De Mary Jane a MJ: como o Homem-Aranha mudou suas protagonistas
As diferentes adaptações do Homem-Aranha também marcaram a evolução de suas protagonistas femininas. De Mary Jane Watson à MJ de Zendaya, as namoradas de Peter Parker passaram por mudanças na estética, no figurino e na personalidade, refletindo transformações nos padrões de beleza, na moda e na representação feminina na cultura pop. O tema ganha destaque nas redes sociais, onde comparações entre essas personagens reacenderam o debate sobre como cada geração constrói seus próprios símbolos de feminilidade.



Mary Jane Watson: “a garota ao lado” de Peter Parker
Cada interesse amoroso de Peter Parker representa um momento diferente da forma como Hollywood enxergava as mulheres. A evolução vai de uma personagem que precisava ser salva constantemente para uma mulher com agência própria e papel decisivo na narrativa. Mary Jane Watson (Kirsten Dunst) da trilogia de Sam Raimi (2002-2007) é construída como um “troféu emocional” de Peter Parker.

Ela possui sonhos, pois quer se tornar atriz, enfrenta dificuldades familiares e busca independência, mas a narrativa frequentemente a coloca em posição de vulnerabilidade. Ela é sequestrada diversas vezes pelos vilões, é a principal motivação emocional do Homem-Aranha, sua história existe quase sempre em relação ao Peter. Mary Jane representa o arquétipo clássico da “garota ao lado”. O romance é intenso e melodramático, refletindo o estilo dos filmes de super-herói do início dos anos 2000.
Como o figurino de Mary Jane reflete sua personalidade?
O figurinista da primeira trilogia é James Acheson (com a colaboração de John Galliano e Gary Jones no 2, e Katina Le Kerr no 3), que atuou em colaboração com o departamento de figurino. O guarda-roupa da Mary Jane é construído para reforçar sua imagem de musa romântica. Portanto, ela veste roupas em tons de rosa, vermelho e branco, vestidos delicados, saias, tricôs, calça jeans de cintura baixa (tendência nos anos 2000), além de usar seu cabelo longo, solto e ruivo.

As cores quentes aproximam Mary Jane da paixão e do romantismo. Já as peças mais delicadas reforçam sua vulnerabilidade. Mesmo quando tenta se afirmar como atriz, seu figurino continua bastante convencional. Ela veste roupas que a tornam facilmente identificável como a “garota perfeita” para Peter. A famosa cena do beijo de cabeça para baixo ilustra isso perfeitamente: o vestido rosa, o batom vermelho e o cabelo molhado criam uma imagem romantizada e quase “de conto de fadas”, mas que também sexualiza Mary Jane.

Gwen Stacy: inteligência, independência e parceria com Peter
Quando Marc Webb reinicia a franquia em 2012, há uma mudança importante. Gwen deixa de ser apenas alguém a ser protegida. As características centrais da personagem é que ela é muito inteligente, trabalha em laboratório, ajuda Peter em questões científicas, participa das decisões e confronta Peter quando discorda dele. Mesmo que precise ser salva em alguns momentos, Gwen também salva Peter diversas vezes.

Sua morte em “O Espetacular Homem-Aranha 2” marca justamente a quebra da expectativa do “final feliz”, tornando-se uma das perdas mais importantes da história do personagem, que inclusive, é lembrada em “Homem Aranha: Sem Volta para Casa” (2021, dir: Jon Watts).
Como o figurino de Gwen Stacy representa sua personalidade?
A figurinista do primeiro filme da duologia “Espetacular Homem Aranha” (dir: Mark Webb) é Kym Barrett, já a do segundo filme é Deborah Lynn Scott. A Gwen de Emma Stone rompe bastante com a Mary Jane dos anos 2000. Seu figurino é inspirado em estudantes universitárias e jovens cientistas. Gwen Stacy veste bastante trench coats, jaquetas, cachecóis, botas, vestidos retos, botas, cardigans e roupas confortáveis. A paleta de cores das roupas costuma misturar tons de azul, verde, vinho, cinza e mostarda, que são cores que transmitem maturidade e inteligência.

