manter intacta uma ideia tradicional de gênero.
Para Beauvoir, a masculinidade não é natural nem fixa, mas construída culturalmente, e como qualquer construção social, pode ser transformada. E talvez seja justamente isso que incomode parte do público: perceber que o esporte contemporâneo já não cabe mais em modelos antigos de comportamento masculino.
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Escrito por: Júlia de Moura | Editado por: Maria Clara Machado


