Vende-se punk
Tendências

Vende-se punk: a estetização dos movimentos de subcultura

Entre identidade, algoritmo e a confusão de seus significados, a discussão recente da internet reacende um debate antigo: o que acontece quando uma subcultura passa a ser consumida apenas por sua aparência? É fato que a maquiagem pesada, os coturnos, as correntes, os piercings e as roupas de segunda mão já não pertencem apenas às cenas punk, gótica ou emo, mas fazem parte da vestimenta diária de muitos jovens, que, nas redes sociais, circulam nas trends. Impulsionados por vídeos curtos e algoritmos, até onde os estilos de vida podem se misturar com produtos de consumo?

Vende-se punk
Foto: Vivienne Westwood Spring 2010 ready-to-wear / Reprodução / Instagram @thewestwoodarchives

Quase meio século depois de Dick Hebdige publicar Subculture: The Meaning of Style (1979), sua principal reflexão permanece atual: quando os símbolos de uma subcultura passam a circular no mercado, eles deixam de representar apenas resistência e tornam-se também mercadorias. Se antes esse processo ocorria principalmente pela moda e pela publicidade, hoje as redes sociais aceleram essa apropriação. Algoritmos transformam identidades em tendências, enquanto estilos que nasceram como formas de contestação passam a ser reproduzidos, muitas vezes, desvinculados de seus contextos históricos e políticos. 

É justamente essa percepção que atravessa o discurso de Sofia Lichtenberg, vocalista da banda de hardcore punk, Cacofonia. Para ela, a estética, por si só, nunca foi o problema. “Tem muita gente que acha que é só se vestir. É como se fosse uma fantasia. Quer se vestir bonitinho, mas não está nem aí para a ideologia, para a política.”, diz.

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Foto: Sofia Lichtenberg, vocalista da banda Cacofonia / Reprodução / Instagram: @cacofonia
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Foto: Kae, Anna, Marcela e Sofia, integrantes da banda Cacofonia / Reprodução / Instagram @fravianas

As mães estavam certas? O problema é o celular?

Com a grande criação de conteúdo nas redes, o acesso à informação, hoje, chega mais fácil e rápido do que nunca. Assim, esse excesso não produz, necessariamente, mais conhecimento; na verdade, como aponta o sociólogo Byung-Chul Han, gera dispersão, dificulta a elaboração crítica e favorece reações rápidas, em vez de reflexão. Não é que o problema seja o celular, mas vale pensar no que você está consumindo.

A vocalista observa que, nas redes sociais, interpretações equivocadas sobre o movimento são frequentemente reproduzidas como verdades. Segundo ela, muitos usuários constroem opiniões sem buscar compreender a história do punk ou seus fundamentos políticos. “Tem gente que fala que punk não tem política, que é só ser contra o sistema. Às vezes é só jogar no Google e pesquisar o significado”, comenta. Esse fenômeno, que Sofia cita, dialoga com o conceito de pós-verdade, definido pelo Oxford Languages como circunstâncias em que fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que crenças pessoais e apelos emocionais.

“Tem gente que fala que punk não tem política, que é só ser contra o sistema. Às vezes é só jogar no Google e pesquisar o significado”

Sofia lembra, ainda, do movimento Do It Yourself (DIY), um dos pilares da cultura punk, como exemplo essa diferença entre consumir uma estética e compreender seus princípios. Nesse sentido, a cantora relembra que, no início do movimento, os alternativos começaram a se vestir de maneiras características para se expressar. “As roupas vinham de brechó, de peças da família, eram pintadas, rasgadas e costuradas. Hoje muita gente só quer a roupa pronta”, diz.

Foto: Reprodução / Instagram @museumofyouthculture

Para a vocalista, a transformação da moda alternativa em produto também passa pela indústria da fast fashion. “Eu não boto a culpa em quem compra. A culpa é do sistema, das grandes empresas. Mas a gente precisa ter consciência”, aponta. Ela conta que costuma incentivar o uso de brechós justamente por considerar que fazem parte da história das cenas alternativas.

Foto: Reprodução / Instagram @crashbangboomphilly

O caso Emily Di Paula

A discussão ganhou novos contornos recentemente com a influenciadora Emily Di Paula. Conhecida por produzir conteúdos sobre maquiagem, moda dos anos 2000 e creditar estéticas alternativas como o gótico, o emo e o gyaru, Emily passou a ser alvo de críticas após seguidores descobrirem que seu namorado possui posicionamentos políticos contrários ao que esses movimentos pregam.

Foto: Reprodução / Instagram @emilydipaula

Nas redes sociais, parte do público afirmou que haveria uma contradição entre consumir estéticas historicamente associadas a movimentos de contestação e conviver com ideias conservadoras, alegando não haver como separar as relações, as estéticas e estilos de vida de política.

Dessa forma, o episódio abriu espaço para uma discussão maior sobre autenticidade, pertencimento e a tendência de associar determinadas aparências a posicionamentos políticos específicos. Se, por um lado, as plataformas ampliam a circulação de referências visuais e aproximam novos públicos das subculturas, por outro, favorecem uma relação muitas vezes limitada à superficialidade de um conteúdo visual. A rapidez do consumo faz com que roupas, maquiagens e símbolos sejam compartilhados e reproduzidos com facilidade, enquanto os debates históricos e políticos que os originaram permanecem à margem.

“Compre menos. Escolha bem. Faça durar. Qualidade, não quantidade. Todo mundo está comprando muitas roupas.”

– Vivienne Westwood

Para Sofia, o problema não está em adotar uma determinada estética, mas em ignorar os significados que ela carrega. “Pode fazer o que você quiser. Mas eu acho importante conhecer a política por trás das coisas. É isso que faz a diferença”, comenta.

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Escrito por Júlia de Moura I Editado por Ana Carolina Gomes e Maria Clara Machado