A personagem quase nunca aparece excessivamente produzida. O cabelo é (aparentemente) natural, a maquiagem é discreta e as roupas parecem realmente pertencer a alguém que estuda, trabalha em laboratório e precisa se movimentar. O figurino evita que Gwen seja sexualizada. Além disso, ela não é apresentada como “a garota mais bonita da escola”, mas como alguém cuja personalidade e inteligência são tão atraentes quanto sua aparência. Portanto, o figurino comunica que ela é competente, independente e resolve problemas.
MJ de Zendaya: a desconstrução da namorada do Homem-Aranha
Na série de filmes do Homem-Aranha do MCU (Universo Cinematográfico da Marvel), no qual o primeiro filme foi “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” (2017, dir: Jon Watts), muitos fãs esperavam uma adaptação tradicional de Mary Jane Watson. Porém, a Marvel criou uma personagem diferente. Isso começa pelo nome, já que MJ é abreviação de Michelle Jones. Ela é muito sarcástica, introvertida, observadora e emocionalmente fechada. Ela não foi escrita como “a garota popular” ou “a mulher mais bonita da escola”. Ela conquista Peter pela inteligência, humor e sensibilidade.

Ao longo dos filmes, MJ cresce bastante, pois percebe que Peter realmente é em “Longe de Casa” (2019, dir: Jon Watts). Em “Sem Volta para Casa” (2021, dir: Jon Watts), ela se torna sua principal aliada, além de participar das estratégias de enfrentamento aos vilões e tomar decisões difíceis ao lado dele. Mesmo assim, muitos críticos apontaram que a personagem ainda tinha pouco espaço para existir fora da história de Peter. Ela era importante emocionalmente, mas sua trajetória individual permanecia limitada.
Depois do feitiço de “Sem Volta para Casa”, MJ não lembra quem Peter é. Isso cria uma oportunidade inédita: pela primeira vez, ela pode ser desenvolvida como personagem independentemente do relacionamento romântico que tinha com Peter. Em “Um Novo Dia” (2026, dir: Destin Daniel Cretton), MJ possui mais protagonismo, o que dá a oportunidade de explorar conflitos próprios, permitindo que ela exista além do papel de “namorada do Homem-Aranha”. Além disso, a mudança também amplia o espaço para que Zendaya demonstre um alcance dramático que os filmes anteriores exploraram apenas parcialmente.

Como o figurino de MJ reflete sua personalidade?
No primeiro filme da quadrilogia (De Volta ao Lar), a figurinista foi Louise Frogley. Em “Longe de Casa” quem assumiu esse papel foi Anna B. Sheppard. Já nos últimos dois filmes (Sem Volta para Casa e Um Novo Dia), a função foi liderada por Sanja Milkovic Hays. MJ quebra todas as expectativas de uma “Mary Jane” o que é mostrado em suas roupas, que parecem ter sido escolhidas por ela e não pelo olhar do protagonista.
No guarda-roupa de MJ dominam camisetas listradas, camisas de flanela, moletons, calças largas, tênis e jaquetas oversized. A paleta de cores é composta por marrom, mostarda, vinho, verde-musgo e preto, que são cores terrosas e pouco chamativas. Rosa e vermelho não são cores que vemos ela vestindo e que estão tradicionalmente associadas à primeira Mary Jane.

Esse visual conversa com sua personalidade, cujas características já foram citadas antes. Ela parece mais interessada em conforto do que em agradar o olhar dos outros. É quase um anti-look de protagonista romântica. Além disso, as roupas largas funcionam como uma espécie de armadura emocional. MJ demora a demonstrar seus sentimentos, e seu figurino acompanha essa postura mais fechada. Portanto, o figurino comunica que ela não precisa performar feminilidade para existir.
O que especialistas dizem sobre o figurino e personalidade das namoradas do homem-aranha?
Para entender melhor o impacto das namoradas do homem-aranha, assim como de seus figurinos na cultura-pop, conversei com Thays Ramos, pesquisadora de moda e comportamento, além de especialista em moda e mercado e mestre em design.

