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Raízes e fios: o uso do crochê no álbum da Anitta

Há quem diga que quanto maior a árvore, maior precisam ser suas raízes. O tanto que se floresce para cima, se ornamenta na primavera, é o mesmo que se enraíza profundamente. Furando o chão e levantando calçadas, desde o início de sua carreira, Anitta floresce em EQUILIBRIVM.

O oitavo álbum da artista foi lançado em abril de 2026 e dividido em duas partes, exalta as raízes da cantora e sua religião. As mais de trinta faixas, EQUILIBRIVM I e II o álbum mistura pop, mpb, bossa nova, hip hop e tecno indígena.

E como uma boa diva pop, Anitta tem entregado nos looks e nos clipes. O que tem chamado atenção são as peças de crochê elaboradas e que contam a história junto dos clipes e das letras.

Na matéria de hoje o tema é justamente crochê, ancestralidade e inteligência humana!

Cultura está aqui e agora no ar que rodeia

Apesar de não sabermos exatamente quando e onde o crochê surgiu, sabe-se que ele é uma arte e um saber milenar que atravessa diferentes povos de diferentes formas.

No contexto latinoamericano, os povos andinos são grande referência em tecelagem. As peças coloridas, feitas em tear, são visualmente marcantes e carregam a história do povo. Algo similar ao tatreez para o povo palestino. 

O artesanato, a arte em geral, é a expressão de um povo em seu tempo e da mesma forma que é influenciada, influencia a cultura. A cultura, como disse brilhantemente Gilberto Gil, é ordinária.

É nosso feijão com arroz, é a rabiola da pipa enrolada no fio do poste em época de férias. 

Okê, artesanato e a sabedoria ancestral

O artesanato dos povos indígenas brasileiros é marcado pela produção de cestos, pulseiras, colares, brincos e mandalas. As tramas dos cestos e mandalas são formas de trançar as fibras vegetais colhidas na natureza.

“O trançado de fibras vegetais é uma das artesanias mais antigas do mundo. A partir de técnicas e conhecimentos transmitidos ao longo de gerações, as artesãs de comunidades tradicionais da Amazônia criam manualmente seus artesanatos, utilizando matérias-primas da floresta”, é a descrição de um cesto disponível no site Tucum, focado na venda de arte indígena.

De forma similar, a produção têxtil, e o crochê se encaixa aqui, é “tramar” fios de forma padronizada para gerar o tecido. Os fios são entrelaçados de forma vertical e horizontal várias vezes. 

A música Okê, última faixa de EQUILIBRVM II, é um feat com Katú Mirim e Brô Mc’s e exalta a cultura e os povos indígenas brasileiros. Tanto Katú quanto os membros do Brô são artistas indígenas e compõem a faixa mais memorável do álbum.

Na letra, além do nome de nações indígenas existe a passagem “nada na mata me mata, nada me escapa”. Mais do que a genialidade lírica e artística, o verso se conecta com outro trecho que descreve a arte indigena do site Tucum. “Cada Cesto nasce no tempo da floresta, em um processo que respeita os ciclos naturais e os conhecimentos transmitidos entre gerações”, diz. 

Mais que tendência, ancestralidade

Portanto, é perceptível como o álbum se conecta com a arte e a ancestralidade brasileira de forma profunda. 

É comum que se ouça “nada sobre nós sem nós” quando o tema atravessa alguma minoria. Um 8 de março sem uma mulher falando é uma cena de The Office.

Nesse sentido, Anitta fazer um feat com artistas indígenas e usar roupas de crochê de uma marca autoral baiana é estar enraizada com sua cultura e utilizar de sua influência para ecoar mensagens.

Em 2024 a cantora utilizou a marca Favorito Crochê e em uma semana a fundadora faturou 35 mil reais. Agora, em 2026, quem assina os figurinos da cantora é o Ateliê Mão de Mãe. 

Com um vibe tropical e com referências à MPB, o Ateliê é de Salvador e foi fundado por Vinicius Santana e seu sócio e namorado, Patrick Fortuna.

Coragem vem de dentro

A história nasce justamente das mãos de Luciene, artesã e mãe de Vincius. Percebendo como a arte de sua mãe era vendida a preços baixos, ele criou uma marca voltada a valorizar, exaltar e abrilhantar o trabalho das crocheteiras. As peças são majestosas e o Ateliê chegou a integrar a SPFW. 

Sinto que essa frase tem virado um mantra, mas é importante reforçar e até complementar. Moda não é fútil, banal e embora seja produzida e voltada majoritariamente para mulheres, não é feminina.
Moda é arte, arte é humana. O crochê é uma herança artesanal milenar, passada de mãe para seus filhos. Filhos que crescem e valorizam o trabalho intelectual e artístico de suas mães.

O álbum conta com uma música tocante chamada “Deus mãe” e conecta esse fio que une mulheres e suas mães por eras. O Brasil conta com 11 milhões de mães solo. 83% dos “artesãos” brasileiros na verdade são artesãs. As mulheres movimentam o segundo setor que mais gera PIB no Brasil. 

A música é linda e arrepia de ouvir e lembrar. Pois celebra a ancestralidade, a conexão profunda com quem nos deu a vida, com quem nos protege, com a cultura, os saberes e a beleza e genialidade da música brasileira. 

Os usos de crochê nos clipes, entrevistas e aparições é mais um reforço de toda a ideia e energia do álbum: enraizar, honrar e olhar para os nossos. E nesse movimento, sabemos quem e como somos.

Para fechar com chave de ouro, vamos contemplar as obras de arte, feitas com fio e agulha usadas pela Anitta em seus clipes!

As peças variaram em cor, movimento, textura e a forma da trama era mais aberta e fluida ou mais fechada. O crochê sendo crochê: versátil e icônico.

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Escrito por Geovana Nunes I Editado por Ana Carolina Gomes 

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