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Anti-beauty ganha força e propõe uma nova relação com a beleza

Nos últimos anos, a busca pela aparência perfeita dominou as redes sociais, impulsionada por filtros, procedimentos estéticos e tendências que prometiam um rosto cada vez mais padronizado. Agora, um movimento contrário começa a ganhar força: o anti-beauty. A tendência valoriza características naturais, imperfeições e formas mais livres de expressão visual, questionando os padrões de beleza impostos pela indústria e pelas plataformas digitais. O fenômeno tem mobilizado criadores de conteúdo, marcas e consumidores, tornando-se um tema relevante para o debate sobre identidade, autoestima e consumo na contemporaneidade. 

Como o anti-beauty ganhou força na moda?

O movimento já circula na internet desde 2024, em que algumas artistas foram ao MET Gala de 2024 vestidas no que pode ser chamado de ugly beauty, segundo uma matéria do The Guardian. O tema de 2024 foi “Sleeping Beauties: Reawakening Fashion” (Belas Adormecidas: Reacordando a Moda) e o dress code era “The Garden of Time” (O Jardim do Tempo). Doja Cat, Amanda Seyfried e Zendaya seguiram essa “tendência”, Doja teve seu vestido encharcado e apareceu com borrões de rímel e lágrimas metalizadas escorrendo pelo seu rosto, que foi obra da maquiadora Pat McGrath.

Amanda Seyfried estava com o cabelo cinza, e com um batom roxo num tom mais aberto. Zendaya estava com as sobrancelhas tão finas que quase sumiram. É interessante observar como o anti-beauty surge em contraste a estéticas que dominaram as redes sociais nos últimos anos, especialmente a chamada clean girl. Popularizada por influenciadoras e celebridades, essa tendência valoriza uma aparência considerada “natural”, mas cuidadosamente construída: pele uniforme e sem marcas aparentes, maquiagem discreta, cabelos presos em coques alinhados e uma paleta de cores neutras, como bege, branco, preto e marrom.

O contraponto à estética clean girl

Embora seja frequentemente associada à simplicidade e elegância, a estética também reforça determinados padrões de beleza e comportamento, como a valorização de uma pele sem imperfeições aparentes, de traços considerados harmoniosos, de uma aparência sempre organizada e de uma feminilidade discreta e controlada. Nas redes sociais, essa imagem costuma vir acompanhada de conteúdos sobre rotinas de skincare, alimentação saudável, produtividade e autocuidado, construindo um ideal de vida tão aspiracional e idealizada quanto a própria aparência.

O anti-beauty, por sua vez, propõe uma ruptura com essa lógica. Em vez de buscar a perfeição, a simetria e a discrição, a tendência valoriza a experimentação, o estranhamento, o exagero e a individualidade. Maquiagens borradas, cores inusitadas, próteses faciais e elementos considerados “imperfeitos” passam a ser utilizados como formas de expressão criativa. Mais do que uma estética, o movimento funciona como uma crítica aos padrões de beleza homogêneos difundidos pela indústria da moda, da beleza e pelas próprias plataformas digitais, ampliando o debate sobre autenticidade, identidade e liberdade de expressão e experimentação.

O que especialistas dizem sobre o crescimento do anti-beauty?

Para entender melhor o impacto do anti-beauty em comparação à outras tendências, assim como outras questões, conversei com Thays Ramos, pesquisadora de moda e comportamento, além de especialista em moda e mercado e mestre em design.

Jarina: O que é o anti-beauty e como ele se diferencia de outras tendências de beleza que surgiram nos últimos anos?

Thays: O anti-beauty pode ser definido como uma resposta estética e cultural ao excesso de controle e ao perfeccionismo que marcaram os últimos anos, em movimentos como o da ‘clean girl’, que, embora pareçam naturais, exigem um esforço e uma manutenção altíssimos para atingir um padrão de perfeição muitas vezes inatingível.

