Análise do EP “LITTLE HOUSE”, de Rachel Chinouriri
A inglesa de 27 anos, Rachel Chinouriri, vem ganhando espaço no cenário mundial nos últimos anos, principalmente após seu álbum de estreia, “What a Devastating Turn of Events”, lançado em 2024. A cantora ganhou o coração da Gen Z por suas letras confessionais, intimistas e por trazer sua vivência enquanto mulher negra sobre o que é amor, família e crescer no mundo de hoje.

Origem e influências de Rachel Chinouriri
Filha de pais zimbabuanos, a cantora cresceu em Caterham, no condado de Surrey, onde teve suas primeiras experiências com a música, que vieram a influenciar seu trabalho.
Desde 2018, Chinouriri vem lançando EPs que experimentam seus gostos por indie rock, indie pop e R&B. O último, entretanto, foi causador de alguns inconvenientes à cantora. Chinouriri se pronunciou abertamente em suas redes sociais, no ano de 2022, afirmando: “Artistas negros fazendo indie não é confuso”. Na época, a artista teve seu trabalho constantemente enquadrado na categoria de R&B, jazz e soul, tanto por parte do público quanto da mídia, mesmo que seus projetos sejam essencialmente indie pop e alternativo.
Apesar dos inconvenientes, Rachel segue firme nos presenteando com músicas emotivas, alternativas e imersivas. Assim é o caso do seu último EP, “Little House“, no qual nos convida a entrar na sua pequena casa, cheia de euforia, inseguranças e esperança.
O lançamento de “Little House”
O EP começa com a canção “Can We Talk About Isaac”, na qual Chinouriri nos apresenta Isaac, e sua paixão pelo rapaz. Dessa forma, a música narra com perfeição o que é se apaixonar por alguém nos dias de hoje e como a euforia do sentimento se mescla com a ansiedade de ser magoada novamente. A cantora canta até sobre não falar de outro assunto com os amigos, por longas semanas. A sonoridade reforça isso por meio de um som tão frenético e alegre quanto a ansiedade de Rachel nessa nova paixão.
O disco traça uma linha cronológica de um relacionamento com começo, meio e fim, pela visão de Rachel, de forma intimista, identificável e imersiva. A sonoridade de cada música nos transporta, então, para o mundo de Chinouriri, enquanto ouvimos sua história e nos lembramos de nossas próprias vivências.
Um destaque especial vai para as músicas “23:42” e “Indigo”, em que a sonoridade e produção elevam o patamar do EP quase à perfeição, trazendo, assim, melodias que nos transportam para o universo do álbum.
A sonoridade frenética e infantil de “23:42” lembra as brincadeiras que toda menina fazia na infância sobre com quem irá casar. Já os sons vocais ao final da música “Indigo” remetem ao vento soprando pela janela, e o fantasma da promessa do que o casal seria e do que eles foram por um tempo.

“What a Life” também chama atenção, por ser a última música da primeira versão do EP e terminar com um manifesto de amor à Isaac (ou ao amor que ela sentiu). Nesse momento, Rachel idealiza uma vida estável e comum, como nas cenas de fim das comédias românticas, em que ela se pergunta se conseguirá essa vida ao lado do seu amor. Por fim, isso soa quase como um último suspiro antes da derrocada de aceitar que, mesmo tendo mais um amor perdido, o amor dentro de si mesma se mantém e sempre se manterá.
A quebra de ritmo no EP
No entanto, a última música do EP, “Little House”, quebra a linha cronológica e a elegância do disco. Apesar da sonoridade ainda ser melancólica, ela possui efeitos que trazem certa atualidade, nos apresentando uma versão mais esperançosa e aconchegante da música anterior. Nela, Chinouriri substitui o medo pela certeza do amor que sente por seu (ainda?) namorado, a leveza que chegou em sua vida junto com um amor saudável e a esperança de um futuro tranquilo.
O disco, até “What a Life”, possui um trabalho tão maestral entre melodia imersiva e composição, que é como assistir um filme indie sem as telas. Todavia, apesar de esperançoso, a canção “Little House” quebra a potência do disco, que havia chegado a seu ápice com “What a Life”.
Um dos pontos principais desse ruído é a similaridade melódica e a letra entre as faixas, sendo a primeira mais dramática e a segunda mais esperançosa, perdendo sua potência e linha narrativa. Nesse sentido, abdica de um de seus pontos altos: a ambiguidade de não saber o que aconteceu naquele relacionamento.
No geral, é um ótimo EP! Rachel e sua equipe se esforçam e conseguem trazer uma complexidade que falta à indústria musical atual. Entretanto, a nova música adicionada ao disco prejudicou a percepção do excelente trabalho construído na primeira versão.
Nota: 4/5
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Escrito por: Millena Santiago | Editado por: Maria Clara Machado