Jarina: O que a mudança na aparência das namoradas do Homem-Aranha revela sobre os padrões de beleza de cada época?
Thays: A mudança na aparência e no perfil das parceiras românticas do Homem-Aranha não é apenas uma escolha estética, mas um reflexo direto de como os padrões de beleza, os papéis de gênero e a representatividade se transformaram em Hollywood. Para entender essa virada, é preciso olhar para como Zendaya foi introduzida no Universo Cinematográfico Marvel e o que sua imagem representa hoje, conectando essa escolha a discussões profundas sobre a cultura pop atual.
Quando a atriz foi escalada para o papel de Michelle Jones em 2017 (houve uma mudança também na personagem MJ, que costumava ser Mary Jane), a decisão veio de um processo de reinvenção da franquia; em 2016 a atriz foi aos testes com um visual propositalmente despojado e de cara limpa, ajudando a moldar a personalidade original da personagem.

O diretor Jon Watts e os produtores queriam fugir dos estereótipos clássicos dos quadrinhos tradicionais, apostando em uma jovem sarcástica, inteligente, independente e com uma forte aura de “cool girl”. A sintonia com Tom Holland (que se confirmou fora das telas) também foi decisiva, mas Zendaya também trouxe uma bagagem importante, já que vinha de uma sólida carreira voltada para o público infanto-juvenil e era um rosto extremamente familiar para a audiência.
Ela também consolidou esse status de ícone fashion, sendo sempre uma das presenças mais aguardadas no Met Gala e nas premières internacionais – vide recente maquiagem com sombra branca na estreia de “A Odisseia”, gerando enorme engajamento nas redes sociais com suas campanhas e escolhas de estilo.

Essa escalação, contudo, vai muito além do apelo midiático da atriz e se insere em uma discussão sociológica importante apontada pela especialista em cultura pop Karol Gomes que aborda como personagens originalmente ruivos têm sido reinterpretados por atores negros ou pardos, a exemplo da própria MJ ou de Halle Bailey como Ariel em A Pequena Sereia. O debate passa por conceitos como o levantado pela pesquisadora Donica O’Malley, que discute o ruivo como um “outro pseudo-racializado” por conta de sua raridade demográfica, representando apenas cerca de 2% da população mundial, mas sem tirar pessoas lidas como brancas do protagonismo.
Dialogando com análises sobre a representatividade negra na mídia, como as exploradas no livro Piccolo is Black, a escolha de Zendaya subverte a antiga donzela em perigo dos anos 2000 para entregar uma protagonista moderna, multirracial e intelectualmente afiada. Desse modo, a evolução das namoradas do herói revela que o cinema de super-heróis precisou abandonar moldes engessados para abraçar corpos e personalidades que refletem de fato a pluralidade do público contemporâneo.
Jarina: Como o figurino ajuda a construir a personalidade dessas personagens?
Thays: O figurino desempenha um papel fundamental na construção da personalidade e da jornada evolutiva de personagens no cinema, funcionando como uma extensão visual de quem elas são e da fase de vida que atravessam. No caso dos filmes do Homem-Aranha, a transição no guarda-roupa ilustra com precisão a passagem da adolescência para a vida adulta.
Enquanto nos primeiros filmes a personalidade de MJ era comunicada de forma direta por camisetas estampadas com figuras históricas e literárias, a exemplo de Sylvia Plath e Joan of Arc, que refletiam seu lado ativista, sarcástico e outsider, o figurino em Spider-Man: Brand New Day adota tons escuros, neutros e blusas mais simples, espelhando sua maturidade como universitária. Embora ela deixe de lado as estampas literais, sua essência contestadora continua firme através de suas ações e escolhas, provando que amadurecer não significa abrir mão dos próprios valores, mas sim comunicá-los de maneira mais sutil.