Enquanto outras tendências de beleza costumam ditar um ‘como ser’ para alcançar um ideal específico, o anti-beauty funciona na lógica da oposição. Ele é menos sobre seguir uma regra e mais sobre o ato de rebelar-se contra o que está saturado. Se o mercado nos empurrou para uma estética pasteurizada, que busca esconder imperfeições e agradar um olhar tradicional, o anti-beauty chega para questionar: por que não podemos ocupar o espaço da estranheza, do imperfeito ou do que é puramente expressivo? Como diria nossa querida Alexandrismos, a gente tem o direito de ser feia.

A grande diferença é a motivação, porque não se trata de mudar para ficar ‘mais bonita’ segundo o consenso, mas de usar a beleza como ferramenta de expressão pessoal e autenticidade. É um movimento que celebra a individualidade e a criatividade acima da estética puramente comercial. Em um mundo cada vez mais digital e saturado, o anti-beauty é, no fim das contas, uma tentativa de recuperar o prazer de se expressar visualmente de um jeito que seja real e, principalmente, nosso.

Jarina: Quando esse movimento começou a ganhar força e quais fatores contribuíram para sua popularização?

Thays: Vejo esse movimento vem ganhando corpo nos últimos três anos, muito mais como um grito de socorro contra essa era de auto-otimização absurda que a gente vive. Hoje, parece que todo mundo tem que ser uma super versão de si mesmo. É uma enxurrada de suplementos pra cada coisa, gente que do dia pra noite vira triatleta, o uso de medicamentos para performar melhor no trabalho, os jejuns de dopamina…Existe um controle sobre o “eu” que ficou insustentável.

O anti-beauty acaba sendo uma resposta natural a isso. Quando a vida vira um projeto de performance constante, a beleza acaba sendo mais uma dessas métricas de sucesso. E a gente já viu esse filme antes. Nos anos 90, o grunge foi exatamente esse movimento de ruptura, de desafiar o que era considerado esteticamente aceitável ou belo na época.

É um ciclo. Sempre que a gente chega nesse ápice de controle e de uma estética pasteurizada, surge esse movimento que quer chocar, que quer ser estranho, autêntico e imperfeito. É um respiro. As pessoas estão cansadas de tentar se encaixar em padrões que pedem perfeição o tempo todo. Acho que o anti-beauty é justamente a possibilidade de ser real em um mundo que te cobra, a todo momento, que você seja uma versão otimizada e impecável de si mesma.

Jarina: O anti-beauty pode ser considerado uma tendência ou um comportamento social mais amplo?

Thays: Eu estudei bastante esse movimento de beleza no ano passado através  do State Of Beauty, do Business of Fashion, e cheguei a uma conclusão que se conecta muito com o que vejo hoje. Naquela época, minha preocupação era entender como a beleza tinha se tornado uma interface de autorregulação. A gente viu o skincare e as rotinas de autocuidado se transformarem em uma forma de performance social, onde o controle absoluto sobre o corpo e a imagem virou o maior marcador de status.

O ponto é que esse controle cobrou um preço alto. O anti-beauty que vemos agora é o efeito rebote dessa era de otimização absurda. Quando a gente transforma o cuidado pessoal em um projeto de performance constante, com dezenas de etapas e a obrigação de estar sempre polida, o resultado inevitável é a exaustão.

É curioso notar como esse movimento surge no vácuo de outras pautas importantes. O body positivity, que nasceu para promover a aceitação real e a pluralidade, acabou sendo atropelado por uma era de corpos cada vez mais padronizados, muito por conta da popularização dos análogos de GLP-1. O mercado de beleza praticamente ignorou o corpo real em favor de uma magreza que hoje é vendida como sinônimo de saúde.

Nesse cenário, a estética anti-beauty aparece como um contraponto interessante. Ela não tenta ser saudável, ela tenta ser autêntica. Por isso vemos a cultura pop resgatando o Brat e essa energia clubber dos anos noventa, porque é um universo caótico que não pede desculpas. O retorno do cigarro como elemento estético também entra nessa conta. Ele deixa de ser apenas um vício para se tornar um símbolo de desobediência visual. É uma forma de sinalizar que a pessoa não está ali para performar o estilo de vida perfeito, mas para expressar uma rebeldia que questiona essa prisão da rotina impecável.

