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Patricia Field: A figurinista que mudou a relação entre moda e entretenimento

De Sex and the City a Emily in Paris, a profissional redefiniu a relação entre figurino, narrativa e tendências de moda.

Da esquerda para direita: Miranda Priestly, Carrie Bradshaw e Andrea Sachs, personagens de O Diabo Veste Prada e Sex and the City, caracterizadas por Patricia Field. Reprodução: Pinterest

Quem é Patricia Field?

Casacos de pelo exuberantes, bolsas estilosas, sapatos icônicos e acessórios maximalistas são marcas registradas de figurinos assinados por Patricia Field. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, a figurinista estadunidense construiu uma estética irreverente que rompeu padrões e ajudou a transformar personagens em verdadeiros ícones da cultura pop.

Ao longo de sua trajetória, Field conquistou um Emmy, recebeu diversas indicações a importantes premiações da televisão e foi indicada ao Oscar de Melhor Figurino por O Diabo Veste Prada (2006). Mas sua influência vai além das telas. Sua boutique, que funcionou por décadas em Nova York, tornou-se um espaço de referência para artistas, estilistas, performers, integrantes da comunidade LGBTQIA+ e frequentadores da cena noturna da cidade, consolidando-se como um importante polo criativo.

Nascida em Nova York e filha de imigrantes gregos e armênios, Patricia Field não seguiu o caminho tradicional dos grandes nomes da moda. Formou-se em Filosofia e Ciência Política pela Universidade de Nova York e iniciou sua carreira no varejo. Em 1966, abriu sua primeira loja, a Pants Pub. Cinco anos depois, o negócio mudou de endereço e passou a levar seu próprio nome: Patricia Field.

Mais do que uma boutique, o espaço refletia a efervescência cultural da cidade. A mistura de peças vintage, roupas de grife, criações independentes e acessórios excêntricos traduzia uma visão de moda baseada na experimentação, na individualidade e na quebra de regras. Foi nesse ambiente multicultural, que Patricia desenvolveu o olhar criativo que mais tarde se tornaria sua principal assinatura como figurinista.

Em meados da década de 1980, a editora de moda Candy Pratts Price indicou seu nome ao diretor do suspense psicológico Lady Beware, da Universal Studios, que buscava uma figurinista para o filme. A experiência marcou sua estreia no cinema e abriu caminho para uma nova fase da carreira. Alguns anos depois, em 1995, durante as filmagens da comédia romântica Miami Rhapsody, Patricia conheceu Sarah Jessica Parker. A afinidade entre as duas, alimentada pela paixão em comum pela moda, deu origem a uma parceria que mudaria para sempre a história do figurino na televisão.

Patricia Field e Sarah Jessica Parker. Reprodução: Pinterest

Sex and the City 

Se a boutique de Patricia Field foi o laboratório onde desenvolveu sua visão de moda, foi em Sex and the City que ela a apresentou ao mundo. Estreada em 1998, a série revolucionou a forma como o figurino era pensado na televisão. Mais do que vestir quatro protagonistas, Field criou identidades visuais capazes de traduzir personalidade, desejos e estilos de vida.

Carrie Bradshaw, Charlotte York, Miranda Hobbes e Samantha Jones possuíam estilos completamente distintos. Enquanto Charlotte apostava em uma elegância clássica e romântica, Miranda refletia sua personalidade pragmática por meio da alfaiataria. Samantha incorporava o glamour e a sensualidade, enquanto Carrie rompia convenções ao misturar peças de luxo, roupas vintage, garimpos de brechó e marcas acessíveis, consolidando uma estética que mais tarde ficaria conhecida como high-low fashion.

Looks das personagens Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte em Sex and the City. Reprodução: Pinterest

Essa abordagem mudou o papel do figurino na televisão. As roupas deixaram de funcionar apenas como complemento da narrativa e passaram a comunicar identidade, emoções e transformações das personagens. Ao mesmo tempo, ultrapassaram a ficção e influenciaram diretamente o mercado da moda. A saia de tule da abertura da série, o colar com o nome de Carrie, os sapatos Manolo Blahnik e a bolsa Fendi Baguette tornaram-se símbolos de uma geração e impulsionaram tendências que rapidamente chegaram às ruas.

