Tendências

Natureza como armadura: Louis Vuitton e o imaginário de Nicolas Ghesquière

Apresentada em 10 de março de 2026, durante a Paris Fashion Week, a coleção Inverno 2026 da Louis Vuitton encerrou a temporada com um espetáculo que reafirma o caráter narrativo do trabalho de Nicolas Ghesquière.

Montada no pátio histórico do Louvre, a passarela foi transformada em uma paisagem montanhosa artificial, cenário que antecipava o tema da coleção: a relação entre natureza, deslocamento e proteção. A proposta partia da ideia de que a roupa, antes de ser uma linguagem estética, nasce como ferramenta de sobrevivência.

Mais do que apresentar tendências, Ghesquière construiu uma narrativa visual sobre viagem e adaptação. O resultado foi uma coleção que mistura fantasia e funcionalidade, situando o vestuário em um território entre mito e exploração.

Louis Vuitton | Paris | Inverno 2026 — Foto: Launchmetrics Spotlight

Silhueta como proteção

A silhueta foi construída em torno de volumes amplos e envolventes, muitas vezes com aparência quase arquitetônica. Ombros largos, casacos cocoon e capas estruturadas criavam uma sensação de abrigo – como se as roupas funcionassem como armadura contra o ambiente.

Peças de shearling volumoso, capas pesadas e sobretudos acolchoados reforçaram essa ideia de proteção. Em diversos looks, a construção envolvia o corpo de maneira quase escultórica, criando formas arredondadas ou infladas que ampliaram a presença da figura na passarela.

Ao mesmo tempo, vestidos de estrutura mais solta surgiam como contraponto, com modelagens amplas que lembravam tendas ou mantos de viagem. Nesses momentos, a silhueta abandonava a rigidez e assumia uma fluidez quase ritualística.

Folclore, fantasia e paisagem

A coleção explorou referências ao imaginário rural e ao folclore de diferentes regiões montanhosas — dos Alpes à Ásia Central. Elementos visuais associados à vida em ambientes extremos aparecem reinterpretados em linguagem de alta moda.

Estampas com animais como lobos, ovelhas e coelhos surgiram bordadas em saias e casacos, enquanto chapéus cônicos e golas volumosas introduziram um tom lúdico à apresentação.

Alguns looks incorporaram acessórios inesperados: bastões de caminhada, cestos de vime gigantes ou galhos carregados pelas modelos. Esses elementos reforçam a ideia de jornada e deslocamento, aproximando o desfile de uma narrativa quase mitológica.

Texturas e matéria

A coleção também se destacou pela variedade de superfícies. Patchworks de lã, couros acolchoados, peles volumosas e tecidos tecnológicos criaram um jogo constante entre rusticidade e inovação.

Nesse contexto, o conceito de “hyper-craft” – mencionado pela própria casa – traduzia uma abordagem em que a natureza não é apenas representada, mas reinterpretada através da técnica.

O resultado foi uma coleção rica em camadas visuais: superfícies ásperas contrastavam com tecidos mais suaves, enquanto detalhes como colarinhos franzidos e bordados delicados introduziram momentos de leveza.

Acessórios como narrativa

Como é tradicional na Louis Vuitton, os acessórios desempenharam papel central no desfile.

Bolsas oversized, mochilas de viagem e versões reinterpretadas de modelos clássicos – como a bolsa Noé – apareceram integradas à narrativa de exploração. Algumas bolsas assumiram formas quase escultóricas, lembrando objetos de viagem ou pequenas estruturas arquitetônicas.

O calçado também contribuiu para o imaginário da coleção: saltos inspirados em galhadas e botas robustas reforçam a atmosfera aventureira da proposta.

Assim, enquanto as roupas exploravam dimensões mais conceituais, os acessórios atuavam como elo entre fantasia e produto, um equilíbrio característico da estratégia da maison.

Entre fantasia e estratégia

Desde que assumiu a direção criativa do womenswear da Louis Vuitton em 2013, Nicolas Ghesquière construiu uma identidade que combina referências históricas, futurismo e narrativa visual.

Nesta coleção, esse método aparece de forma particularmente clara. Enquanto muitas casas apostam em minimalismo ou pragmatismo comercial, Vuitton reforça seu papel como espaço de imaginação.

O desfile sugere que, para Ghesquière, a moda continua sendo também uma forma de contar histórias, roupas que protegem o corpo, mas também alimentam a fantasia.

Um final cinematográfico para a temporada

Encerrar a Paris Fashion Week com um cenário montanhoso no Louvre não foi apenas um gesto cenográfico. Foi uma declaração de método.

A coleção Inverno 2026 reafirma que a Louis Vuitton continua apostando em desfiles como experiências narrativas completas, onde cenário, roupa e acessório funcionam como capítulos de uma mesma história.

Em um momento em que muitas marcas buscam simplificar suas mensagens, Vuitton escolhe o caminho oposto: expandir o imaginário. E, ao fazê-lo, transforma a passarela em território de aventura.

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Escrito por Samara Marques I Editado por Ana Carolina Gomes 

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