No fim, é um movimento de quem está cansado de ser um projeto de alta performance. As pessoas estão trocando a busca pela versão otimizada de si mesmas pelo direito de serem contraditórias, imperfeitas e reais.

Autenticidade em tempos de filtros e algoritmos

Também entrevistei a pesquisadora de tendências e comportamento Carolina Bicciato, a fim de compreender como o anti-beauty se relaciona com as transformações culturais e digitais da atualidade. 

Jarina: O movimento pode ser interpretado como uma reação à cultura dos filtros nas redes sociais, procedimentos estéticos e da busca pela perfeição?

Carolina: Sim, e talvez essa seja sua principal força motriz. Durante anos, filtros de realidade aumentada, aplicativos de edição e os procedimentos estéticos contribuíram para criar uma aparência cada vez mais padronizada. Essas tecnologias não apenas modificam imagens, mas também reforçam normas estéticas específicas e influenciam a percepção de identidade e autoestima. 

O anti-beauty surge justamente como contraponto a esse cenário.

Fenômenos recentes como o “anti-filler makeup”, a valorização de rugas naturais, a exibição de pele sem filtros e a estética “brat” ou indie sleaze, marcadas por um visual mais bagunçado e imperfeito, refletem uma reação ao excesso de curadoria visual que dominou a década passada. O movimento questiona a obrigação social de parecer constantemente melhorado, além da rejeição à procedimentos ou maquiagem padrão.

Jarina: Existe o risco de o anti-beauty ser transformado em mais um padrão de beleza comercial?

Carolina: Sem dúvida. Esse é um dos paradoxos mais interessantes do fenômeno. Historicamente, a indústria da beleza possui grande capacidade de absorver movimentos de contestação e transformá-los em produtos, narrativas e novas categorias de consumo.

Já vemos sinais disso quando conceitos como “beleza autêntica” ou “imperfeição” passam a ser usados como posicionamento de marca. O mercado rapidamente aprende a vender a ideia de autenticidade. O risco é que o anti-beauty deixe de ser uma crítica aos padrões e se torne apenas outro padrão: a obrigação de parecer naturalmente imperfeito na medida certa.

Essa dinâmica já aconteceu com movimentos anteriores. O body positivity, por exemplo, nasceu como uma pauta política e social, mas parte de sua potência foi absorvida por estratégias de marketing. Por isso, a questão central para os próximos anos não é se o anti-beauty crescerá, mas se conseguirá preservar sua dimensão crítica diante da capacidade da indústria de transformar resistência em consumo.

O anti-beauty na visão de quem consome

Embora especialistas apontem o anti-beauty como uma resposta ao excesso de padronização estética nas redes sociais, o movimento também pode ser observado na forma como consumidores se relacionam com a própria imagem. Para entender melhor como isso acontece, conversei com Lola Moura, consultora de imagem, estilo e produção de moda pelo IFPR e graduada em Comunicação e Multimeios pela UEL – Maringá.  

Jarina: Você já ouviu falar sobre o anti-beauty?

Lola: Sim, com certeza. E acredito que o movimento anti-beauty na verdade não seja uma tendência e nem algo que chegou recentemente para contrapor algum movimento atual, vejo movimento como uma vertente do punk, pessoas que usam da sua imagem para expressar potência, força, política, identidade, personalidade e originalidade. O anti-beauty na verdade nem tem a pretensão de ser anti nada no fim das contas, é sobre ser a favor de tudo, sem regras, é a favor tanto do exagero quanto da naturalidade, do grotesco e do visceral, ao mesmo tempo em que prega pelo que é mais natural dentro de cada um de nós, a expressão e individualidade de cada um.

Jarina: Como conheceu influenciadores ou criadores de conteúdo que seguem essa estética? 

Lola: Eu adoro pesquisar criadores que são originais, então foi pela minha própria curadoria mesmo ao longo dos tempos, eu sempre priorizei seguir pessoas que fazem coisas diferentes, que buscam criar fora da caixinha e que tem estéticas interessantes. Gosto muito do conteúdo da Carol Barragana, Luara Reisinger, elenaiceice e a mundanaaaa. Tudo começou realmente com um desejo de ver beleza em diversas formas de expressão.