Essa evolução estética também aparece nos outros núcleos da história e nos bastidores, onde as roupas ajudam a ancorar a narrativa na realidade. Enquanto Peter Parker deixa de lado os trajes ultratecnológicos da era Tony Stark para voltar a um estilo urbano mais pé no chão, o filme ainda usa o figurino de forma coletiva, como nas roupas caseiras que os moradores de Nova York criam para apoiar o herói no hospital, substituindo o visual comercial por um forte senso de comunidade.


Fora das telas, essa construção de identidade ganha força com o chamado method dressing que a Zendaya e o stylist Law Roach levam para as turnês de imprensa. Ao resgatar referências de arquivos históricos da moda, como o vestido listrado que homenageia um look clássico dos quadrinhos de 1987, a equipe criativa borra a linha entre a cultura pop e a alta-costura, consolidando tanto a atriz quanto a personagem como ícones da atualidade.


De Mary Jane a MJ: como o figurino acompanha a mudança na representatividade feminina nas telonas
Jarina: As mudanças refletem apenas tendências de moda ou também transformações no papel da mulher na sociedade?
Thays: As mudanças no figurino vão muito além de simples tendências de moda, escancarando uma transformação profunda na forma como a sociedade enxerga e exige o espaço das mulheres hoje. Nas histórias de super-heróis do passado, o par romântico costumava ficar preso ao estereótipo da donzela em perigo, com roupas pensadas essencialmente para o apelo visual e para a passividade de quem espera ser salva. Com o amadurecimento das pautas feministas e da própria representatividade nas últimas décadas, os filmes precisaram espelhar a mulher contemporânea, que hoje ocupa espaços de poder, constrói carreiras e exige autonomia sobre a própria vida.
Como o Homem-Aranha sempre teve uma estética urbana e pé no chão, a franquia usou essa proximidade com a realidade para mudar a chave, mostrando garotas que vêm do ambiente escolar com voz ativa e bagagem intelectual, livres de padrões de submissão. Conforme a história avança para a faculdade, o guarda-roupa passa a refletir a versatilidade, o conforto e a praticidade exigidos pela rotina de uma mulher independente que equilibra múltiplas responsabilidades.
Dessa forma, o cinema deixa de tratar a parceira do herói como um mero troféu romântico ou um ornamento decorativo. A evolução visual traduz a exigência atual por mulheres ativas, complexas e em absoluto pé de igualdade, refletindo as conquistas sociais que definem o papel feminino no mundo real hoje.
Jarina: Por que o público se identifica tanto com essas diferentes versões?
Thays: O público se identifica tanto com essas diferentes versões porque, por muito tempo, Hollywood vendeu um ideal feminino hipersexualizado, intocável e completamente desconectado da vida real,. Quando a franquia traz uma estética urbana e contemporânea, aproximando a história da realidade de uma metrópole e do ambiente escolar, essa distância cai por terra.
Ver garotas que lidam com a rotina comum, entram na faculdade, usam roupas práticas para dar conta de um dia corrido e expressam suas opiniões sem medo faz com que a audiência finalmente se enxergue na tela. A identificação acontece porque a ficção deixa de exigir uma fantasia distante e passa a refletir as complexidades, a autonomia e a humanidade de quem assiste.
Do figurino à representação: o que as protagonistas do Homem-Aranha dizem sobre a feminilidade?
Após nalisar como o figurino ajuda a construir a personalidade de Mary Jane, Gwen Stacy e MJ, é possível olhar para essas personagens para além das roupas. Se as mudanças estéticas acompanham diferentes formas de representar as mulheres, elas também revelam transformações na maneira como a cultura pop entende feminilidade, relacionamentos, autonomia e o papel da mulher na narrativa.
Para aprofundar esse aspecto, conversei com Luíza Magalhães, que é Cientista Social, para entender o que a transformação das protagonistas do Homem-Aranha revela sobre as expectativas sociais em torno das mulheres e sobre a própria mudança da representação feminina no cinema.

