De Justin Bieber à Off Campus: por que músicas antigas estão voltando ao topo das paradas?
No TikTok, no Instagram e até no Spotify, você certamente já se deparou com alguma música antiga tocando novamente, mas já parou para pensar o que explica esse fenômeno?
Em abril, o show de Justin Bieber no Coachella reacendeu “Beauty and a Beat”, parceria do canadense com Nicki Minaj lançada em 2012. Depois da apresentação, a faixa chegou ao topo do chart global de singles do Apple Music pela primeira vez na história da música — e o catálogo inteiro do cantor cresceu cerca de 250% em streams no Spotify na semana do festival.

Poucas semanas depois, foi a vez de Jennifer Lopez. “On the Floor”, parceria com Pitbull lançada em 2011, voltou às paradas da Billboard 15 anos depois, impulsionada por uma cena de dança da série Off Campus, da Prime Video, que viralizou no TikTok e no Instagram. Em entrevista ao Jimmy Kimmel Live, a cantora contou ter sido pega de surpresa pelo retorno repentino da faixa, segundo reportagem da Billboard.
Esses dois casos não são exceção. Para entender o que está movendo esse fenômeno, conversamos com Thiago Soares, professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador do grupo de pesquisa GRUPOP, dedicado a comunicação, música e cultura pop, e com Ana Paula Medeiros, jornalista musical formada pela Universidade de São Paulo (USP).
A nostalgia como estratégia da indústria
Para Soares, dois movimentos explicam essa volta de hits antigos ao topo das paradas. O primeiro é uma dimensão nostálgica que ele relaciona à própria hiperconexão digital: quanto mais as pessoas se conectam pelas redes, mais também buscam, em contrapartida, formas de desacelerar e revisitar o passado — o que explicaria, segundo ele, até a volta do vinil e da fita cassete ao consumo cotidiano.
O segundo movimento é econômico. Soares chama esse fenômeno de “economia da nostalgia”: ativar um sucesso do passado custa muito menos do que lançar e promover uma música nova. “A nostalgia, por sua vez, é um elemento barato, porque a música já tá pronta”, afirma o pesquisador, que descreve a indústria reativando o próprio arquivo “e dando lucro duas, três, quatro vezes”.
Esse cálculo, segundo ele, explica também por que faixas que não fizeram tanto sucesso na época do lançamento podem ser “redescobertas” anos depois — caso de “All I Want for Christmas Is You”, de Mariah Carey, gravada em 1994 e que volta ao topo das paradas a cada dezembro.

O streaming e a quebra do ciclo de vida linear da música
Ana Paula Medeiros aponta para uma mudança estrutural no consumo. Antes do streaming, explica ela, uma música seguia um ciclo previsível: lançamento, pico nas rádios e na TV, queda gradual até estabilizar em um patamar baixo. Hoje, uma faixa “pode renascer várias vezes e continuar relevante independente do tempo”, porque está sempre a um clique de distância.
A jornalista cita o caso das faixas do álbum “Thriller”, de Michael Jackson, que voltaram ao topo do Spotify após o lançamento do filme biográfico sobre o cantor — um salto enorme de reproduções para um artista falecido há mais de 15 anos. O mesmo padrão, lembra ela, vale para “Running Up That Hill”, de Kate Bush, que retornou às paradas quase 40 anos após o lançamento original depois de aparecer em Stranger Things.

Medeiros chama esse movimento de “nostalgia herdada”: uma pessoa pode sentir afeto por uma música ou época que não viveu diretamente, mas que conheceu através dos pais, do cinema ou das redes sociais. Outro exemplo citado por ela é o uso de samples: o rapper BK usa deles em suas novas músicas e credita os artistas das canções originais, que viram uma espécie de “feat”. Para a jornalista, recorrer a uma faixa já consagrada é também uma estratégia para atingir o público de duas gerações ao mesmo tempo.
Números por trás do fenômeno
O peso do catálogo antigo no streaming também aparece nos dados do setor. Segundo o relatório anual da Luminate, analisado pelo site From The Stem, o mundo bateu a marca de 5,1 trilhões de streams em 2025 — mas 57% dos streams de áudio on-demand nos Estados Unidos vieram de músicas lançadas antes de 2021. Usando uma definição ainda mais ampla de catálogo (faixas com mais de 18 meses de lançamento), esse número sobe para cerca de 73%.
Na prática, isso significa que uma música lançada hoje compete não só com os outros lançamentos da semana, mas com uma biblioteca cada vez maior de sucessos que os algoritmos já aprenderam para quem recomendar.
TikTok, o “arquivo vivo” da música pop
O TikTok aparece nas duas entrevistas como peça central desse processo. Soares lembra dos casos de “Dreams”, do Fleetwood Mac, e de “Acenda o Farol”, de Tim Maia, que voltaram a circular depois de viralizarem na plataforma — movimento parecido com o de “Retrato Imaginário”, do grupo SNZ, que teve sua versão com o sample de “Oops!…I Did It Again”, de Britney Spears barrada anos atrás pela equipe da cantora, mas que após viralizar nas redes foi liberada e está disponível nas plataformas digitais — mesmo após o grupo ter sido descontinuado.

Reportagens recentes mostram que o fenômeno é generalizado. Segundo o Correio Braziliense, faixas dos anos 1980 voltaram ao topo das paradas globais décadas depois do lançamento original a partir de trends espontâneas, não de campanhas planejadas por gravadoras. Já o Jornal da Franca aponta que quase metade dos streams em 2024 foram de músicas com pelo menos cinco anos de lançamento.
Para Soares, plataformas como o YouTube funcionam hoje como “grandes arquivos” que colocam passado e presente lado a lado — basta ver um clipe novo de Madonna sendo recomendado ao lado de um clipe antigo da própria carreira da cantora pelo mesmo algoritmo.
A nostalgia de formas diferentes
Os dois entrevistados concordam que existe uma diferença geracional na forma de consumir essas faixas antigas. Soares observa que os millennials viveram de forma mais intensa o início da vida hiperconectada em redes, enquanto a geração Z já demonstraria mais movimentos de desconexão — e é justamente nesse intervalo, segundo ele, que a nostalgia encontraria espaço.

Medeiros vai na mesma direção: para ela, a geração Z é “menos presa a cronologias e mais aberta a descobertas constantes”, já que cresceu tendo acesso ao catálogo musical inteiro disponível o tempo todo, em vez de depender de rádio, MTV ou gravadoras para descobrir um artista.
O passado como repertório
Apesar do peso comercial da “economia da nostalgia”, os entrevistados não acreditam que o fenômeno signifique uma rejeição da música nova. Para Medeiros, o retorno de faixas antigas ao topo das paradas é “mais uma redescoberta” do que uma insatisfação com os lançamentos atuais: as novas gerações continuam descobrindo artistas contemporâneos, mas sem abandonar o passado, que passou a funcionar como repertório e referência para a própria produção musical de hoje, inclusive via samples.
Para Soares, o fenômeno também é sintoma de uma lógica maior da cultura pop contemporânea, que ele chama de “popificação”: cada vez mais, elementos do passado — sejam músicas, novelas ou desenhos animados — são reativados como recurso comunicacional e econômico por uma indústria que aprendeu a extrair valor do próprio arquivo, vezes e vezes seguidas.
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Escrito por Murilo Bezerra I Editado por Ana Carolina Gomes