Jarina: O que chamou sua atenção nesse tipo de conteúdo? 

Lola: Como já disse, a originalidade sempre me chama muito a atenção, gosto de gente diferente, os criadores de conteúdo que sigo, em sua maioria, não fazem questão de se parecer com todo mundo, cada um tem sua estética, e isso me inspira muito em ser mais eu mesma, mesmo que essas pessoas não tenham estéticas que combinam com a minha, eles sempre me inspiram a buscar uma versão mais minha de mim. 

Eu acho incrível como as pessoas são únicas, acredito que é a característica que mais me chama atenção nos seres humanos, nossa pluralidade e a chance que temos de inovar, de personalizar nossa aparência e nos tornarmos diversas versões de nós mesmos, e é isso que me chama atenção nesses creators e na ideia do anti-beauty num geral.

Jarina: Você se identifica com os valores que esse movimento defende? Por quê?

Lola: Eu me identifico com o movimento porque eu entendi que não preciso ser a versão socialmente aceitável de “bonita” todos os dias, eu posso ser a minha própria versão do que é bonita. Aprendi depois de muito tempo, que para sermos mais felizes e vivermos em paz conosco, é preciso aceitar nossas partes mais profundas, íntimas e escuras, então não são todos os dias que eu quero ou posso estar dentro dos padrões definidos pela sociedade do que é bonito, aceitável, agradável, eu posso ser tantas outras coisas, e isso não define quem eu sou totalmente.

O anti-beauty é revolucionário no sentido da liberdade de ser e parecer quem você realmente é, sem amarras do que é considerado bonito, sem a pressão de agradar o tempo todo, o movimento é sobre liberdade do corpo, uma liberdade política de ser quem se é.

Jarina: De que forma esse conteúdo influencia a maneira como você enxerga sua própria aparência?

Lola: Eu entendi que minha aparência pode ser muito mais do que apenas um rostinho bonito, eu posso ser excêntrica, original, divertida, dramática, expor em roupas, maquiagem, cabelo, piercings e tatuagens tudo aquilo que eu sinto por dentro, tudo aquilo que eu sou. Desde então parei de sentir uma obrigação de sempre parecer bonitinha e arrumadinha, eu me sinto bem comigo mesma na maior parte do tempo, e mesmo quando não me sinto “bonita” ou minha autoestima não está nos melhores dias, eu entendo que isso não me define, me sentir bonita ou não, não muda quem eu sou. 

Eu parei de me importar com a opinião alheia também sobre como eu me pareço, porque eu tenho confiança de como estou, quem eu sou e qual imagem eu quero passar, porque hoje também faço as coisas com mais intenção do que quando só queria me encaixar num padrão, então minha autoestima e consciência física são outras depois que abracei a beleza de ser imperfeita. É revolucionário não se encaixar, e isso faz parte de quem eu sou.

Uma nova forma de existir visualmente

Seja como tendência, comportamento ou forma de expressão individual, o anti-beauty evidencia um questionamento cada vez mais presente na cultura digital: a necessidade de corresponder a padrões de beleza cada vez mais rígidos e performáticos. Em um cenário marcado por filtros, algoritmos e imagens cuidadosamente construídas, o movimento propõe uma reflexão sobre autenticidade, liberdade e pertencimento. Ele não quer somente redefinir o que é considerado belo, mas também pretende ampliar as possibilidades de existir visualmente. Isso permite que a aparência seja menos uma obrigação e mais uma forma de expressão pessoal. 

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Escrito por Jarina Milena I Editado por Ana Carolina Gomes 

Graduada em Audiovisual, Redatora, Cientista Social e Fotógrafa gótica e indie, ama escrever, criar e estar sempre antenada ao universo da moda, cinema e cultura. Enxerga a moda como comunicação, expressão e vínculo social, utilizando-a como ferramenta para transmitir sentimentos, reflexões e questionamentos no cotidiano. Criativa e observadora, gosta de unir senso crítico, estética e autenticidade em tudo o que faz. Também ama um sorvete de casquinha mista, viajar e sair da rotina sempre que possível.

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