Jarina: O que as mudanças na estética e no comportamento das namoradas do Homem-Aranha revelam sobre a evolução dos padrões de feminilidade e beleza ao longo das últimas décadas?
Luiza: Levando em conta as adaptações cinematográficas lançada nos cinemas cujas inspiram todas as opiniões e interpretações, muito dos pensamentos sobre feminilidade e o papel da mulher vem se transformado e adaptado ao logo das últimas duas décadas. Os filmes produzidos pelo diretor Sam Raimi entre 2002 e 2007 ainda carregam muito de como o cinema era feito durante todo o século XX, a maior parte dos envolvidos na produção e dos espectadores sendo homens. Isso define o que atualmente se chama de “male gaze”, o olhar masculino, até esse momento, demarcou quase inteiramente como as mulheres eram vistas e como agiam no cinema.

Tendo Mary Jane e Gwen Stacey servido mais como interesses amorosos e donzelas em perigo, sendo retratadas com roupas consideradas mais femininas, como saias, vestidos e decotes avantajados, como na famosa cena de Mary Jane na chuva com sua blusa ensopada. Quanto a tia May, essa era colocada apenas dentro do lar, sempre aguardando tio Ben ou Peter voltarem para casa, resguardada a ser uma boa esposa, mãe e dona do lar.



Quando um relançamento da franquia é feito, já a partir de 2012, dirigido por Marc Webb, já é possível notar certas mudanças no comportamento das personagens femininas. Gwen Stacey, dessa vez interesse romântico principal de Peter, é uma jovem inteligente que não só possui um enredo próprio, sendo estagiária da corporação Osborne, como ajuda Peter em suas aventuras como super-herói, por vezes desobedecendo seu pai policial para protegê-lo. Nessa produção sua imagem é mais voltada a uma aparência de “nerd” e responsável, sendo mostrada de jaleco e blazers.


Tia May também apresenta mais opiniões aqui, sempre tentando dar conselhos aos sobrinhos por achar que está fazendo coisas ilícitas. Esse recorte de tempo se torna interessante de apontar como apenas 5 anos podem ter apresentado mudanças na forma de se construir personagens femininas, levando-se em conta que tanto a forma de produção como o público mudaram. Dessa vez, com o maior uso das redes sociais e menos controle de mídias polarizadas, é possível traçar um maior número de público feminino e conscientização de termos como “feminismo”, impactando em como as obras cinematográficas hollywoodianas são produzidas.

Essa transformação de discursos se aprofunda ainda mais na nova leva de filmes do Homem Aranha, esses dirigidos por Jon Watts. Aqui a parceira MJ, dessa vez Michelle Jones, apresenta comportamentos bem diferentes de suas versões anteriores, considerada inteligente, com falas que confrontam o protagonista. É relevante também que, nessa saga, MJ é uma mulher negra, já trazendo recortes raciais muito discutidos na última década, sendo possível perceber maior influência da representatividade na produção mais recente.

