Em quase 100 anos de Oscar, as mulheres ainda são minoria na maior premiação do cinema, por quê?
O Oscar 2026 fez história, pois pela primeira vez, em 98 anos, uma mulher venceu na categoria de Melhor Fotografia. Mas quando olhamos para os números outra história é contada e dos 24 prêmios distribuídos na premiação, apenas 4 foram para mulheres. Desde 1928, só 17% das estatuetas foram delas.

Havia uma certa ironia no ar no Dolby Theatre, em Los Angeles, no último domingo (15). Em uma noite que reservava um marco histórico para as mulheres no cinema, os números gerais do Oscar 2026 entregavam uma realidade bem mais ambígua, dos 24 prêmios distribuídos na cerimônia, 20 foram para homens e apenas 4 para mulheres. Em quase um século de premiação, só 17% das estatuetas foram entregues a mulheres.
O dado vem de uma pesquisa da Marie Claire Brasil, e não é isolado. Segundo levantamento da IstoÉ Mulher, quando se considera o total de vencedores da edição 2026, incluindo categorias com múltiplos ganhadores, as mulheres representaram cerca de 28,85% das 52 estatuetas distribuídas na noite, premiadas em 13 das 24 categorias. Um avanço pontual que, por si só, não apaga a desigualdade estrutural que molda Hollywood há décadas.
O marco e o paradoxo
O momento mais simbólico da noite foi, também, o mais revelador. Autumn Durald Arkapaw venceu na categoria de Melhor Fotografia pelo filme Pecadores, tornando-se a primeira mulher, e a primeira mulher não branca entre as quatro já indicadas na categoria, a levar esse prêmio em 98 anos de cerimônia. No palco, ela pediu que todas as mulheres presentes na sala se levantassem. “É uma grande honra estar aqui”, disse, “e eu realmente quero que todas as mulheres nesta sala se levantem, porque sinto que não teria chegado até aqui sem vocês.”

O discurso emocionou, mas quando paramos para refletir, ele nos indigna. O prêmio de Autumn é, ao mesmo tempo, celebração e sintoma, pois se em quase cem anos apenas uma mulher havia sido premiada em Fotografia, algo no sistema impede que talentos como o dela cheguem até esse palco com mais frequência.
O que os números escondem (e o que revelam)
No Oscar 2026, nenhuma mulher foi sequer indicada nas categorias de Melhor Roteiro Original, Trilha Sonora Original e Montagem. Em Melhor Direção e Efeitos Visuais, havia apenas uma representante feminina em cada. A única diretora indicada foi Chloé Zhao, por Hamnet e ela não venceu.
Para entender o peso disso, basta olhar o histórico: em quase um século de Oscar, apenas 11 mulheres foram indicadas a Melhor Direção e três venceram: Kathryn Bigelow em 2010, Chloé Zhao em 2021 e Jane Campion em 2022. Isso equivale a apenas 3% das estatuetas da categoria em toda a história da premiação.
Houve, sim, avanços pontuais nesta edição. Pela primeira vez, as mulheres foram maioria entre os indicados a Melhor Filme de Animação, em Direção de Arte, representaram 60%, a nova categoria de Melhor Seleção de Elenco teve quatro dos cinco indicados femininos e a vitória foi de Cassandra Kulukundis por Uma Batalha após a Outra, em Melhor Figurino, pela nona vez na história, todos os indicados eram mulheres. Categorias que, não por acaso, historicamente, têm maior presença feminina.

O padrão não é aleatório e, de fato, as mulheres avançam com mais facilidade onde já tinham alguma presença consolidada. Nas categorias de poder criativo e técnico, como direção, roteiro, fotografia, montagem, a desigualdade persiste.
A estrutura sustenta o desequilíbrio
Segundo a presidente e CEO do Women’s Media Center, Julie Burton, a proporção de mulheres indicadas em categorias que não são de atuação permanece abaixo de 32%. E a raiz do problema está antes do tapete vermelho: nos bastidores de Hollywood, os homens ainda dominam os cargos de liderança e controlam os maiores orçamentos de produção. Menos mulheres recebendo oportunidades para dirigir grandes produções ou liderar departamentos técnicos significa, inevitavelmente, menos mulheres elegíveis para as indicações.
“Executivos de Hollywood, estúdios e outros tomadores de decisão precisam abrir mais oportunidades para mulheres se quisermos uma transformação consistente”, afirmou Burton. A frase resume bem o que os números do Oscar revelam, em que o problema não está na cerimônia, mas no sistema que decide quem chega até ela.

O Oscar 2026 registrou 33% de mulheres entre os 218 indicados, o maior índice da história, igualando o recorde de 2021. Ainda que exista um avanço real, entre o recorde de indicações e a proporção de vitórias (28,85%), há uma lacuna que revela que indicar mais não é o mesmo que premiar com equidade.

O que muda e o que ainda precisa mudar
A vitória de Autumn Durald Arkapaw desloca o que é percebido como possível para nós mulheres e ajuda a criar referências para as próximas gerações, mas um Oscar sozinho não reescreve décadas de exclusão estrutural.
Para cinco homens indicados, uma mulher recebe indicação. A proporção de ganhadoras ao longo de toda a história da Academia é idêntica à de indicadas: 17%. Isso significa que, mesmo quando chegam à indicação, as mulheres não vencem em maior proporção do que os homens, fica claro que o desequilíbrio começa antes, na sociedade.

O Oscar reflete Hollywood, que reflete as escolhas de quem financia, de quem contrata, de quem dá oportunidades. Enquanto essas escolhas continuarem sendo feitas majoritariamente por homens, o tapete vermelho continuará sendo mais longo para elas do que para eles.
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Escrito por Júlia de Moura I Editado por Ana Carolina Gomes