Muito antes da ascensão das redes sociais, Patricia Field já demonstrava o potencial do audiovisual como vitrine de moda. A cada episódio, os espectadores acompanhavam não apenas a história, mas também os looks das protagonistas, reproduzidos por revistas especializadas e desejados pelo público. Carrie Bradshaw tornou-se uma referência de estilo antes mesmo da existência dos influenciadores digitais, consolidando um fenômeno que hoje é comum: personagens capazes de ditar tendências e influenciar o consumo de milhões de pessoas.

Muito além de Carrie Bradshaw 

O Diabo Veste Prada

Em 2006, a figurinista assinou os figurinos de O Diabo Veste Prada, trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino e se tornou outro marco de sua carreira.

Ambientado no competitivo universo das revistas de moda, o filme utiliza o vestuário como parte da construção de seus personagens. Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep, transmite autoridade por meio de uma alfaiataria impecável, casacos estruturados, joias discretas e uma paleta predominantemente neutra. Já Nigel, vivido por Stanley Tucci, incorpora a sofisticação e o olhar apurado da indústria fashion, com produções elegantes que reforçam seu papel como diretor de arte e mentor da protagonista.

A transformação de Andy Sachs, interpretada por Anne Hathaway, tornou-se uma das sequências mais memoráveis do cinema contemporâneo. À medida que a personagem mergulha no universo da revista Runway, seu guarda-roupa acompanha essa mudança: os suéteres largos e básicos dão lugar a botas Chanel, casacos de grife, vestidos sofisticados e bolsas de luxo. Mais do que uma mudança estética, a evolução dos figurinos acompanha sua jornada profissional e evidencia como a moda também pode representar ambição, pertencimento e identidade.

Looks usados por Andy Sachs, em O Diabo Veste Prada. Reprodução: Pinterest

Ugly Betty e Emily in Paris

Em Ugly Betty, Patricia Field constrói um contraste visual permanente entre Betty Suarez e os profissionais da revista Mode. Enquanto a protagonista veste estampas coloridas, sobreposições e acessórios considerados “fora de moda”, colegas como Wilhelmina Slater e Daniel Meade aparecem em produções sofisticadas e alinhadas ao universo editorial. Conforme Betty conquista espaço na revista, seu figurino evolui sem abandonar completamente sua identidade, reforçando que estilo e pertencimento não dependem apenas de seguir tendências.

Mais de uma década depois, Patricia voltou a trabalhar com Darren Star em Emily in Paris, desta vez como consultora criativa. Emily Cooper resgata muito do espírito de Carrie Bradshaw: mistura estampas, cores vibrantes, chapéus, luvas, bolsas e peças de diferentes marcas sem receio de exagerar. Se Carrie representava a Nova York do fim dos anos 1990, Emily traduz uma estética pensada para a era do Instagram, em que cada look é concebido para circular tanto nas ruas quanto nas redes sociais. 

Looks das personagens Betty e Emily. Reprodução: Pinterest

O legado de Patricia Field 

Mesmo após consolidar uma das carreiras mais influentes do figurino contemporâneo, Patricia Field continuou reinventando sua atuação no universo da moda. Em 2016, após mais de quatro décadas de funcionamento, encerrou as atividades de sua icônica boutique em Nova York. Longe de representar o fim de sua trajetória, a decisão abriu caminho para uma nova fase.

Nos anos seguintes, passou a dedicar-se à ArtFashion, plataforma criada para conectar arte e moda por meio da valorização de artistas independentes, designers e criadores emergentes. A iniciativa mantém vivo o espírito que sempre guiou sua carreira: incentivar a criatividade, romper padrões e aproximar diferentes expressões artísticas do público.

Embora muitos de seus figurinos tenham se tornado ícones da cultura pop, o maior legado de Patricia Field talvez não esteja em um vestido, uma bolsa ou um par de sapatos. Sua maior contribuição foi mostrar que a moda também conta histórias. Ao transformar o figurino em linguagem narrativa, ela redefiniu a forma como personagens são construídos e como o público se relaciona com eles, estabelecendo uma influência que continua presente nas produções audiovisuais e na indústria da moda contemporânea.

Patricia Field. Reprodução: Krista Schlueter/The Guardian

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Escrito por Mariana Guimarães I Editado por Ana Carolina Gomes 

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