Além disso, MJ apresenta figurino com visual mais despojado com roupas largas e de tonalidades mais neutras, já não muito refém dos moldes de feminilidades que demarcavam as décadas anteriores, sendo retratada tanto em camisas com estampa, que revelam mais de sua personalidade, quanto em vestido em situações formais. Outra personagem feminina que passa por grande mudança é Tia May, dessa vez mais jovem, mostra uma mulher que se esforça para trabalhar e cuidar de Peter, ao final se tornando uma conselheira e auxiliando em sua vida de herói também.
As diferentes versões das personagens femininas de Homem-Aranha revelam que os padrões de beleza e feminilidade são construções históricas que se transformam conforme a sociedade também modifica suas concepções sobre feminilidade.
Enquanto nas primeiras produções predominava uma feminilidade associada à sensualidade, delicadeza e ao papel de interesse amoroso, as adaptações posteriores apresentam personagens mais autônomas, práticas e que entram em ação. Essas mudanças, claro, não significam o desaparecimento dos padrões de beleza, mas sua reorganização, de maneira que diferentes estilos, corpos, comportamentos e formas de expressão sejam reconhecidos como femininos.
Jarina: De que forma personagens da cultura pop influenciam, e também refletem, as tendências de moda, comportamento e identidade entre diferentes gerações?
Diferentes teóricos apontam que o ser humano interpreta o cinema como forma de projeção, o espectador projeta todas as suas ânsias e expectativas nas narrativas que as personagens. Desde os primeiros moldes de cinema de ficção, no início do século XX é possível enxergar esse comportamento nos espectadores e, agora, mais de 100 anos depois ainda é palpável a forma como as pessoas querem se ver na tela, para além de acompanhar uma aventura fictícia. Nesse sentido, as personagens da cultura pop podem atuar simultaneamente como reflexo e como produtoras de comportamentos sociais.
Suas roupas, cortes de cabelo, formas de falar, relacionamentos, corpos e modos de ocupar os espaços podem ser incorporados ou ressignificados pelas espectadoras, especialmente quando essas características passam a circular para além do filme, por meio da publicidade e das redes sociais, a personagem deixa, assim, de existir somente para dentro da narrativa e passa a integrar um repertório cultural compartilhado.
Uma personagem que utiliza determinadas roupas, maquiagem ou formas de expressão não está apenas sendo caracterizada visualmente: seu corpo é apresentado ao público por meio de códigos culturais que comunicam gênero, personalidade, status e pertencimento. Nas redes sociais, esse processo se torna ainda mais evidente, uma vez que os sujeitos não são apenas consumidores dessas representações, mas também produtores de suas próprias imagens.
A lógica da cultura pop passa, portanto, a dialogar diretamente com a construção cotidiana da identidade, já que referências cinematográficas podem ser reproduzidas e adaptadas. Observar as personagens femininas de Homem-Aranha permite compreender não apenas como as mulheres são representadas em diferentes períodos, mas também como essas representações dialogam com as transformações sociais e culturais de cada momento histórico.
Jarina: As adaptações mais recentes mostram uma maior autonomia das personagens femininas em relação às versões anteriores? Como isso dialoga com as transformações sociais e os debates sobre gênero?
Luiza: É possível traçar aqui um histórico a partir dos anos 2000 até a década de 2020 de como discursos em relação ao papel do feminino foram sendo modificados na mídia e para o público que a consome. Na primeira metade dos anos 2000 os discursos feministas estavam fortemente relacionados a questões como igualdade de direitos, inserção profissional, autonomia e sexualidade. Embora essas discussões já estivessem presentes anteriormente, nesse período ainda circulavam principalmente em movimentos sociais, universidades e organizações específicas.
Ao mesmo tempo, a internet começava a ampliar os espaços de debate, especialmente por meio de blogs e fóruns. Na cultura pop, entretanto, personagens femininas ainda eram frequentemente construídas a partir de padrões tradicionais de beleza, romance e sexualização, e mesmo quando apresentavam alguma independência, sua trajetória muitas vezes permanecia subordinada à narrativa masculina.

A partir do final dessa década e início dos anos 2010 a expansão da internet e, posteriormente, das redes sociais transformou significativamente a circulação dos discursos feministas. Blogs, YouTube, Facebook e Twitter permitiram que mulheres compartilhassem experiências e opiniões, criando comunidades e ampliando discussões sobre objetificação, assédio, violência, padrões de beleza e representação feminina.

Com isso, o público passou a participar mais ativamente da avaliação das personagens da cultura pop, questionando não apenas sua aparência, mas também sua personalidade, autonomia e importância dentro das narrativas. A representação feminina começou, portanto, a ser observada de maneira mais crítica.
Na metade da década de 2010 essas discussões ganharam ainda mais visibilidade entre públicos jovens, incorporando debates sobre empoderamento, misoginia, cultura do estupro e representatividade racial. A ideia de que uma personagem feminina deveria possuir apenas características consideradas tradicionalmente femininas começou a ser mais questionada, assim como a necessidade de que sua função narrativa estivesse relacionada ao protagonista masculino.

A partir de 2017, com a grande repercussão internacional do movimento #MeToo, debates sobre assédio, abuso sexual e relações de poder ganharam ainda mais força, atingindo diretamente a indústria do entretenimento. O público passou a questionar não apenas o que era representado nas telas, mas também quem produzia essas representações e quais grupos ocupavam os espaços de poder.

Ao chegar na década de 2020, os discursos feministas já apresentavam uma compreensão mais ampla e plural da experiência feminina, incorporando com maior força questões relacionadas a raça, classe, sexualidade, corpo e identidade. Na cultura pop, isso contribuiu para uma mudança nas expectativas em relação às personagens femininas: já não bastava apresentá-las como “mulheres fortes”, mas tornou-se relevante oferecer personagens com personalidade, autonomia, conflitos próprios e diferentes formas de vivenciar a feminilidade.
Nesse sentido, a trajetória das personagens femininas de Homem-Aranha acompanha parte dessas transformações: de Mary Jane e Gwen Stacy mais vinculadas ao romance e à vulnerabilidade nas primeiras adaptações, passando pela Gwen responsável e protetora dos anos 2010, até chegar à MJ de 2017 em diante, cuja personalidade, estilo e participação na narrativa se afastam de modelos tradicionais. A transformação, portanto, não ocorre apenas na aparência das personagens, mas naquilo que a sociedade passou a esperar das mulheres representadas pela cultura pop.
Jarina: Por que discussões sobre o estilo e a personalidade dessas personagens têm ganhado tanta repercussão nas redes sociais? O que esse interesse revela sobre a relação do público com a cultura pop atualmente?
Luiza: A internet é considerada um fator relevante de democratização nas últimas três décadas, sendo um espaço virtual para divulgar opiniões e se encontrar em comunidade, em confluência com o desenvolvimento tecnológico, as redes sociais tornaram-se um ambiente para ver notícias, ficar a par do que acontece na atualidade e, também, um lugar para criar uma comunidade. Com algoritmos cada vez mais específicos e muito uso de vídeos e imagens, as redes sociais tomam, em parte, o papel que antes somente o cinema e a televisão tinham, o da projeção.
Uma pessoa utiliza suas redes sociais em busca de reconhecer aquilo que acha belo, como pode usar tal tendência, se concorda com ela ou não. E devido a esse encontro entre tecnologia e senso de comunidade, a Internet tem se tornado o espaço de debate de personagens com os quais espectadores se inspiram ou não. Nas redes sociais, espectadores podem comentar, comparar versões, produzir memes, vídeos, fanarts, análises e até reproduzir os estilos das personagens, transformando o consumo em uma forma de participação cultural.

A discussão sobre o figurino ou a personalidade de uma personagem, portanto, não está limitada à obra original, mas continua circulando e ganhando novos significados conforme diferentes grupos se apropriam dela. Nesse sentido, a cultura pop passa a ser também um espaço de disputa simbólica, no qual diferentes públicos podem questionar representações de gênero, padrões de beleza e comportamentos que antes eram apresentados somente a partir do ponto de vista da mídia que a divulgava.
Dessa forma, a repercussão dessas personagens demonstra que o público deixou de ocupar uma posição exclusivamente passiva diante da cultura pop, de apenas assistir, ele passa a influenciar as produções também. As pessoas que acompanham cultura pop não apenas consomem personagens, mas utilizam suas imagens, estilos e personalidades para discutir quem são, quem gostariam de ser e quais padrões desejam reproduzir ou contestar.

A trajetória de Mary Jane, Gwen Stacy e MJ mostra que as protagonistas do Homem-Aranha acompanham as transformações nas expectativas sociais sobre a feminilidade. Mais do que mudanças no figurino, suas diferentes versões revelam novas formas de representar autonomia, inteligência e identidade feminina.
Ao comparar essas personagens, também percebemos como a cultura pop não apenas reflete as mudanças da sociedade, mas participa ativamente da construção dos modelos de feminilidade que diferentes gerações reconhecem, reproduzem ou questionam.
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Escrito por Jarina Milena I Editado por Ana Carolina Gomes


